A explosão da Inteligência Artificial (IA) está a forçar os governos a tomar decisões difíceis sobre quem tem direito à energia elétrica. Depois de os Estados Unidos terem começado a ponderar sobre o tema, a Dinamarca tornou-se no primeiro país nórdico a impor uma pausa nos novos projetos de centros de dados.
Em março deste ano, o operador estatal da rede elétrica dinamarquesa, Energinet, anunciou uma pausa temporária em todos os novos acordos de ligação à rede, após uma “explosão” nos pedidos de capacidade.
Neste momento, estão à espera de ligação projetos que somam cerca de 60 GW, um valor que ultrapassa em quase nove vezes a procura máxima do país, que ronda os 7 GW. Só os centros de dados representam 14 GW desse total, ou seja, praticamente um quarto de toda a fila.
O diretor-executivo da Data Center Industry Association dinamarquesa (DDI), Henrik Hansen, reconhece que a situação criou uma fila “fantasma”, onde a distância entre o que está disponível e o que foi pedido não para de crescer.
Não é possível simplesmente enlouquecer com todo o tipo de acordos de ligação, porque a energia não está disponível.
Disse Hansen, em declarações à CNBC, defendendo a necessidade de critérios mais rigorosos para determinar quem deve ter prioridade de acesso.
A capacidade dos centros de dados da Dinamarca deverá ultrapassar os 5 GW até 2050. Crédito: CNBC
Os “jogos da fome” da política energética
Perante este cenário, Sebastian Schwartz Bøtcher, da Schneider Electric, apelidou a situação de “jogos da fome da política energética”, através do LinkedIn, descrevendo uma disputa entre centros de dados e outras empresas pelo acesso à eletricidade.
Para alguns países, como os Países Baixos, a questão chegou a reduzir-se a escolher entre um centro de dados ou um hospital.
Por sua vez, Tobias Johan Sørensen, analista sénior do think tank Concito, defendeu que, embora ninguém deva ser enviado para o fim da fila, devem existir filas diferentes com base em critérios claros.
Na Dinamarca, a pausa está prevista para durar três meses, ou até que o Energinet consiga fazer um levantamento da situação e implementar novas medidas para aumentar a capacidade.
O problema é que qualquer decisão política está bloqueada enquanto o país termina o processo de formação de um novo governo após as eleições gerais.
Em outubro de 2025, informámos que a China estava a anunciar a conclusão da construção do que estava a ser comunicado como o primeiro centro de dados subaquático movido a energia eólica do mundo, marcando um passo ousado em infraestrutura de computação sustentável e de alto desempenho.
As grandes tecnológicas ameaçam mudar-se da Dinamarca
A incerteza regulatória está a pôr as gigantes tecnológicas em alerta máximo.
Não tenho a certeza de que os governos percebem a rapidez com que isso pode acontecer.
Avisou Diana Hodnett, diretora global de relações públicas de data centers da Google, explicando que, quando não há certeza sobre o levantamento das moratórias, as empresas redirecionam imediatamente os investimentos para outros mercados.
A mesma preocupação foi partilhada por Pernille Hoffmann, diretora-geral para os países nórdicos da Digital Realty.
Se não conseguires instalar as tuas cargas de trabalho de IA na Dinamarca, vais simplesmente movê-las para outro sítio. E isso vale tanto para a Dinamarca como para toda a região nórdica.
A Microsoft, que planeia investir três mil milhões de dólares em centros de dados dinamarqueses entre 2023 e 2027, sublinhou que estas infraestruturas são essenciais para os clientes locais que precisam de armazenar e processar dados em solo europeu, ao abrigo da legislação da União Europeia.
Para Alistair Speirs, da Azure Infrastructure, “a questão central não é se a procura por poder de computação abranda; é a rapidez com que a infraestrutura e a política conseguem acompanhar”.
Uma oportunidade para repensar as regras
Ainda que a Dinamarca esteja num impasse que pode afastar as empresas tecnológicas, Søren Dupont Kristensen, diretor de operações do Energinet, considera que a pausa pode ser encarada como uma “janela de oportunidade” para repensar a regulação antes que o crescimento supere completamente a capacidade de governação.
O exemplo da Irlanda é apontado como caso de estudo: depois de levantar a sua moratória, o país desenvolveu aquilo que é descrito como um dos quadros regulatórios mais completos da Europa para gerir grandes consumidores de energia.
Dinamarca serve de aviso para toda a Europa
A Dinamarca pode ser o primeiro país nórdico a enfrentar este problema, mas não será o último.
Os Países Baixos e a Irlanda já passaram por situações semelhantes; e, nos Estados Unidos, estados como o Maine, Virginia e Oklahoma têm estudado medidas idênticas.
O crescimento da IA está a comprimir décadas de procura energética em apenas alguns anos, e as redes elétricas, projetadas para outro tempo, estão a acusar os seus limites.
A forma como a Dinamarca resolver este imbróglio poderá servir de exemplo para o caminho a ser adotado pelo resto do continente.
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