Existem lugares que não podem ser compreendidos apenas olhando nos mapas disponíveis digitalmente. É preciso entrar na floresta, ouvir os sons e movimentos furtivos dos animais. Entender a dimensão do que ainda resiste.
Foi com esse espírito que realizamos a primeira visita técnica do documentário “A Vida Pede Passagem”, produzido pelo Instituto Últimos Refúgios e a ser dirigido por Klaus’Berg, cineasta capixaba e professor da Universidade Federal do Espírito Santo, que também dirigiu os documentários socioambientais “Corredores: da Pedra Azul ao Forno Grande” (2024) e “Águas do Itapemirim” (2025).
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Ali está um dos conjuntos de florestas mais importantes do estado. A Reserva Biológica de Sooretama, gerida pelo ICMBio, protege 27.859 hectares. Ao lado dela, a Reserva Natural Vale conserva cerca de 23 mil hectares.
Juntas, somadas às RPPNs Mutum-Preto e Recanto das Antas e a outros fragmentos privados preservados, essas áreas formam um bloco contínuo de aproximadamente 50 mil hectares, reconhecido como um dos maiores remanescentes de Mata Atlântica do ES.

Essa floresta guarda uma riqueza biológica extraordinária. Ali sobrevivem espécies emblemáticas como a onça-pintada, a harpia e a anta, além de espécies de aves endêmicas da Mata Atlântica.
A Unidade de Conservação também abriga a maior e mais protegida população do mutum-de-bico-vermelho, uma das aves mais ameaçadas do país.
Já conhecíamos bem essa região por expedições anteriores, especialmente pelo trabalho realizado na produção do livro sobre a Reserva Biológica de Sooretama.
Mas desta vez o objetivo foi apresentar esse contexto ao restante da equipe, para que o documentário nasça de uma vivência real do território. Nossa equipe precisava ver de perto a beleza da floresta e as tensões que atravessam sua existência.
Durante a visita, passamos pela Reserva Natural Vale, pela Reserva Biológica de Sooretama e por trechos fundamentais para a narrativa do filme. Entre eles, a BR-101, que corta esse complexo florestal.
Administrada pela Ecovias Capixaba, a rodovia é um ponto incontornável para entender os desafios da conservação na região.
Estudos conduzidos por pesquisadores da UFES, coordenados pelo professor Aureo Banhos, mostram que o trecho que atravessa a paisagem local, com cerca de 25 quilômetros, fragmenta populações silvestres e está associado a frequentes atropelamentos de fauna.
Ainda assim, o documentário não nasce para olhar apenas para a ferida, mas para a grandeza da vida que persiste apesar dela e pedir uma solução conjunta para essa questão.
Ao longo dessa primeira visita técnica, foram levantadas referências visuais e definidos caminhos de produção. Tentamos construir uma compreensão mais profunda sobre o tom que o filme precisa ter.
A obra mostrará uma floresta viva, pulsante, complexa e insubstituível. Um território onde decisões humanas podem significar proteção ou perda.
Talvez seja justamente isso que o mosaico verde nos ensina. A vida pede passagem não só quando tenta cruzar uma rodovia. Ela pede passagem também quando quer continuar existindo!
O projeto é apresentado pelo Ministério da Cultura – Lei Rouanet, com realização do Instituto Últimos Refúgios, patrocínio da Ecovias Capixaba e da Vale, com apoio da Reserva Natural Vale e ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.
EQUIPE DE CAMPO:
Direção e Roteiro: Klaus’Berg
Produção Executiva e Roteiro: Raphael Gaspar
Direção de Produção: Iasmin Macedo Gois
Coordenação de Produção: Eddy Argão
Direção de Fotografia/Cinegrafista: Leonardo Merçon
Cinegrafista: Felipe Facini, Francisco Xavier
Assistente de câmera e GMA: Felipe Mattar e Marcella Rosa
Captação de Som: Fernando Paschoal









