Os passageiros do comboio que saiu esta terça-feira de Beja às 10h45 com destino a Casa Branca, onde daria ligação ao Intercidades para Lisboa, estavam longe de imaginar que, quando faltava apenas cinco quilómetros para a estação de destino, ficariam parados durante três horas em plena via na planície alentejana. Relatos de passageiros indicam que foram assistidos em moto 4 por pessoas de um monte nas redondezas que lhes levaram água, bem como pela própria GNR que foi chamada também a dar uma ajuda.
A protagonista desta história é uma automotora, a UDD469 (UDD significa Unidade Dupla Diesel), que já andava avariada desde ontem (só um dos dois motores funcionava) e que acabaria por naufragar quase à vista do porto. Mas não estava só no infortúnio: a sua “irmã” UDD468, que também faz serviço na linha do Alentejo, efectuou ontem apenas meia viagem entre Casa Branca e Beja porque o maquinista, vendo-a arrastar-se com dificuldade somando minutos de atraso e receando não chegar ao destino, decidiu trocá-la em Vila Nova da Baronia pela UDD469 que lá estava estacionada. Com tudo isto, os passageiros que deveriam chegar a Beja às 21h16, acabaram por chegar às 23h10.
Hoje de manhã, contudo, devido à avaria da automotora, o comboio das 8h22 para Casa Branca foi realizado por um autocarro ao serviço da CP. Mas como a EN2 está interrompida para obras e o autocarro tem de fazer serviço nas estações e apeadeiros intermédios (Cuba, Alvito, Vila Nova da Baronia e Alcáçovas), a dado momento o motorista meteu-se por um desvio que levou a uma estrada de terra batida que culminou num portão de uma propriedade agrícola a barrar a passagem.
Os clientes da CP que viveram estas vicissitudes acabariam por perder a ligação do Intercidades para Lisboa. Mas o seguinte também atrasou e acabou por chegar ao Oriente com 98 minutos de atraso.
Pior sorte tiveram, então, os clientes do comboio seguinte a sair de Beja. O das 10h45 era formado pela UDD469 que a CP, à falta de mais material, insistiu em pôr nos carris apesar de só ter um motor a funcionar. Fez, corajosamente, 59 dos 64 quilómetros do percurso, mas arrochou quando faltavam apenas cinco. Teve de ser resgatada por uma locomotiva enviada de Lisboa que a rebocou para Casa Branca para deixar os passageiros, seguindo depois para Santa Apolónia para ser reparada.
Na linha do Alentejo o serviço deveria funcionar com três automotoras (duas em serviço e uma de reserva), mas neste momento há zero automotoras porque as únicas duas avariam. Uma automotora que vinha durante a tarde de Lisboa para Beja para mitigar o problema também avariou em Vendas Novas.
A degradação do serviço da CP em linhas que dependem de material diesel devem-se à escassez desse tipo de material e à sua propensão para avariar por se tratarem de automotoras envelhecidas. A empresa tem vindo a devolver a Espanha automotoras que tinha alugadas e que atingiram o limite de quilometragem. As que sobram são obrigadas a fazer mais quilómetros aumentando assim a probabilidade de avarias.
Tudo isto poderia ter sido evitado se a IP tivesse concluído atempadamente as modernizações das linhas do Algarve e do Oeste. A do Algarve já tem a construção física completa, mas aguarda a homologação, a qual deve ser instruída pela IP e entregue ao IMT (Instituto da Mobilidade e dos Transportes). Na linha do Oeste as obras arrastam-se desde 2020 sem fim à vista.
O presidente da CP, Pedro Moreira, questionado sobre este assunto num evento organizado pela FEUP (Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto) no passado dia 27 de Abril, reconheceu as dificuldades de material circulante. “Não temos muitas vezes capacidade de substituir unidades porque estamos a usar a totalidade do material circulante [a diesel] que nós temos”, disse. Mas confrontado com a inexistência de um plano B para esta situação, reconheceu que não o tinha, limitando-se a contar que estavam em conversações com a Renfe para o eventual aluguer de mais material.
A CP chegou a ter um plano para remotorizar (colocar novos motores) em toda a série de automotoras UDD, o que resolveria o problema das avarias, mas Pedro Moreira não explicou porque motivo esse plano não avançou.