O major-general Arnaut Moreira defendeu, numa análise na ‘CNN Portugal’ sobre a guerra no Irão e o descontentamento manifestado por Donald Trump relativamente à Europa, que uma eventual retirada de 5 mil militares americanos do continente europeu teria um peso político muito superior ao seu impacto puramente militar. E deixou uma frase clara: “O serviço militar obrigatório tem de regressar, e em força.”
A análise parte da presença militar global dos Estados Unidos. Segundo Arnaut Moreira, os EUA têm “à volta de 128 grandes bases militares” espalhadas por três grandes núcleos estratégicos. Um deles situa-se na região da Ásia-Pacífico, com “mais de 160 mil” militares, sobretudo no Japão e na Coreia do Sul. O segundo grande grupo está na Europa, com “68 mil militares”, metade dos quais na Alemanha. O terceiro núcleo encontra-se no Médio Oriente, com cerca de “6 mil militares”.
É neste enquadramento que o major-general considera que uma redução de 5 mil soldados americanos na Europa não pode ser vista como um número menor. “5 mil é um número muito grande que não pode ser desvalorizado”, afirmou, acrescentando que a medida teria “uma leitura de natureza política superior à natureza militar”.
A questão central, segundo Arnaut Moreira, é saber se os países europeus conseguiriam substituir essa presença americana. A resposta foi direta: “Com muita dificuldade.”
“Por cada americano, são precisos cinco”
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O major-general sublinhou que a presença militar americana não se resume ao número de soldados destacados. Há capacidades logísticas, sistemas de armamento, estruturas de apoio e meios operacionais que tornam a substituição muito mais complexa do que uma simples troca de efetivos.
“A Europa não consegue substituir cinco mil tropas americanas, que correspondem a cerca de 20 mil soldados europeus”, afirmou Arnaut Moreira. Para o major-general, “não basta substituir um soldado americano por um europeu”, porque existe “todo um sistema de logística, de armas” associado à presença militar dos Estados Unidos.
A frase que resume a dimensão do problema é particularmente expressiva: “Por cada americano, são precisos cinco.”
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Esta leitura reforça a ideia de que a dependência europeia em relação aos Estados Unidos continua a ser estrutural. Mesmo que os países europeus aumentem os seus orçamentos de Defesa, a substituição de capacidades americanas exigiria tempo, investimento e uma reorganização profunda das Forças Armadas europeias.
Serviço militar obrigatório volta ao debate
É neste contexto que Arnaut Moreira coloca o regresso do serviço militar obrigatório em cima da mesa. Para o major-general, se os Estados Unidos reduzirem a sua presença militar na Europa, os países europeus terão de enfrentar uma realidade difícil: faltam meios humanos para compensar rapidamente essa retirada.
“O serviço militar obrigatório tem de regressar, e em força”, defendeu.
A declaração surge num momento em que a segurança europeia voltou a estar sob pressão. A guerra no Irão, a instabilidade no Médio Oriente e o desconforto de Trump com o papel da Europa na Defesa reacendem uma discussão sensível dentro da NATO: até que ponto os aliados europeus estão preparados para garantir a sua própria segurança sem dependerem tanto dos Estados Unidos?
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Para Arnaut Moreira, a eventual retirada de tropas americanas deve ser lida como um sinal político. Não se trata apenas de perder 5 mil militares, mas de perceber que Washington pode estar a reavaliar o grau de envolvimento na defesa europeia.
Essa possibilidade obriga a Europa a discutir não apenas dinheiro, equipamento e estratégia, mas também recrutamento. O problema, na visão do major-general, é que a substituição da presença americana não se faz apenas com mais despesa pública. Faz-se também com mais soldados, mais capacidade logística e maior prontidão operacional.
Europa confrontada com a sua própria defesa
A análise de Arnaut Moreira coloca a Europa perante uma fragilidade antiga, mas agora mais visível: a dependência dos Estados Unidos continua a ser decisiva em matéria de segurança. A eventual saída de 5 mil militares americanos da Europa poderia ser absorvida no plano estatístico, mas não no plano estratégico.
A diferença está na qualidade dos meios, na capacidade de projeção, no apoio logístico e na integração operacional que os Estados Unidos asseguram no continente. Por isso, a redução de efetivos americanos não teria apenas consequências militares. Teria também impacto político, ao expor a vulnerabilidade europeia perante uma Administração americana menos disponível para suportar o mesmo nível de compromisso.
Para Portugal, o debate também tem relevância. O país integra a NATO, participa em missões internacionais e enfrenta, como outros aliados europeus, dificuldades de recrutamento nas Forças Armadas. A hipótese de recuperar o serviço militar obrigatório seria politicamente sensível, mas a discussão ganha força num cenário em que a Europa é chamada a assumir maior responsabilidade pela sua defesa.
A mensagem deixada pelo major-general é clara: se Trump reduzir a presença militar americana na Europa, os países europeus terão de decidir se querem apenas aumentar orçamentos ou se estão dispostos a reconstruir, em profundidade, a sua capacidade militar.