Tânia Correia nem queria acreditar quando a filha mais velha, de 10 anos, chegou a casa com uma ficha para preencher com associações às cores da pele.
O trabalho, no âmbito da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, numa escola da Grande Lisboa, pretendia abordar o tema da interculturalidade com os alunos do 5.º ano, depois de lhes ter sido mostrado em aula o vídeo “Meninos de Todas as Cores”, inspirado na obra homónima de Luísa Ducla Soares, editada pela primeira vez em 1980.
Tal como o livro, que tem 46 anos e tem sido frequentemente reeditado (2010, 2014, 2016 e 2025), o vídeo, alojado no YouTube, no canal “Histórias do Salta Letrinhas”, compara as várias cores da pele com diferentes elementos e começa assim: “Era uma vez um menino branco chamado Miguel, que vivia numa terra de meninos brancos e dizia: ‘é bom ser branco porque é branco o açúcar, tão doce; porque é branco o leite, tão saboroso; porque é branca a neve, tão linda'”.
Entretanto, Miguel parte numa “grande viagem” por várias “terras”. Na “terra onde todos os meninos são amarelos”, uma menina dizia: “é bom ser amarelo porque é amarelo o sol e amarelo o girassol, mais a areia amarela da praia”.
Já na “terra onde todos os meninos são pretos”, Miguel “fez-se amigo de um pequeno caçador” que dizia: “é bom ser preto como a noite, preto como as azeitonas, preto como as estradas que nos levam a toda a parte”.
E assim continua pela terra onde “todos os meninos são vermelhos” e pela terra onde todos são “castanhos”.
No fim, o menino volta à “terra de meninos brancos” e diz: “é bom ser branco como o açúcar, amarelo como o sol, preto como as estradas, vermelho como as fogueiras e castanho como o chocolate”.
O vídeo, assim como a aula onde foi visionado e o livro original, terão como objetivo promover a igualdade e combater o racismo. Porém, o que a divulgação do mesmo acaba por fazer hoje em dia é reforçar estigmas e sentimentos de exclusão ou de ‘não pertença’, uma vez que se foca apenas na cor da pele e utiliza analogias anacrónicas para a descrever.
Embora o conteúdo pudesse ser considerado progressista e até acolhedor na década de 80, a sociedade evoluiu e hoje sabe-se que “não se combate o racismo com associações às cores da pele”, como realçou Tânia Correia, que é também psicóloga e fundadora da clínica 3Ms, ao Notícias ao Minuto.
Além de Tânia e da filha, cujo pai é luso-angolano, muitas outras pessoas ficaram constrangidas com o vídeo. São mais de 800 as que, só na publicação que a psicóloga partilhou nas suas redes sociais sobre o assunto, admitiram estar atónitas com o facto de vídeos como estes ainda passarem nas escolas portuguesas.
Algumas revelaram até ter visto o mesmo vídeo nas aulas… há 30 anos. E já na altura se sentiram constrangidas. Apesar disso, as imagens (e estes ensinamentos) continuam a passar, três décadas depois.
Livro integra Plano Nacional de Leitura e “é recomendado”
Questionado pelo Notícias ao Minuto sobre o assunto, o Ministério da Educação começou por lembrar que o livro “Meninos de Todas as Cores”, de Luísa Ducla Soares, “integra o Plano Nacional de Leitura (PNL) há mais de uma década” e encontra-se “atualmente recomendado, no âmbito do PNL2027, para a faixa etária dos 3 aos 5 anos, no domínio da educação literária”.
Sobre o vídeo em causa, o ministério tutelado por Fernando Alexandre ressalvou que este “constitui uma adaptação do texto literário [acima descrito] para uma narrativa visual, não alterando a essência da obra original” e não vê problemas em que este seja utilizado “frequentemente” por professores como “recurso pedagógico, com o objetivo de facilitar a compreensão por parte das crianças”, uma vez que respeita o conteúdo simbólico e a intencionalidade educativa do texto”.
Para o Governo, a obra “Meninos de Todas as Cores” continua assim a ser “amplamente reconhecida como uma referência à diversidade e à interculturalidade”. “Foi, inclusivamente, adotada por organizações como a OIKOS e a UNICEF, no âmbito de campanhas conjuntas contra o racismo e a segregação, tendo dado origem a múltiplas iniciativas educativas, como maletas pedagógicas, exposições itinerantes e representações em teatro de marionetas. Adicionalmente, tem sido utilizada em projetos da Rede Europeia Anti-Pobreza, com o apoio do Alto Comissariado para as Migrações”, acrescentou o Ministério da Educação.
Apesar disso, o gabinete de Fernando Alexandre sublinhou, em resposta ao Notícias ao Minuto, que o vídeo em questão “não constitui uma recomendação institucional, nem foi sujeito a validação prévia”. Por essa razão, o seu grau de utilização em contexto didático é “desconhecido”.
