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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o regresso do extremismo de esquerda. São 6 am de uma madrugada fria de janeiro em Berlim, na Alemanha. Os bombeiros são chamados porque debaixo de uma ponte, num bairro residencial da cidade, ardem cabos de eletricidade que vão ter diretamente à central elétrica. Os bombeiros fazem o que podem, mas não evitam que o incêndio provoque um apagão e que 45 mil casas fiquem sem luz em pleno inverno. Esta é a responsável local pela pasta da Administração Interna a dizer que os investigadores esperam apanhar rapidamente os responsáveis por este ato de sabotagem, um grupo de extrema-esquerda chamado Vulcano, que assumiu a autoria do ataque. Mas não só os responsáveis não foram apanhados rapidamente, como a Alemanha percebeu que este não foi um ato isolado e que, na verdade, o país tem agora mais um problema em mãos. Hoje vou falar com o repórter do Observador, José Carlos Duarte, para conhecermos a dimensão desta nova ameaça, quem são e o que defendem estes grupos, como atuam e por que é tão difícil parar quem está por detrás dos ataques. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quarta-feira, 06 de maio. José Carlos, bem-vindo mais uma vez.
Olá.
A Alemanha claramente percebeu que tem aqui um problema com a extrema-esquerda. O que a levou a chegar a esta conclusão?
Vários eventos que aconteceram nos últimos anos, mas o maior aconteceu em janeiro, foi um grande apagão em partes de Berlim, a capital alemã esteve sem luz e sem eletricidade durante algumas horas. O que causou tudo isto foi um incêndio, um ato de sabotagem numa central elétrica na Alemanha. E a partir daí, as autoridades alemãs tentaram perceber o que se passou, o que esteve por trás. E um grupo de extrema-esquerda, um grupo anarquista e ecologista, reivindicou o ataque.
Portanto, não foi influência estrangeira, como muitas vezes hoje se fala com esta história das guerras que andam por aí, que podia ser uma interferência de uma potência estrangeira na Alemanha. Não, foi mesmo um trabalho interno.
Exato, foi um trabalho interno e a potência estrangeira aqui, que muitos apontam dedo, seria a Rússia. Ainda por cima pelo contexto das relações entre Moscovo e Berlim, poderia ter sido a Rússia, mas aqui foi mesmo um grupo interno. Eles escreveram um manifesto, uma espécie de uma carta em que reivindicam o ataque, em que realmente assumem que foram eles. Pediram desculpa também a várias pessoas que eles não queriam atingir, portanto os alvos do ataque eram os mais ricos, eram os mais privilegiados na Alemanha, e o ataque à central elétrica era uma forma de mostrar as preocupações com o ambiente.
Ou seja, esse ataque à central elétrica supostamente criou um apagão numa zona mais rica de Berlim, é isso?
Exato.
Mas depois aquilo acabou por ter outras consequências, não é? Porque houve até pessoas que dependiam de aparelhos elétricos pra sua vida normal.
Exato. Há uma história que foi contada pelo Die Welt, pelo jornal alemão, de um senhor que precisava de um aparelho eletrônico pro coração e que ficou sem eletricidade por causa do apagão, e foi socorrido por uma equipe de serviços médicos de emergência e que se não tivesse sido assim, teria morrido por causa precisamente deste apagão. Portanto, estes efeitos destes grupos de extrema-esquerda estão a multiplicar-se na Alemanha, e não é apenas centrais elétricas, cortes de estradas, sabotagem a caminhos de ferro. Portanto, são ataques muito precisos a infraestruturas críticas que podem criar disrupções a várias pessoas.
E isso tem acontecido com alguma frequência. Neste caso do apagão, tu falaste várias horas em que esse apagão esteve a acontecer. O que isso mostrou relativamente à capacidade do Estado de responder a isso de forma rápida?
Sim, isso foi realmente um ponto, foi que as autoridades alemãs não conseguiram responder de forma eficaz àquilo que aconteceu na central elétrica. Foram apanhadas desprevenidas com este ato de sabotagem, e demorou várias horas até tudo ser restabelecido. Portanto, houve aqui um compasso de espera, houve aqui uma espera que não deveria ter acontecido, e mostrou aqui também alguma desorganização por parte das autoridades de Berlim. E a resposta do governo alemão foi: temos de combater esta onda de extremismo de esquerda. E a resposta foi séria. O Ministério da Administração Interna alemão colocou e fez uma oferta de 1 milhão de euros a quem tivesse informações sobre quem-
Recompensa
Exatamente, como recompensa a quem tivesse informações que pudessem levar à captura de quem esteve por trás do apagão. Mas foi muito difícil identificar quem realmente esteve por trás de toda esta operação. Em março houve uma operação policial em Berlim, foram detidas três pessoas, mas ainda assim não é bem clara ainda a sua ligação àquilo que aconteceu em janeiro com o apagão na capital alemã.
Portanto, pra já há várias conclusões. As autoridades estão a levar isto a sério, tanto é que a Alemanha é um país rico, mas 1 milhão de euros ainda é dinheiro.
Sim, é uma verba exorbitante para os parâmetros alemães.
Exatamente. Portanto, 1 milhão de euros mostra até que ponto é que eles estão preocupados e até que ponto é que estão a levar isto a sérioPor outro lado, também mostra que estão a ter alguma dificuldade, ou seja, em termos de investigação e de tentativa de neutralizar as pessoas envolvidas neste tipo de ataques, não está a ser fácil.
