Na minha posse, tive a oportunidade de dizer que a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil não deve, não pode estar capturada pelos incêndios florestais. Em bom rigor, neste último ano tivemos o blackout depois da queda do governo, depois o verão dos fogos florestais, agora, no início do ano, estas ciclogéneses explosivas, as depressões que entraram em forma de comboio e que tiveram este impacto brutal sobretudo nesta faixa central do nosso território, nomeadamente os distritos de Leiria, de Santarém, Castelo Branco, Coimbra… E o que estamos a fazer? Juntámos esforços no sentido de criar um Comando Integrado de Prevenção e Operações; juntamente com os outros agentes de proteção civil (o ICNF, a AGIF, a GNR, com as Forças Armadas) e o que estamos a fazer é identificar quais são as freguesias prioritárias. 

  


O trabalho é desobstruir caminhos florestais para conseguirmos chegar aos nossos concidadãos que estão mais afastados das zonas urbanas e, por outro lado, o interface florestal-urbano, ou seja, onde há a fronteira entre a floresta e o urbanizável. Já foram feitos alguns milhares de quilómetros. E as pessoas têm até ao dia 30 de Junho a possibilidade de limpar de modo próprio. Não vai ser possível fazer tudo – a dimensão e a experiência internacional também nos diz isso. Houve uma ciclogénese explosiva muito similar em França e que demorou três ou quatro anos a regularizar toda a situação e, portanto, nós não podemos ter as expectativas demasiado altas no sentido de que vai ser possível remover todo o material lenhoso. 


Mas ainda é possível fazer muito em termos de prevenção…


E vai ser feito, com toda a certeza. Este mês de maio e o mês de junho são dois meses onde vamos ter de a olhar para as zonas mais críticas e aquelas que estão a ser identificadas como prioritárias. Nós acionámos o [programa] Copernicus através do Mecanismo Europeu de Proteção Civil para termos imagens de satélite em permanência. Temos aviões da Força Aérea no ar a identificar as zonas mais críticas, temos as Forças Armadas a colaborar connosco e, portanto, a estamos a usar tudo o que temos ao nosso alcance porque percebemos que, se houver um incêndio nestas condições, ele tem potencial de agravamento – não tendo as árvores de pé, não têm o seu consumo natural de humidade; quando elas estão caídas acabam por constituir um rastilho; não direi de pólvora, mas um rastilho muito significativo para alimentar a combustão. 


Podemos dizer que temos dois meses até ao período mais crítico?


Temos mais dois meses porque a trabalho já está a ser feito há algum tempo. Vamos ter como prioridade aquelas que foram identificadas como freguesias prioritárias, mais afetadas pela [tempestade] Kristin e depois as outras, que vieram por consequência. Foram umas atrás das outras e deixou, de facto, o território muito afetado. É o trabalho que estamos a fazer, sendo certo, pela responsabilidade que temos, que não podemos descurar o dispositivo (quer aéreo, quer terrestre), que tem de estar em estado de prontidão porque as situações a partir de junho podem agravar… Não é preciso a partir de junho! Devo recordar que na passada sexta-feira, a Holanda, que não tem histórico, lançou um pedido de ajuda ao Mecanismo Europeu para Proteção de Fogos Florestais e agora ontem a República Checa; para não falar de Itália, que está com grandes incêndios hoje – não é um julho. Portanto, isto vai-nos trazer para a discussão sobre as alterações climáticas, que muitos teimam em não querer ver, mas elas estão aí – se mais não for, todos estes episódios que nós tivemos são fáceis de perceber, quer pela sua consequência quer pela dimensão que teve.  


E para estes fenómenos climáticos extremos vai ser preciso adequar a estratégia de combate? 


