A Rússia anunciou a realização de testes com mísseis capazes de transportar ogivas nucleares no polígono de Kura, na região de Ust-Kamchatka, no Extremo Oriente russo. A informação surge a poucos dias do desfile do Dia da Vitória, marcado para 9 de maio, uma das datas mais simbólicas do calendário político e militar de Moscovo.
Segundo o ‘Kyiv Post’, que cita o Ministério das Situações de Emergência do território de Kamchatka, os testes decorrem entre 6 e 10 de maio. As autoridades russas avisaram que o acesso à zona está estritamente proibido, tanto para civis como para equipamentos.
O polígono de Kura, situado a cerca de 500 quilómetros a norte de Petropavlovsk-Kamchatsky, é uma das principais áreas usadas pelas Forças Aeroespaciais russas para ensaios de mísseis balísticos intercontinentais e exercícios de ataque estratégico.
Criado no início da década de 1950, o local recebeu os primeiros testes com mísseis balísticos intercontinentais em 1956, com o protótipo R-7. Durante a era soviética, foram realizados ali mais de 300 lançamentos.
Um local central para a dissuasão estratégica russa
Continue a ler após a publicidade
Depois de uma pausa no período pós-soviético, os testes em Kura foram retomados no início dos anos 2000, incluindo lançamentos de mísseis a partir de submarinos. Nos últimos anos, o polígono tem sido usado para testar sistemas modernos com capacidade nuclear.
Entre esses sistemas está o Bulava, míssil balístico lançado de submarinos, oficialmente incorporado ao serviço em Maio de 2024. O local também tem sido utilizado em testes ligados ao programa espacial russo, incluindo lançamentos do foguetão Angara a partir de Plesetsk, com queda em Kamchatka.
Kura mantém-se, por isso, no centro dos exercícios de dissuasão estratégica da Rússia. Poucos dias antes da invasão em larga escala da Ucrânia, em Fevereiro de 2022, Moscovo realizou exercícios com lançamentos de mísseis Yars e Sineva, ambos com capacidade nuclear, tendo como alvo este polígono.
Continue a ler após a publicidade
Exercícios semelhantes continuaram nos anos seguintes, incluindo manobras de larga escala em Outubro de 2024.
Putin pediu planos para eventual retoma de testes nucleares
O anúncio dos novos testes surge num contexto de crescente retórica nuclear. No início de novembro de 2025, Vladimir Putin ordenou a agências governamentais e de segurança que preparassem propostas para uma eventual retoma de testes de armas nucleares, algo que representaria o primeiro passo desse género desde 1990.
Numa reunião do Conselho de Segurança no Kremlin, o presidente russo instruiu os ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Defesa, os serviços de informação e outras entidades a recolherem dados e apresentarem planos sobre um possível início de trabalhos preparatórios para testes nucleares.
A ordem surgiu depois de declarações de Donald Trump, nas quais o presidente americano sugeriu que os Estados Unidos poderiam retomar testes nucleares, sem esclarecer se se referia a detonações subterrâneas, suspensas por Washington desde 1992.
Continue a ler após a publicidade
Responsáveis russos disseram ter pedido esclarecimentos aos Estados Unidos, mas afirmaram não ter recebido uma resposta clara. O ministro da Defesa, Andrey Belousov, propôs preparar infraestruturas de teste no arquipélago ártico de Novaya Zemlya, principal local russo para ensaios nucleares, garantindo que poderia estar pronto num curto prazo.
Moscovo diz cumprir tratado, mas ameaça responder
Putin sublinhou que a Rússia continua a cumprir o Tratado de Proibição Completa dos Ensaios Nucleares, mas avisou que Moscovo responderá caso outros países retomem testes.
A mensagem encaixa na estratégia russa de pressão nuclear desde o início da guerra na Ucrânia: manter a ambiguidade, reforçar a dissuasão e sinalizar capacidade de escalada perante os Estados Unidos e a NATO.
O anúncio dos ensaios em Kura, antes do desfile de 9 de maio, acrescenta simbolismo militar a essa estratégia. Ainda que não esteja em causa, segundo a informação disponível, uma detonação nuclear, os testes envolvem sistemas capazes de transportar ogivas nucleares e decorrem num local historicamente associado à dissuasão estratégica russa.
A Rússia também tem afirmado ter concluído testes de novos sistemas de propulsão nuclear, incluindo o míssil de cruzeiro Burevestnik e o drone submarino Poseidon, ambos apresentados por Putin como elementos de uma nova geração de armamento estratégico.