Evidenciou ainda o ministério que “a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento não assenta num programa fechado de recursos obrigatórios, mas antes em orientações curriculares que promovem a autonomia pedagógica dos docentes na seleção de materiais adequados” e que “os professores que abordam temas como multiculturalidade, igualdade, racismo ou discriminação enquadram a sua prática nas Aprendizagens Essenciais e em documentos orientadores, da responsabilidade do Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação”.
“Conteúdos como este devem ser já afastados das escolas”
A explicação do Governo e o facto de tanto o livro como o vídeo serem recomendados para utilização nas salas de aulas contrasta com o que defendem diversos psicólogos (e não só) e com o sentimento que muitos internautas dizem ter tido ao visualizar as imagens.
“Absurdo”, “completamente ao lado”, “triste”, “cheira-me a anos 80, no mínimo”, “esta história já não devia contada, temos de evoluir” são apenas alguns dos comentários que constam na publicação de Tânia Correia sobre o tema e que conta já com mais de 8 mil ‘gostos’.
Uma seguidora da psicóloga vai mesmo direta ao ponto: “É muito importante darmos estes testemunhos pois podem fazer com que mais famílias fiquem atentas a estes conteúdos. A renovação dos manuais escolares é urgente, mas é um processo longo e moroso. No entanto, estas ações podem ser implementadas imediatamente. Conteúdos como este devem ser já afastados das escolas”.
“As crianças não são iguais às da década de 80”
O risco de não o fazer é amplificar o racismo e a discriminação, em vez do que, alegadamente, seria o objetivo da obra, do vídeo e da alusão aos mesmos nas aulas.
Para evitar situações como esta, Tânia Correia, como psicóloga e mãe habituada a lidar com estes desafios, aconselha que professores, diretores e até o Governo ouçam quem enfrenta estes problemas.
“As crianças não são iguais às da década de 80. O mundo não está igual, a nossa sensibilidade não está igual”, lembrou ao Notícias ao Minuto, acrescentando que o melhor será sempre “perguntar, mandar um e-mail, perceber qual a melhor abordagem ao tema junto de quem passa por estas dificuldades”.
“Se fizesse um trabalho sobre uma criança, por exemplo, que anda de cadeira de rodas, eu teria todo o gosto em ouvir os pais, todo o gosto em aprender, porque há dificuldades que tenho a certeza que não antecipo, por muito que já tenha lido ou visto vídeos sobre o tema”, exemplificou, recusando a ideia de que é preciso evitar “incomodar” os educadores.
“Isto não é escola e casa, nós estamos em ligação. Temos de estar interligados para evitar tantos problemas”, salientou.
“Não temos de convencer as crianças de que somos todos exatamente iguais”
Sobre a abordagem, em concreto, a psicóloga defende que “não temos de convencer as crianças de que somos todos exatamente iguais”, é positivo é “falarmos do porquê de algumas diferenças a nível de espécie” e “explicar como essas diferenças são apenas a nível adaptativo externo e como a nível interno há muita coisa que é igual, tanto a nível de gostos, como a nível de personalidades”.
E para isso “temos de dar espaço para falar realmente sobre a diferença e não estar logo a convencer de que é tudo igual”.
Somando a isso, como explicou Tânia Correia em conversa com o Notícias ao Minuto, “não podemos estar centrados só na questão das cores, temos de falar mesmo de várias características enquanto humanos, que foram adaptativas de acordo com o ambiente onde crescemos”.
Para a psicóloga, é assim essencial “dar espaço aos alunos para explorarem, trazerem também aquilo que são as suas próprias crenças e os seus próprios preconceitos”. “Podemos e devemos falar abertamente destes temas. O nosso cérebro está preparado para procurar o que é diferente e rotular essa diferença. Nós podemos é escolher o que fazemos com isso”, alertou, apelando a que as escolas tenham “conversas abertas com as crianças e jovens” sobre este e outros temas importantes.
“Isto [a reprodução durante décadas de um vídeo como o “Meninos de Todas as Cores”] também revela um bocadinho a incapacidade que temos enquanto adultos de ouvir as crianças, porque não acredito que, se os adultos tivessem reparado no desconforto constante que as imagens deixavam nas crianças, nada tivesse mudado”.
Além de apresentar aos alunos livros que trabalham este tipo de questões “como um todo”, uma das formas de trabalhar a aceitação entre os mais novos é levar até às escolas cada uma das culturas existentes.
“O que é que se come, como é que as pessoas habitualmente se vestem, que música ouvem, para perceberem que há pessoas vindas de vários pontos do mundo e, muitas delas nós até já fomos misturando ao longo dos anos na nossa, porque Portugal não é um país que esteve fechado. Não está isento de misturas. E esse tipo de exposição vai ajudar as crianças dessas culturas a sentirem-se tão especiais como os restantes colegas e estes a compreenderem e lidarem com estas questões desde cedo”, destacou a especialista.
