Quando, em idade adulta, Francisca do Vale Modesto voltou a agarrar em plasticina, notou que não era muito diferente daquilo que fazia com oito anos, quando “recriava tudo o que via na televisão”, explica à NiT. “Tal como na altura, tinha sempre o propósito de fazer personagens”.
Neste processo, voltou a inspirar-se em todas as referências mais precoces na sua vida. Com o passar das décadas, manteve o seu fascínio pelo produtor de animação Nick Park, responsável por “Wallace & Gromit”, pelos universos do Studio Ghibli e todos os livros ilustrados que tinha em casa.
“Ao mesmo tempo, fui percebendo que a plasticina não durava. Ainda fiz algumas figuras para dar a familiares, mas ganhava imenso pó”, acrescenta a artista, 39 anos, acrescentando que foi curioso acompanhar o filho, atualmente com oito anos, nestas construções.
Quando descobriu a pasta de modelar, encontrou a principal matéria-prima com a qual trabalha na Dollette. Neste projeto, lançado oficialmente em março, a artista visual centra-se na criação de esculturas contemporâneas em miniatura que captam emoções “na sua forma mais destilada”.
“Comecei a fazer as cabeças, depois os corpos. Não sei o motivo, mas sempre fui mais obcecada com a parte do busto”, continua Francisca, que explora “a relação entre matéria, emoção e memória”. “Tinha cerca de 16 anos e quase todas as minhas amigas tinham uma destas cabeças”.
Nesta marca, que desenvolve em colaboração com Inês Caleiro, de 42 anos, a artista move-se entre o abstrato e o figurativo. Trabalhando sempre à pequena escala, com objetos “que convidam à proximidade”, reduz o rosto humano “a fragmentos expressivos”, com movimentos e gestos subtis a transmitir estados emocionais.
Um dos quadros tem quase 200 miniaturas.
Como tudo começou
A criativa cresceu rodeada de arte, em parte graças ao percurso dos pais, ambos pintores de formação. O pai, António Modesto, chegou a ser vice-diretor da Faculdade de Belas Artes e “teve um papel bastante influente no mundo do design”, conta à NiT. Foi ele, aliás, que criou a mascote oficial da Expo 98, o Gil, em colaboração com o escultor Artur Moreira.
Em paralelo com uma formação virada para a dança, Francisca passou um ano em escultura na Faculdade de Belas Artes do Porto. No entanto, quis “seguir as pegadas” do pai e acabou por ser transferida para a licenciatura em pintura, onde passou os quatro anos seguintes.
“Olhando para trás, acabei por voltar um pouco às origens”, nota, esclarecendo que “não é qualquer tipo de escultura” que lhe interessa atualmente. “É mais um universo de peças pequenas. A parte da miniatura fascina-me muito desde miúda, talvez por estar exposta a isso desde cedo.”
O exemplo de uma personagem.
Ao mesmo tempo, foi fazendo workshops de animação com vários nomes influentes, nomeadamente na Casa da Animação que existia no Porto. Todos estes desafios foram ampliando o universo criativo de Francisca.
Apesar da vida profissional sólida, com o seu próprio atelier de design, foi sendo incentivada pelas pessoas, que viam o seu trabalho, a investir na escultura. “Era um interesse que ia avançando e morrendo, até que me afasto um pouco da parte do design para me dedicar a isto”.
Há cerca de dois anos, criou um projeto onde começou a explorar estas criaturas e personagens. Foi então que se cruzou com Inês e encontrou nela “o que faltava para conseguir expandir esta arte”, revela, sobre a brand manager da Dollette. “Falámos sobre o que tinha em mente e, com o olhar crítico dela, chegámos a este resultado.”
A primeira coleção
Na primeira coleção da Dollette, batizada “Inner Head”, Francisca explora “a relação entre a parte e o todo” através de um foco contínuo na multiplicação da cabeça em miniatura. Rostos, gestos e silêncios misturam-se com o cuidado para que nenhuma figura se repita.
Através de materiais como massa de modelagem, acrílico, verniz mate e madeira faia, criou quatro molduras, todas elas com tamanhos e linguagens diferentes. Uma delas tem cerca de 200 personagens, o que faz com que a artista não as consiga desenhar uma a uma.
“O que faço é visualizar a expressão que quero que tenha, depois vou adaptando e moldando”, revela. “Num processo inicial, tenho uma preocupação maior em que não se repitam e sejam efetivamente diferentes. O curioso é que realmente não há uma igual. Sai tudo muito intuitivamente.”
O processo criativo.
É por isso que a parte da pintura é tão ou mais importante do que a escultura, como a própria fundadora da Dollette nos revela. “É o que dá aquele cariz distinto”, explica. “Acontece, muitas vezes, achar que está a sair uma expressão e, ao manusear o material, o dedo foge para outra emoção. Se gostar mais, adoto”.
Todo o processo é intuitivo, com olhos que são mãos, mãos a sair da boca e até árvores a sair do rosto, no caso das obras mais surrealistas. “Não sou uma pessoa que estude ou desenhe muito. Sou muito mãos na massa, de intenção e de levar isto para um lado muito físico.”
A pergunta que mais fazem a Francisca é sobre a origem destas ideias. “Claro que também vem de um Magritte, de um Francis Bacon ou de um Giacometti, mas não tenho isso tudo muito organizado. No final, acaba por ter o meu cunho e ser muito característico. Por vezes, sinto-me saturada com a quantidade de ideias que tenho.”
A artista começa por definir um plano. No caso desta coleção, dialogou com Inês sobre as várias linguagens a explorar. Foi repescando várias referências que vinha a explorar, como as máscaras sul-americanas, sobretudo as mexicanas, e decidiu fazer um pouco de cada nesta linha.
Porém, não só pretende “explorar peças completas” como inserir-se num universo de galeria. Francisca imagina-se também a criar murais em maior escala ou apropriar-se de espaços culturais para fazer mini instalações onde a sua abordagem possa ser visualizada.
E, acima de tudo, quer ir além do mercado português. Em vista, tem cidades como Londres, Nova Iorque ou Seul, por exemplo. “Esta plasticidade e a própria história que as cabeças contam entram facilmente nestes mercados, não só pelo detalhe, mas por todas as emoções e sensações que criam em quem vê”, conclui.
Todas as criações da Dollette podem ser encomendadas no site. Os preços começam a partir dos 5.200€, no caso das molduras mais pequenas.
Carregue na galeria para ver mais do trabalho de Francisca do Vale Modesto.