A estratégia está muito assente no que é designado pelo ataque inicial – a partir do momento em que há um alerta, temos dois minutos para pôr um meio aéreo de ataque inicial no ar e temos de “triangular”, isto é, colocar uma viatura de cada corpo de bombeiros no raio de ação daquela ignição. Isto tem funcionado para 96% dos casos. Estes incêndios não são notícia. Qual é o problema? São os outros 4% ou 5% que passam a ataque ampliado; todos aqueles que não ficam resolvidos no ataque inicial. E então aí retornam à base os meios aéreos ligeiros e temos de meter meios aéreos pesados – Canadair, Kamov… Portanto, a estratégia está bem desenhada, tem tido resultados excelentes, mas o problema são os fogos que fogem ao ataque inicial, que abrem os telejornais, porquê? Ou foi por termos um conjunto de incêndios em simultâneo que não foi possível agarrar em tempo útil ou porque tinha condições para poder fugir… Aqui entra esta questão do Kristin. Imagina um incêndio naquela área que está seriamente afetada? Até se pode conseguir aguentar e quase dominar o incêndio, mas se entra numa zona dessas onde os acessos estão complicados… Nós estamos a tentar obstruí-los precisamente para as viaturas dos bombeiros poderem passar e não ficarmos só condicionados pelos meios aéreos. 


Portanto, eu diria que a estratégia está bem delineada. O ponto é o ataque ampliado. Nós ainda recorremos aos bombeiros para o ataque ampliado, mas temos uma Força Especial de Proteção Civil (vulgo, “canarinhos”) e temos também 1100/1200 homens da Unidade de Emergência de Proteção e Socorro (UEPS) da GNR. O que nós precisamos, porventura, para alterar a estratégia, é reforçar estas equipas. Nomeadamente, a FEPC (Força Especial de Proteção Civil) só tem 260 profissionais; temos de aproximar também dos 1000.  


Estamos aqui a falar de um reforço qualificado, altamente qualificado. 


Porque o país tem de ter uma força especializada para o ataque ampliado. O ataque ampliado é um incêndio que já não se apaga com a água; apaga-se mais com a cabeça. Tem dinâmicas, tem comportamentos de incêndio que só está ao alcance de uma análise muito técnica. À medida que vamos tendo estes incêndios de outra geração, pelas alterações climáticas, pela disponibilidade do combustível, pelo calendário que já não respeitado! Quando andei na escola primada, nós tínhamos a primavera, o verão, o outono e o inverno – agora há verão e inverno. Temos de estar preparados para percebermos que temos de ter o dispositivo, não só disponível em julho, mas em maio e em abril, ele também tem de responder e também temos incêndios para apagar nesta altura.  Portanto, a estratégia está bem delineada; para o ataque ampliado precisamos de muscular as forças que são especiais, que são diferentes. Para situações diferentes, também meios diferentes.    


E precisam desse reforço musculado já este ano? Perante o cenário em que nos encontramos, a Proteção Civil tem neste momento os meios suficientes para conseguir fazer o combate caso a situação se descontrole? 


É sempre relativa essa pergunta… Posso dizer-lhe que temos o melhor dispositivo de sempre. Vamos ter mais equipa, mais veículos… é tudo mais. Mas não é por uma unidade marginal a mais que porventura é o melhor dispositivo, porque depois também tem muito a ver com a perigosidade. Se tivermos um ano calmo, se as condições meteorológicas forem as normais para um verão normal, o dispositivo chega e sobra e conseguimos resolver tudo. Agora, se tivermos como tivemos o ano passado – 32 ou 33 dias em tivemos em severidade máxima, como nunca se registou desde 1931, com uma série de dias com 40 e tal graus, com humidades relativas de 10% ou 5%, com ventos de 30 ou 40 km/hora – é muito difícil. Aí não é mais dois meios aéreos ou mais 20 equipas que vão fazer a diferença. O que faz a diferença de facto é a prevenção operacional, que é aquela que vai estar no terreno a vigiar e, sobretudo, a prevenção estrutural. A paisagem, os autóctones, essa história toda que desde há muitos anos todos nós já ouvimos falar – o cadastro, não se sabe quem são os proprietários, ninguém limpa porque não se sabe quem é… Portanto, vai ter que um dia haver a coragem para mexer nisso de uma forma muito séria, porque isso concorre de uma maneira muito objetiva para o desenvolvimento de muitos incêndios.  