Comentários racistas têm vindo a aumentar nos últimos três anos
Tanto como psicóloga com quase 40 mil seguidores só no Instagram, como como mãe de três meninas com ascendência angolana, Tânia tem sentido, “nos últimos três anos que os comentários racistas têm vindo a aumentar e a serem feitos de forma muito mais pública do que eram antes”.
“Podiam até sentir o mesmo, mas tinham de abafar o racismo fora de casa. Agora sentem-se validados. Aliás, altamente validados”, lamentou. Uma das razões para isso acontecer é o facto da extrema-direita ter conquistado uma maior representação em Portugal nos últimos anos.
“Volta e meia chegam relatos de pessoas que têm miúdos que ouvem coisas mesmo desagradáveis na escola. De que não vão brincar com eles porque não brincam com crianças desta ou daquela etnia, que eles são assim porque são pobres, que deveriam ir para o país deles. Isto é um discurso que tem aparecido muito nas mensagens que recebo. Não aceitam as outras crianças, que muitas vezes até são portuguesas, nasceram em Portugal”, realçou.
“Devemos criar um espaço seguro para as crianças falarem”
Urge, portanto, falar destes temas de uma forma positiva e empática nas escolas e em casa, perceber o que sentem as crianças.
“Em casa o nosso papel é, em primeiro lugar, criar um espaço seguro para se falar do que quer que seja. E, muitas vezes, estas conversas não começam nestes temas. Começam em temas pequenos, de qualquer coisa que não gostaram. Nem que seja que não gostaram do lanche na escola. O nosso papel, enquanto pais é escutar isso e dar espaço para os nossos filhos falarem”, explicou Tânia Correia ao Notícias ao Minuto, lembrando que “é nestas pequenas coisas que a criança percebe que os pais estão disponíveis para ela”.
“Muitas crianças aprenderam a lidar com o desconforto sozinhas. E isso torna-se tão normal que quando há temas ainda maiores – como estes casos de racismo, agressões, abusos sexuais, etc. – já nem contam aos pais. Sentem-se completamente sozinhas”, fez notar, acrescentando que “se há coisa que não pode existir em nenhuma fase da vida, muito menos na infância e na adolescência, é a sensação de solidão.
“Eles dependem do adulto para resolver os seus problemas. Têm poucos recursos”, reiterou.
Para a especialista, “trabalhar estes temas”, ter essa disponibilidade para as crianças, “ajuda-as a chegar a um ponto em que sofrem com a rejeição – porque ninguém quer ser rejeitado – mas têm consciência de que ignorantes são os outros. De que não há nada errado com elas. É a quem discrimina que falta informação, que falta desconstruir os preconceitos. A ignorância está desse lado e não de quem é discriminado”.
“Então, claro que sim, nós enquanto pais temos de denunciar, até porque isto influencia a visão que os nossos filhos têm sobre o mundo. O mundo é um lugar onde eu tenho espaço para falar e onde lutam por mim e pelos meus direitos enquanto eu não tenho esse poder, não é um lugar onde temos de nos calar. As crianças e jovens têm de se sentir protegidos. Têm de sentir que podem contar connosco. Além disso, nós estamos a servir de modelo da forma como eles vão agir no futuro”, fez sobressair a psicóloga.
E este não é um problema só das crianças ‘dos outros’. “Não temos de lutar só pelos desafios dos nossos filhos. Acredito num mundo em que lutamos, não só pelas nossas crianças, mas por todas. E quem diz crianças, diz por todo o ser humano, porque eles são os adultos do futuro”, frisou Tânia Correia.
Assim, casos de discriminação nas escolas (ou fora delas) devem ser sempre denunciados, pois ao não se fazer isso “passa a ideia de que quando aparece uma pessoa que fala, o problema é só dela” e faz com que esta denúncia “perca força, expressão”.
“Não é papel de quem passa pelas situações lutar por elas. Ou seja, quando nós temos alguma questão racial em cima da mesa, a margem para quem passa por ela ter voz é muito baixa. Se a pessoa está a ser vítima já vem de um lugar de inferioridade. Portanto, a voz que estas pessoas podem ter é muito mais baixa do que as vozes de quem vem do privilégio, nomeadamente dos caucasianos”, evidenciou a psicóloga.
Para Tânia Correia, “quando uma criança passa por uma situação de discriminação, é papel de toda a gente ouvir os pais e perceber como ajudar. Dar voz à situação e não deixar que as vítimas lutem sozinhas. Porque isso tira-lhes muito poder”.
Antes de concluir, a psicóloga deixou ainda dois apelos. Primeiro, “é dever de todos cuidar das crianças. Todos. Este é um tema da comunidade. Por isso, devemos todos prestar atenção e perceber como podemos ajudar. Segundo, quando se trata de questões raciais, usem o privilégio aí, porque faz diferença. Faz muita diferença usarmos o nosso privilégio para tentar ganhar espaço e defender as vítimas”.
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