O movimento separatista na província canadiana de Alberta entregou quase 302 mil assinaturas às autoridades eleitorais para tentar convocar um referendo sobre a saída do Canadá, noticia o ‘ABC’.

A iniciativa surge após meses de declarações de Donald Trump sobre a possibilidade de anexar o Canadá e num momento em que a causa independentista ganhou nova força nesta região rica em petróleo.

A petição foi apresentada em Edmonton, capital de Alberta, pelo grupo Stay Free Alberta. O número de assinaturas supera largamente as cerca de 178 mil necessárias para obrigar as autoridades provinciais a analisarem a convocação de uma votação. Caso sejam validadas, a consulta poderá realizar-se já em outubro. A ‘Associated Press’ também confirmou a entrega de quase 302 mil assinaturas e o patamar exigido para desencadear o processo.

Alberta, no oeste do Canadá, tem cerca de cinco milhões de habitantes e uma das maiores reservas de petróleo do mundo. O separatismo local esteve durante décadas em segundo plano, mas ressurgiu nos últimos meses, alimentado por queixas políticas e económicas contra o Governo federal e por um ambiente de maior tensão entre Ottawa e Washington.

As sondagens citadas no texto apontam para um apoio à independência na ordem dos 30%. Outros levantamentos recentes têm indicado que a maioria dos habitantes de Alberta continua a preferir permanecer no Canadá, mas líderes dos dois lados admitem que o debate já alterou o equilíbrio político do país. A ‘AP’ refere que um voto favorável à separação não garantiria automaticamente a independência, uma vez que seriam necessárias negociações com o Governo federal e poderiam surgir contestações judiciais, incluindo de comunidades indígenas.

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Reuniões com responsáveis americanos levantam polémica

O movimento separatista ganhou atenção adicional depois de dirigentes de Alberta terem admitido contactos com responsáveis americanos ligados à Administração Trump. Jeffrey Rath, assessor jurídico do Alberta Prosperity Project, confirmou, numa entrevista à ‘CTV’, que se reuniu com representantes dos Estados Unidos, mas recusou revelar nomes.

“Reunimo-nos a um nível muito elevado”, afirmou Rath, dizendo ter “um acordo” para não identificar os responsáveis americanos envolvidos.

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As informações sobre esses contactos levaram o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, a pedir a Washington que respeitasse a soberania do Canadá. Segundo a ‘Reuters’, separatistas de Alberta intensificaram os esforços para promover uma votação depois de reuniões em Washington com responsáveis do Departamento de Estado americano.

Também a primeira-ministra provincial de Alberta, Danielle Smith, procurou distanciar-se de qualquer interferência externa, defendendo que o processo democrático deve ficar nas mãos dos habitantes da província. A ‘AP’ refere que Smith se comprometeu a avançar com o processo se as assinaturas forem validadas, embora diga que não apoia pessoalmente a separação de Alberta do Canadá.

A reação mais dura veio do primeiro-ministro da Colúmbia Britânica, David Eby. “Ir a um país e pedir ajuda para separar o Canadá… Há uma palavra antiquada para isso, e é traição”, afirmou.

Petróleo está no centro das atenções

O interesse político de Trump no separatismo de Alberta não foi assumido de forma direta. O presidente americano insistiu nos últimos meses na ideia de transformar o Canadá no 51º Estado dos EUA, mas a dimensão energética da província torna o caso particularmente sensível.

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Alberta é o principal centro petrolífero do Canadá. Em 2024, Washington importou cerca de 121 mil milhões de dólares em petróleo da província, cerca de 103 mil milhões de euros, mais do que de qualquer outra região canadiana. O Canadá é também o principal fornecedor estrangeiro de petróleo dos Estados Unidos.

Essa dependência energética dá ao debate uma dimensão geopolítica. Para os separatistas, Alberta deveria ter maior controlo sobre os seus recursos e sobre a política energética. Para os críticos, a aproximação a responsáveis americanos levanta dúvidas sobre interferência externa num assunto interno canadiano.

Votação pode chegar em outubro

A entrega das assinaturas não significa que o referendo vá acontecer automaticamente. As autoridades eleitorais terão agora de validar os nomes recolhidos. Além disso, há contestação judicial em curso por parte de comunidades indígenas, que alegam que uma eventual separação poderia violar direitos estabelecidos em tratados. O ‘The Guardian’ noticiou que a Sturgeon Lake Cree Nation pediu aos tribunais que travassem o processo, invocando direitos do Tratado n.º 8.

Se o processo avançar, a questão da secessão poderá ser submetida a votação em toda a província já em outubro.

Mesmo nesse cenário, a independência continuaria a estar longe de ser imediata. Um resultado favorável aos separatistas abriria uma fase de negociações políticas, disputas jurídicas e debate constitucional. Ainda assim, a entrega de quase 302 mil assinaturas mostra que uma causa durante muito tempo marginal voltou ao centro da política canadiana.