O ativista russo Vladimir Osechkin vive sob proteção policial permanente em França desde 2022, depois de as autoridades francesas terem recebido informação de que a Rússia estaria a tentar assassiná-lo. Tarefas simples, como levar os filhos à escola ou ir ao supermercado, passaram a exigir escolta policial.

A ameaça ganhou nova gravidade em abril de 2025, quando um grupo de homens russos terá vigiado durante várias horas a casa de Osechkin, no sudoeste de França, recolhendo vídeos e fotografias. De acordo com documentos judiciais citados pelo ‘The Independent’, o objetivo seria preparar um assassínio.

Anos antes, Osechkin diz ter visto um ponto vermelho na parede da sua casa. Acreditou que pudesse tratar-se da mira laser de uma arma.

O caso está longe de ser isolado. Em vários países europeus, multiplicam-se suspeitas de planos de assassínio atribuídos à Rússia contra opositores do Kremlin, ativistas russos no exílio, apoiantes da Ucrânia e figuras ligadas ao esforço militar ucraniano.

Serviços ocidentais falam em escalada desde a invasão da Ucrânia

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Três responsáveis de serviços de informações ocidentais, citados sob anonimato pela ‘Associated Press’, apontam para uma escalada significativa nas operações de assassínio direcionado desde a invasão russa da Ucrânia.

Segundo estes responsáveis, os alvos já não se limitam a desertores militares ou antigos agentes, passando também a incluir ativistas russos e estrangeiros que apoiam a Ucrânia.

“Esta campanha não acontece por acidente ou acaso”, afirmou um alto responsável europeu dos serviços de informações. “Há autorização política.”

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A acusação surge num quadro mais amplo de ações atribuídas à Rússia em território europeu, incluindo atos de sabotagem, fogo posto e outras operações de perturbação. Segundo responsáveis ocidentais, muitas destas ações são executadas por intermediários recrutados a baixo custo, em vez de agentes oficiais dos serviços russos.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse à ‘AP’ que não via “necessidade” de comentar. As autoridades russas têm negado anteriormente qualquer envolvimento em tentativas de assassinar opositores no estrangeiro.

Da França à Lituânia, alvos vivem sob vigilância e medo

Em França, quatro homens nascidos na região russa do Daguestão foram detidos no âmbito do alegado plano para matar Vladimir Osechkin. Três deles viajaram para Biarritz, onde o ativista vive, e terão vigiado a sua casa com o objetivo de o assassinar e intimidar outros opositores das autoridades russas residentes em França.

Osechkin fundou há vários anos uma organização de defesa dos direitos dos presos e dirige um projeto que denuncia abusos no sistema prisional russo. As ameaças intensificaram-se, segundo o próprio, quando começou a investigar alegados crimes russos na Ucrânia e a ajudar militares russos desertores a fugir.

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“Se não fosse por eles, provavelmente já teria sido morto”, afirmou, referindo-se à proteção das autoridades francesas.

Na Lituânia, Ruslan Gabbasov, ativista que defende a independência da região russa do Bashkortostan, descobriu em fevereiro de 2025 um localizador Apple AirTag escondido no carro. A polícia pediu-lhe que deixasse o dispositivo no veículo e passou a seguir quem o seguia.

Poucas semanas depois, Gabbasov estava com a mulher e o filho de 5 anos nas celebrações da independência da Lituânia quando recebeu uma chamada da polícia a dizer-lhe para não regressar a casa.

No dia seguinte, segundo contou, os agentes informaram-no de que um assassino tinha sido detido perto da sua residência. “Estava à sua espera com uma arma”, disseram-lhe. “Estava preparado para esperar por si a noite toda.”

A opção de “desaparecer”

As autoridades lituanas ofereceram a Gabbasov a possibilidade de desaparecer por completo: mudar de nome, deslocar-se para outro local e abandonar a atividade pública.

O ativista recusou. Argumenta que muitas pessoas da sua região de origem, de maioria muçulmana e situada perto do Cazaquistão, o veem como uma referência política. O Bashkortostan é importante para o Kremlin, diz, pelas reservas de ouro e pelo número elevado de homens enviados para combater na Ucrânia.

“Não posso traí-los a todos simplesmente desaparecendo, sobretudo por medo”, afirmou.

Para Gabbasov, deixar de fazer política seria precisamente o que Moscovo pretende. “Que diferença lhes faz? Podem matar-me ou eu posso esconder-me de todos e parar a atividade política. É exatamente isso que eles querem.”

Também o lituano Valdas Bartkevičius, ativista pró-Ucrânia, recebeu das autoridades a possibilidade de desaparecer depois de, segundo contou, ter sido descoberto um plano para o matar com uma bomba colocada na caixa de correio.

Bartkevičius, conhecido por angariar fundos para a Ucrânia e por ações anti-Rússia, recusou a proposta. Para ele, abandonar a vida pública seria uma “morte social”.

Lituânia acusa 13 pessoas em dois planos de assassínio

Os procuradores lituanos acusaram 13 pessoas de pelo menos sete países de envolvimento em dois planos de assassínio. No total, pelo menos 20 pessoas foram detidas, acusadas ou identificadas na Europa ao longo do último ano em casos deste tipo.

Segundo as autoridades lituanas, os envolvidos nos dois planos terão recebido ordens diretas dos serviços de informações militares russos. Alguns tinham ligações ao crime organizado russo e poderão estar associados a outros casos de fogo posto e espionagem na Europa.

Esta utilização de intermediários é vista por antigos responsáveis de segurança britânicos como uma consequência direta da resposta ocidental ao ataque de Salisbury, em 2018.

Nesse ano, o antigo espião russo Sergei Skripal foi envenenado com um agente nervoso no Reino Unido. Londres acusou a Rússia de ter realizado o ataque através de oficiais dos serviços militares russos. Em resposta, o Reino Unido e outros países ocidentais expulsaram centenas de diplomatas e suspeitos de espionagem, tornando mais difícil a atuação direta de agentes russos na Europa.

A estratégia dos intermediários

Com menos margem para operar através de agentes oficiais, Moscovo terá passado a recorrer com mais frequência a intermediários, muitos deles recrutados como executantes baratos para tarefas de vigilância, sabotagem, intimidação ou violência.

O facto de muitos dos planos conhecidos desde 2022 terem sido travados pode mostrar que é mais difícil para Moscovo concretizar estas operações com intermediários do que com agentes próprios. Ainda assim, os serviços ocidentais alertam que estas tentativas têm outros efeitos: assustam opositores, tentam silenciar ativistas e consomem recursos das polícias europeias.

O caso de Maxim Kuzminov continua a ser visto como aviso. O piloto russo de helicóptero que desertou foi assassinado em Espanha, depois de ter sido ameaçado de morte na televisão estatal russa por homens mascarados em uniforme militar. Os serviços russos são considerados os principais suspeitos.

Para um alto responsável europeu dos serviços de informações, a conclusão é simples: os alvos nunca estarão completamente seguros.

“Mesmo que se consiga travar uma operação uma vez, é preciso estar preparado para a possibilidade de voltarem a atacar.”