André Ventura, líder do Chega, partilhou nas suas redes sociais um vídeo de um grupo de homens a cercar um carro da polícia. Segundo o deputado, “na Cruz de Pau (Seixal) um grupo de bandidos perseguiu e abalroou um carro de polícia. As imagens são estas e deviam fazer-nos pensar na selva em que vivemos”. Mas o que mostram realmente as imagens partilhadas por Ventura?
O incidente ocorreu na tarde de sábado, na Rua Dr. Emídio Guilherme Garcia, na Cruz de Pau, no Seixal, distrito de Setúbal. Segundo o “Correio da Manhã“, pelas 17h00 agentes da PSP tentaram realizar uma abordagem a uma viatura em circulação que terá passado um sinal vermelho. O condutor não acatou a ordem de paragem e encetou fuga, acabando por colidir com a lateral do carro-patrulha. O embate foi suficientemente violento para fazer capotar a viatura policial. Os dois agentes que seguiam no carro sofreram ferimentos ligeiros e foram transportados para o Hospital Garcia de Orta. O alerta foi dado às 17h17. Após a colisão, o condutor suspeito abandonou o local. Mas a “verdade” no “post” de André Ventura fica por aqui.
Os problemas começam na forma como o incidente é descrito e, sobretudo, no que as imagens mostram. Ventura fala num “grupo de bandidos” que “perseguiu e abalroou” o carro da polícia… mas nenhuma destas afirmações é suportada pelos factos conhecidos. As fontes policiais referem um único condutor, não um grupo. E a colisão não foi um abalroamento intencional contra a polícia e sim consequência de uma tentativa de fuga. Além disso, o vídeo partilhado por Ventura mostra várias pessoas reunidas em torno do carro-patrulha capotado, claramente a exercer força para o endireitar. A legenda sugere que essas pessoas são os “bandidos” responsáveis pelo ataque (“as imagens são estas”), mas também isto não corresponde à verdade.
As notícias sobre o incidente descrevem exatamente esta cena. Ainda segundo o “Correio da Manhã”, perante o cenário, “vários cidadãos que se encontravam no local ajudaram a colocar o carro da polícia novamente com as quatro rodas assentes no chão”.
Assim: o incidente no Seixal aconteceu, mas a publicação de André Ventura distorce a realidade em pelo menos três dimensões: transforma um suspeito num grupo, uma colisão em fuga numa perseguição intencional, e ainda usa imagens de cidadãos a ajudar a polícia como se fossem imagens de um ataque.
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