
Homens passam a ter menos filhos do que as mulheres globalmente. Porquê? E o que significa?
As taxas de fertilidade estão a cair em todo o mundo, mas uma nova análise demográfica aponta para uma mudança menos óbvia: pela primeira vez, os homens deverão ter, em média, menos filhos do que as mulheres ao longo da vida.
Segundo o novo estudo de modelação, publicado na PNAS no dia 20 de abril, a taxa de fecundidade total masculina caiu abaixo da feminina em 2024.
Este indicador, conhecido pela sigla TFR, tem sido usado para medir a fertilidade das mulheres. Entre estas, a média global passou de 4,9 filhos por mulher em 1952 para cerca de 2,3 em 2023. No caso dos homens, os investigadores tiveram de recorrer a estimativas indiretas, baseadas em dados populacionais anteriormente estimados.
Durante grande parte da história recente, os homens tinham, em média, ligeiramente mais filhos do que as mulheres. Agora, parece que essa diferença desapareceu e inverteu-se.
A explicação, de acordo com os autores, não está sobretudo numa mudança cultural ou comportamental, mas numa transformação demográfica: há hoje mais homens a sobreviver até à idade adulta e ao período reprodutivo.
Historicamente, nasciam cerca de 105 rapazes por cada 100 raparigas, mas essa diferença tendia a diminuir ao longo da vida, devido à maior mortalidade masculina, associada a fatores como doenças, alimentação, consumo excessivo de álcool ou tabaco e outros riscos. Com a melhoria das condições de vida e da sobrevivência, esse excedente masculino deixou de desaparecer tão cedo e passou a refletir-se na população adulta.
O resultado é simples, do ponto de vista estatístico: havendo mais homens do que mulheres em idade reprodutiva, o número médio de filhos por homem desce. Não significa necessariamente que os homens estejam individualmente a escolher ter menos filhos do que antes; significa que há mais homens a partilhar o mesmo número potencial de nascimentos.
A tendência já era visível há décadas na América do Norte e na Europa, mas está agora a tornar-se mais relevante também na Ásia. Em alguns países asiáticos, como a China ou o Vietname, o desequilíbrio é agravado pela seleção pré-natal em função do sexo, que elevou a proporção de nascimentos para cerca de 110 rapazes por cada 100 raparigas.
Na prática, isto poderá significar um aumento da proporção de homens sem filhos, sobretudo em regiões onde o desequilíbrio entre sexos é maior. A longo prazo, o fenómeno pode ter consequências sociais importantes, incluindo mais homens idosos sem apoio familiar direto e maior pressão sobre os sistemas de proteção social e cuidados a idosos, alertam os autores, citados pelo Instituto Max Planck.