O pipeline leste-oeste que processou 2,5 milhões de barris por dia em 2025 tem sido uma via fundamental no redirecionamento dos volumes que antes eram escoados por navio, da refinaria saudita de Ras Tanura para Yanbu no Mar Vermelho. Estima-se que a capacidade total do terminal de Yanbu permita processar 4,8 milhões de barris diários de petróleo e mais 900 mil barris de produtos petrolíferos. Já os Emirados que enviavam 2,3 milhões de barris para o Estreito podem desviar os fluxos através do pipeline ADCPO para o terminal de Fujairah. Este Emirado tem um porto estratégico para o trânsito de produtos energéticos no Golfo de Omã (que foi atacado nas primeiros dias de represália iraniana).
O Iraque pode redistribuir parte da sua produção pelo pipeline de Kirkuk-Ceyan, mas a capacidade desta infraestrutura está limitada a 400-500 mil barris por dia devido a avarias e constrangimentos no downstream. O próprio Irão tem como via alternativa o pipeline Goreh-Jask que permite escoar para o Golfo de Omã, mas esta infraestrutura também está limitada a 300 mil barris diários.
À medida que se prolonga o estrangulamento, o foco dos analistas está centrado no tempo que será necessário para que a produção e a exportação marítima destes produtos retome os níveis pré-conflito. Serão meses, estima o relatório do instituto para estudos de energia de Oxford. E o ritmo de recuperação será assimétrico. Quanto mais tempo durar este bloqueio, mais tempo será necessário para repor os níveis. Vai depender do grau de destruição de ativos de produção e industriais que foram atingidos, mas também das mudanças tecnológicas adotadas durante este shutdown e o impacto que a paragem teve em toda a cadeia de produção.
Um dos riscos assinalados é a combinação de sistemas em terra com complexos de produção offshore (no mar) ligados por pipelines submarinos que se verifica em países como o Qatar e os Emirados. Uma paragem mais estendida no tempo não afeta apenas os campos ou poços de produção, mas todo o circuito de processamento, transporte e exportação. Várias grandes refinarias da região foram atingidas por ataques com graus diferenciados de gravidade — Sitra no Bahrain; Mina Al Ahmadu e Mina Adbullah no Kuweit; Ruwais nos Emirados Árabes Unidos; Satopr e Ras Tanura na Arábia Saudita. Estima-se que uma capacidade equivalente ao processamento de 3,5 milhões de barris diários esteja encerrada devido a danos físicos, constrangimentos logísticos ou por precaução.
A Arábia Saudita é o país mais preparado para dinamizar uma retoma rápida da produção porque consegue associar uma vasta capacidade técnica com elevados recursos financeiros e reservas elevadas. Os Emirados também estão bem capacitados para recuperar, combinando uma grande capacidade operacional com uma via de exportação através de Fujairah, no Golfo de Omã. Aliás, com a anunciada saída da OPEP, os Emirados terão como objetivo acelerar o ritmo da produção sem ficar preso aos limites impostos pelo grupo liderado pela Arábia Saudita. O alcance desta saída só será contudo percetível quando os países da região estiverem em condições de retomarem a produção na plenitude.
A insuficiência da capacidade de resposta perante a dimensão do choque do lado da procura é outra das lições a tirar desta crise, escrevem os analistas de energia do instituto de Oxford. Uma das maiores fragilidades resulta do facto dos produtores com reservas e capacidade operacional para aumentarem rapidamente a produção serem precisamente os que estão impedidos de fazer chegar essa produção ao mercado — com especial ênfase para a Arábia Saudita.
Sem conseguir colocar mais oferta devido ao estrangulamento físico em Ormuz, os membros da Agência Internacional de Energia decidiram realizar a maior libertação de reservas estratégicas no total de 398 milhões de barris. Mas as perdas acumulados na oferta vão atingir em abril um valor que é praticamente o dobro dessas reservas. Além de que apenas uma parte de stocks é de petróleo. O resto são produtos refinados cuja disponibilização ajuda a aliviar a escassez junto dos clientes, mas não resolve a falta de matéria prima na indústria a nível mundial. Existem também desequilíbrios ao nível regional e da qualidade do produto entre as reservas libertadas e o perfil das necessidades.
Outros mecanismos de compensação usados nesta crise é a autorização de compra de petróleo que está sob sanções, em particular de produtores como a Rússia e o próprio Irão. Antes dos primeiros bombardeamentos ao Irão, o nível de petróleo “sancionado” que estava armazenado no mar (em petroleiros) atingiu o valor mais alto desde 2016, mais de 50 milhões de barris, segundo a Kpler.