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Um projecto inovador para monitorizar continuamente milhares de animais em simultâneo está a ser reforçado com um novo satélite no espaço.

O Projecto ICARUS (International Cooperation for Animal Research Using Space) lançou recentemente o segundo de dois satélites fundamentais para o seu plano de recolha de dados granulares sobre o paradeiro de animais selvagens em todo o mundo.

O mais recente satélite, parcialmente financiado pela National Geographic Society e transportado para a órbita terrestre por um foguete da SpaceX, é o culminar de uma ideia que começou há cerca de 20 anos. Como o nome do projecto indica, os investigadores planeiam fazer investigação sobre animais a partir do espaço. E, como o acrónimo sugere, o projecto é ambicioso.

Se tudo correr como planeado, os cientistas poderão utilizar os dados de milhares de animais equipados com transmissores para monitorizar doenças, prever desastres naturais, perceber como as aves dispersoras de sementes influenciam as florestas e vigiar caçadores furtivos, entre outras coisas.

Satélite RAVEN Christian Ziegler, National Geographic

O satélite RAVEN, que foi lançado para a baixa órbita terrestre, irá conectar-se com transmissores colocados em animais como morcegos frugívoros e gaivinas, entre muitas outras espécies.

“Tivemos esta visão há 20, 25 anos e agora está, finalmente, a tornar-se realidade. Até nós temos dificuldades em acreditar que é o último mês antes de tudo começar a funcionar. É verdadeiramente de loucos”, diz Martin Wikelski, director do Instituto Max Planck de Comportamento Animal na Alemanha e Explorador da National Geographic. “O mundo acaba de abrir uma porta para muitas descobertas.”

Fase Um: Lançar satélites para monitorizar a Terra

A primeira tecnologia de monitorização ICARUS foi uma antena enorme afixada à Estação Espacial Internacional em 2020. Essa antena passou mais de um ano a recolher dados de aves equipadas com transmissores, como cucos e maçaricos, e reuniu dados pormenorizados sobre as suas migrações. Quando a Alemanha e a Rússia puseram fim a um programa espacial colaborativo em 2022, os engenheiros do ICARUS aproveitaram para criar um equipamento mais leve, do tamanho de uma caixa de sapatos, que pudesse ser fixado a um satélite.

O primeiro satélite reformulado foi lançado no passado mês de Novembro. Wikelski diz que a missão está a correr como planeado, até à data. O satélite encontra-se em órbita e os operadores conseguem comunicar com o equipamento – mas Wikelski diz que a equipa não tem conseguido enviar e receber dados de e para os transmissores dos animais devido a atrasos logísticos. “É sempre um drama, o espaço.”

Módulos do ICARUS foram lançados com sucesso pelo Falcon 9 SpaceX

Os módulos do ICARUS foram lançados com sucesso pelo Falcon 9, da SpaceX, na Base da Força Espacial de Vandenberg. 

Ao contrário do primeiro satélite, que transportou quatro equipamentos diferentes de outras organizações para a órbita terrestre, o segundo levará apenas a tecnologia do ICARUS. Wikelski diz que isto lhes permitirá ser mais rápidos do que quando partilham satélite com outras organizações.

Ele descreve o ICARUS como um programa fundamentalmente diferente de outros programas de monitorização por satélite que acompanham tendências macro ambientais como migrações de aves com mais de mil quilómetros, grandes eflorescências de algas ou a diminuição gradual de um lago. Para além de observar a deslocação dos animais, os transmissores conseguem sentir os movimentos subtis de um animal específico e a inteligência artificial infere o possível significado dos movimentos invulgares de um animal em termos da sua saúde ou alterações ambientais.

Por exemplo, os transmissores conseguem sentir e transmitir dados que indicam a morte de um bando de abutres – um possível sinal de envenenamento ilícito de uma carcaça por caçadores furtivos – ou quando os porcos de determinada quinta param de abanar as orelhas – um possível indício de peste suína.

Um colaborador trabalha no satélite RAVEN, do Projecto ICARUS Christian Ziegler, National Geographic.

Um colaborador trabalha no satélite RAVEN, do Projecto ICARUS, na sala limpa da EnduroSat, uma empresa aeroespacial búlgara sediada em Sofia. O Projecto ICARUS, uma aliança global de ecologistas especializados em animais, tenciona utilizar a tecnologia de satélite para monitorizar aves e outros animais e ganhar novos e preciosos conhecimentos sobre os seus movimentos em todo o mundo.

Fase Dois: Integrando milhares de animais ao sistema

Com dois satélites do ICARUS em órbita, inicia-se agora uma segunda fase de trabalho de campo. Cerca de 3.000 transmissores estão prontos para serem colocados em 3.000 animais. Wikelski diz que foram encomendados mais 3.000, havendo planos para transmissores adicionais ao longo dos próximos anos. É mais um pequeno passo em direcção ao objectivo de monitorizar 100.000 animais em simultâneo.

Em breve,a equipa do ICARUS irá colocar transmissores em morcegos frugívoros no Ruanda, a fim de aprender mais sobre o papel por eles desempenhado no ecossistema e como afectam a capacidade da região para lidar com as alterações climáticas. Também irão colocar transmissores em gaivinas-de-dorso-preto nas Seychelles, para observar sinais precoces de tufões, e em gaivinas-do-Árctico, na Islândia, para recolher informações sobre como as alterações climáticas estão a alterar a sua migração de pólo a pólo. Ainda neste ano, os investigadores do ICARUS planeiam viajar até ao Butão para observar os padrões migratórios dos cucos que viajam desde o Tibete, e depois até à Bolívia, para colocar transmissores em flamingos – uma ave que nidifica a mais de 5.000 metros de altitude – para descobrir como eles acasalam, morrem e se dispersam pelos Andes.

Os transmissores maiores pesam cerca de quatro gramas e são alimentados por painéis solares minúsculos. Os transmissores mais pequenos, com um grama, destinados a aves de pequeno porte e insectos, são alimentados por baterias e capazes de transmitir dados durante cerca de um ano.

Equipamento dos satélites ICARUS no Falcon 9 SpaceX

Esta imagem mostra o equipamento dos satélites ICARUS no Falcon 9, da SpaceX, juntamente com outros, antes de ser transportado até à plataforma de lançamento.

Aquilo que facilita a sua colocação nos animais também torna mais fácil a sua entrega aos parceiros regionais do projecto, diz Wikelski. A equipa do ICARUS planeia colocar transmissores em centenas de animais, mas também recorreu a especialistas locais em vida selvagem para os colocar nos animais dos sítios onde vivem. Wikelski espera que o passa-palavra ajude a impulsionar o projecto, dizendo que um grupo de vida selvagem de Espanha poderá conhecer outro na Turquia e isso pode fazer com que centenas de aves sejam integradas na matriz do ICARUS.

Wikelski diz que os seus críticos estão inquietos com a inovação científica prometida pelo projecto, acrescentando que as ideias inovadoras exigem anos de esforço.

“As pessoas estão satisfeitas com fazerem mais do mesmo”, diz ele. “Se quisermos promover uma mudança, não vai ser fácil.”

No entanto, ele acha que o próximo ano trará o auge de um planeamento interminável: “é o sonho de uma vida e agora poderá funcionar”.

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.