Ouça a entrevista completa a José Manuel Moura aqui:


Aí estamos a falar de medidas de prevenção de fundo. Na prevenção mais imediata, por exemplo, a Proteção Civil tem sob a sua alçada o programa Aldeia Segura, Pessoas Seguras. No ano passado, houve críticas de falta de investimento que estavam a pôr o programa em causa. Já ouvimos também que faltam técnicos no terreno. O Aldeia Segura está a funcionar? É eficaz? É para manter? 


Está a funcionar, é eficaz, é para manter e é para aumentar! Devo mesmo dizer (com o risco que esta minha afirmação possa ter), que não fora de facto [o programa] Aldeia Segura, Pessoas Seguras e porventura no ano passado poderíamos ter tido um número diferente de vítimas. Agora, a iniciativa é toda municipal. Nós damos apoio nalguma documentação que é difundida pelas pessoas, os kits, as golas… Vai haver outra vez um reforço de investimento nesse tipo. Mas da nossa parte, há todo o interesse em que continue. Mesmo lá fora, nas reuniões de diretores-gerais, tem sido apresentado como um caso de sucesso, até porque tem um oficial de segurança em cada uma destas aldeias (que é a pessoa que se aposentou que ou é um ex-polícia ou é um líder ali da zona) que conhece as pessoas que estão com problemas de mobilidade, que têm dificuldade em caso de terem que ser transportados de um lado para o outro, qual é o meeting point para levar toda aquela gente… nesse aspeto, é um projeto bastante interessante, bem conseguido. Agora deve e pode ser melhorado, e a iniciativa de haver mais também depende das autarquias e das freguesias.  


É preciso ter um controlo diferente este ano, em particular, com o cenário que temos este ano. No início desta entrevista, falava do caso francês, de como demoraram quatro anos a recuperar de um fenómeno semelhante à tempestade Kristin. Tem alguma previsão de quanto tempo demoraremos a recuperar? 


Não sei se tem noção, mas estamos a falar de muitas centenas, muitos milhares de árvores. Chegar a um processo em que toda a área que foi afetada é recuperada não vai ser tarefa fácil. Está a haver agora um grande incremento pelas equipas. Temos mais de 100 equipas com cerca de 400 operacionais de diferentes agentes de proteção civil a trabalhar de uma forma árdua, diariamente, para conseguir fazer o melhor possível. Um trabalho muito orientado por esta questão do interface florestal-urbano e desobstruir caminhos florestais. Este é o grande desafio. Depois a segunda fase há de ser a recolha da lenha… Mas para já, a nossa preocupação é desobstruir as estradas.  


Mais de dois anos? 


Vai demorar algum tempo. Este não me querer comprometer é porque vejo que é um trabalho muito difícil. Quem está a acompanhar percebe que não é varrer para debaixo da carpete. Estamos a falar de áreas extensíssimas. Agora, o que vamos ter de fazer é o reforço também na parte da vigilância; colocar mais gente nestes territórios, no sentido de haver uma vigilância muito mais ativa.  


Nesse sentido, a criação do Comando Integrado de Prevenção e Operações veio em boa hora? Faltava um organismo que fizesse a junção de todos os pontos? 


O Sistema Integrado de Operações de Proteção e Socorro (SIOPS) já permite isso. Nós fizemos isso no Centro Coordenador Operacional Nacional quando foi o blackout; todas as entidades à volta da mesma mesa, não é diferente daquilo que fizemos, por exemplo, na ciclogénese explosiva… Este comando tem como diferença (que é a parte que porventura foi mais bem conseguida) levar agentes que têm competências muito específicas ao encontro de todos, numa aérea que não é a sua prioridade. Alguma coisa tinha de ser feita; se nada fosse feito e tivéssemos todos à espera do mês de junho depois éramos confrontados com um cenário pior. Há uma garantia que podemos dar: temos um levantamento do trabalho que está a ser feito e temos as zonas muito bem identificadas. A vigilância vai aumentar. Estes territórios vão ter de estar com um estado de prontidão para serem vigiados muito mais do que se aquela madeira tivesse toda de pé.  


