Algumas zonas afundam mais de dois centímetros por mês, afetando infraestruturas, aeroportos e monumentos, enquanto a cidade enfrenta uma grave crise de água
A Cidade do México está a afundar a um ritmo tão alarmante que já é visível do espaço. Imagens de um poderoso sistema de radar da NASA estão a revelar taxas de subsidência superiores a 1,2 centímetros por mês — tornando a cidade uma das capitais com afundamento mais rápido do planeta.
Esta metrópole em expansão, que é também uma das maiores cidades do mundo, estende-se ao longo de um lago de alta altitude e assenta sobre um antigo aquífero, que fornece cerca de 60 % da água potável aos 22 milhões de habitantes da cidade.
Ao longo dos anos, este aquífero tem sido tão sobreexplorado que provocou o afundamento do solo acima dele. A extração excessiva também contribuiu para uma crise hídrica crónica que deixou a Cidade do México perante um possível “dia zero”, em que as torneiras deixam de ter água.
O rápido afundamento da cidade tem sido agravado pelo desenvolvimento urbano contínuo, com novas infraestruturas a acrescentarem peso adicional sobre o solo rico em argila.
A subsidência da Cidade do México foi documentada pela primeira vez na década de 1920 e, desde então, os residentes têm sentido os impactos, com estradas fissuradas, edifícios inclinados e danos no sistema ferroviário.
Novas imagens do satélite NISAR, um projeto conjunto da NASA e da Organização Indiana de Investigação Espacial, revelam a dimensão do problema com detalhe impressionante.
O NISAR foi concebido para mapear alguns dos processos mais complexos do planeta e é capaz de monitorizar movimentos subtis, como o afundamento do solo. É um dos sistemas de radar mais poderosos alguma vez lançados no espaço, segundo a NASA.
Novos dados do NISAR mostram que partes da Cidade do México afundaram cerca de dois centímetros por mês (mostrado a azul) entre 25 de outubro de 2025 e 17 de janeiro de 2026. Alterações de altitude desiguais e aparentemente pequenas acumularam-se ao longo das décadas, fraturando estradas, edifícios e redes de água. David Bekaert/JPL-Caltech/NASA
Entre outubro de 2025 e janeiro de 2026, durante a estação seca da Cidade do México, o NISAR mapeou o movimento do solo sob a cidade. As conclusões revelam que algumas áreas estão a afundar a uma taxa de cerca de dois centímetros por mês — mais de 24 centímetros por ano.
As áreas mais afetadas incluem o Aeroporto Internacional Benito Juárez, o principal aeroporto da cidade.
Um marco da cidade revela os impactos do afundamento. O monumento do Anjo da Independência, com perto de 35 metros de altura, construído em 1910 para comemorar o 100.º aniversário da independência do México, teve de receber 14 degraus adicionais na sua base à medida que o solo abaixo vai cedendo.
Anjo da Independência na Cidade do México em 1 de abril de 2026. Carl De Souza/AFP/Getty Images
“A Cidade do México é um conhecido ponto crítico quando se trata de subsidência, e imagens como esta são apenas o início para o NISAR”, afirmou David Bekaert, gestor de projeto no Instituto Flamengo de Investigação Tecnológica e membro da equipa científica do NISAR. “Vamos assistir a uma onda de novas descobertas em todo o mundo.”
O satélite também é capaz de monitorizar outros processos planetários, como o deslizamento de glaciares ou o crescimento de culturas agrícolas, bem como desastres naturais como erupções vulcânicas.