O Japão realizou um movimento militar inédito desde o fim da Segunda Guerra Mundial e a China respondeu imediatamente com uma demonstração de força a envolver mísseis supersónicos.

O episódio está a ser visto como mais um sinal da crescente tensão geopolítica na região Ásia-Pacífico. Segundo informações, forças japonesas dispararam pela primeira vez no estrangeiro um míssil antinavio Type 88 durante exercícios militares realizados nas Filipinas.

O lançamento aconteceu no âmbito de manobras conjuntas com os Estados Unidos e aliados regionais.

Para muitos analistas, o simbolismo do gesto ultrapassa largamente a vertente técnica ou operacional. Desde 1945 que o Japão mantinha uma postura militar extremamente limitada, consequência direta da sua constituição pacifista criada após a derrota na Segunda Guerra Mundial.

O míssil terra-navio Type 88 é um míssil antinavio montado em camião desenvolvido pela empresa japonesa Mitsubishi Heavy Industries no final da década de 1980. Trata-se de uma versão terrestre do míssil Type 80 (ASM-1) lançado do ar; por sua vez, este foi desenvolvido para o míssil Type 90 (SSM-1B) lançado de navio.

China acusa Japão de “remilitarização”

A resposta chinesa não demorou. Pequim interpretou o exercício como um sinal claro de “remilitarização” japonesa e reforçou a sua presença militar na região com demonstrações envolvendo armamento supersónico e sistemas de longo alcance.

Nos últimos meses, a China já tinha vindo a exibir novas capacidades militares, incluindo mísseis hipersónicos antinavio como os YJ-17 e outros sistemas capazes de atingir alvos marítimos a velocidades extremamente elevadas.

Pequim considera que o reposicionamento militar japonês ameaça o equilíbrio regional, sobretudo porque ocorre num contexto de crescente disputa em torno de Taiwan e do Mar da China Meridional.

O fim gradual da doutrina pacifista japonesa

O lançamento do míssil nas Filipinas surge numa altura em que Tóquio está a alterar profundamente a sua estratégia de defesa. Nos últimos anos, o país aumentou o orçamento militar, autorizou exportações de armamento e começou a desenvolver capacidades de “contra-ataque”, algo praticamente impensável durante décadas.

Entre os sistemas recentemente introduzidos encontram-se mísseis Type 12 de longo alcance e armas hipersónicas destinadas à defesa de ilhas remotas. Algumas destas armas poderão atingir alvos a mais de mil quilómetros de distância.

O governo japonês justifica esta mudança com o agravamento do ambiente de segurança na região, apontando diretamente para o crescimento militar chinês, os testes balísticos da Coreia do Norte e a instabilidade no Indo-Pacífico.

Fantasmas históricos continuam vivos na Ásia

A reação chinesa também está ligada ao peso histórico da ocupação japonesa durante a primeira metade do século XX. A memória da invasão japonesa da China e da Segunda Guerra Sino-Japonesa continua profundamente enraizada no discurso político chinês.

Qualquer reforço militar do Japão tende, por isso, a ser observado em Pequim através de uma lente histórica particularmente sensível.

Embora o Japão continue oficialmente comprometido com princípios defensivos, os recentes desenvolvimentos mostram uma mudança clara na postura estratégica do país. Para muitos especialistas, a região entrou numa nova fase de corrida militar tecnológica, onde mísseis hipersónicos, sistemas antinavio e capacidades de projeção regional passam a desempenhar um papel central.