Falamos sobre prevenção e sobre meios, mas todos os anos no final da época de incêndios ouvimos críticas à falta de coordenação, problemas de comunicação… Sabemos que está previsto um regresso da Proteção Civil ao modelo anterior, de organização distrital, como referiu na Comissão Parlamentar de Inquérito, no Parlamento. Será mais uma mudança. Não vem de novo baralhar as coisas e contribuir para estas críticas? 


Muitas vezes injustas. Mas na Assembleia da República, o que disse é que todos os agentes de proteção civil devem estar organizados sob a mesma forma administrativa do território. Esse, para mim, é que é o ponto. Não podem é os bombeiros estar em sub-regiões, a GNR com distritos, o INEM está com regiões, o outro está com distritos… Isso é que não faz sentido nenhum. Na minha perspetiva, o que faz sentido é estarem todos alinhados. É sub-regiões? Então vamos todos para sub-regiões. Os bombeiros, a Proteção Civil, a GNR, a PSP, o INEM… É para distritos? Vai tudo para distritos. O que é verdade é que não houve alteração à Lei de Bases e o que está previsto é a organização distrital. Aliás, quando foi a Kristin ativámos os planos distritais de emergência. Porquê? Porque não há planos sub-regionais. Portanto, quem fez, com certeza cheio de boas atenções, não cuidou de todo este impacto. Até ao final do ano, lá para outubro ou novembro, vamos ver qual é que vai ser a decisão do Governo. O senhor ministro [da Administração Interna] está a ouvir todos, para a semana vai estar em mais seis distritos e tem uma palavra importante a dizer também nesta matéria.   



Está há pouco mais de um ano no cargo; um ano que foi particularmente difícil. Estamos agora mais preparados, mais resilientes?  


As lições aprendidas são sempre essas. Fizemos reuniões com debriefing com toda a estrutura operacional para perceber o que é que poderíamos ter feito de diferente e que não foi feito, mas o problema da simultaneidade de incêndios que tivemos empurrou-nos a projeção de meios para um lado e para o outro. E sim, houve melhorias significativas do dispositivo deste ano. Seja no número de equipas, máquinas de rasto, meios aéreos – vamos ter mais dois, mas isso leva-me à questão inicial: não é por ter mais uma unidade marginal de cada meio que posso garantir que está melhor. Fizemos tudo para prepararmos este ano sempre e cada vez melhor. Não é só por aumentarmos alguns elementos, mas também por percebermos que as pessoas também estão cada vez mais capazes. Estamos a fazer ações de treino operacional com bombeiros no terreno, a testar as comunicações com os meios aéreos, a envolver pela primeira vez os dois [helicópteros] Black hawk da Força Aérea, que estamos a orientar para o ataque ampliado, as 18 máquinas que o ICNF adquiriu, uma por distrito… É o somatório de tudo isto que vai concorrer para que os resultados possam ser diferentes. Mas há sempre a outra componente que nós não controlamos, que é as condições meteorológicas. Nesta equação dos fogos há várias variáveis e nós somos a última. Quando tem de ser ativada, é porque já tudo antes falhou.   


É aí que temos de apostar, no trabalho a montante?


Exatamente. Prevenção, prevenção, prevenção. É aí que temos de ganhar esta batalha. Não podemos nunca fugir de uma circunstância que é verdade – o país é quente e seco e vai ser sempre. As condições meteorológicas são como são, o clima é o que é, as alterações climáticas estão aí e tudo isso está a levar a uma grande reviravolta. Estes dispositivos que agora estão muito musculados neste período mais crítico da Fase Delta, de 1 de julho a 30 de setembro, daqui a uma década se calhar estamos a falar de um ano inteiro com o mesmo nível de empenhamento, se as condições metodológicas nos empurrarem para uma situação deste tipo.