Não está a ser fácil e há vários motivos que explicam isso. Por um lado, estes grupos são muito desorganizados, não têm uma estrutura clara, funcionam muito à base de métodos pouco claros e funcionam numa rede muito intrincada, muito fechada, em que é muito difícil as autoridades desconfiarem. É muito difícil as autoridades conseguirem perceber como é que estas pessoas vão agir, o que as motivou a agir. Há aqui vários grupos que se misturam e, portanto, não é nada fácil.
Eles têm algum denominador comum ou têm uma génese mais ou menos comum?
Sim, eu acho que a génese deles é antifascista, são todos grupos antifascistas e no contexto alemão atual isso é importante porque são oposição à AFD, a Alternativa para a Alemanha, o partido de extrema-direita.
Essa é, aliás, uma das curiosidades deste caso, é que andámos muito tempo a falar da ascensão da extrema-direita na Alemanha e não falámos muito da questão da extrema-esquerda e, portanto, tu dizes-me que esse posicionamento também resulta como oposição àquilo que está a acontecer politicamente à direita.
É uma espécie de cola que une os grupos todos, mas depois cada um tem determinadas prioridades. Por exemplo, uns são anarquistas e querem terminar com a polícia, querem criar dificuldades à atuação policial na Alemanha. Outros são acérrimos defensores do clima, como aqueles que causaram o apagão em Berlim, que também justificaram isto como uma pressão para colocar energias limpas na Alemanha. Outros são de índole anticapitalista e, portanto, o seu foco é diferente, tem a ver com as grandes empresas de tecnologia. Há aqui uma série de grupos cuja orientação não é bem fácil de linear.
Ou seja, partem de um princípio comum que é o antifascismo e depois a partir daí-
Sim, a partir daí há muitas ramificações.
Muito bem. Já vamos voltar a falar sobre estes objetivos e sobre a forma como se está a lidar com este problema na Alemanha. Estamos de regresso à conversa com o jornalista José Carlos Duarte sobre este regresso da violência de extrema-esquerda à Alemanha. José Carlos, há alguma razão para que isto tenha acontecido de uma forma aparentemente surpreendente para as autoridades alemãs? Ou seja, andaram distraídos, desvalorizaram, tiveram dificuldade em assumir que havia ali um problema?
Sim, eu acho que não tiveram uma dificuldade, mas eu acho que houve aqui, e o Ministério da Administração Interna reconheceu que subvalorizou muito o extremismo de extrema-esquerda na Alemanha. Também há que entender aqui um pouquinho o contexto e o pano de fundo. A Alemanha teve sérios problemas com o extremismo islâmico, que é uma ameaça totalmente distinta, e também com o extremismo de direita, com os movimentos neonazis e tudo isso também realmente foram dois focos.
Digamos que andavam já de mãos cheias.
Exato, eram dois fogos muito grandes para apagar. E o extremismo de esquerda passou aqui um pouquinho despercebido. Também um pouco pelas causas que defende, ou seja, por exemplo, há grupos que são muito pró-ecologistas, são ecologistas radicais e a causa em si não faz com que os alarmes soem. Ninguém vai atrás de pessoas que defendam o ambiente ou que lutem contra o fascismo.
Portanto, o chapéu sob o qual atuam cria dificuldades políticas a quem quer ir investigar ou ir atrás de grupos que defendem: “Somos pelas energias limpas, somos contra o combustível fóssil ou somos a favor do antifascismo.”
Exato, ou seja, a capa que eles usam é uma coisa, mas depois os métodos são totalmente distintos e acho que vem daí a grande dificuldade em perceber e identificar os grupos extremistas. E depois eles funcionam numa base clandestina, eles funcionam em grupos muito fechados e há, por exemplo, uma clara subdivisão. Há pessoas que escrevem, por exemplo, para revistas anarquistas, para publicações mais à esquerda, que dão um pouco corpo à ação, que estipulam os princípios teóricos e ideológicos que devem guiar a ação, e depois há aqueles que os colocam em prática. E são grupos diferentes e é muito difícil depois para as autoridades montar o puzzle, porque realmente são peças dispersas, pessoas que não têm grande ligação entre si, que estão em diferentes estados alemães e, portanto, é muito difícil para as autoridades efetivamente perceberem a extensão total do fenômeno, porque é realmente muito intrincado.
Não é uma rede com cabecilha facilmente identificável, que depois tem várias ramificações e é possível ir atrás de onde é que começa e onde é que acaba.
Não. São pessoas muitas vezes anônimas que funcionam em livrarias. Por exemplo, eu percebi que há livrarias anarquistas, há uma livraria anarquista em Berlim que as autoridades suspeitam de que está por trás do apagão na capital alemã. Portanto, são espaços que à partida não configuram propriamente uma ameaça, mas que realmente funcionam aqui um pouco como aqueles que incentivam a ação. É uma ameaça que passa um pouco despercebida precisamente pelos motivos que levam à ação e também pelos métodos que são utilizados.
E tu falaste deste ataque em janeiro, dizes que são vários que têm acontecido. Houve algum momento em que se começa a perceber que há ali qualquer coisa que muda na Alemanha, que talvez tenha favorecido o crescimento, o surgimento destes grupos?
Há um momento que vários especialistas apontam que serviu como a emergência destes grupos, que foi a Cimeira do G20 em Hamburgo em 2017. Nessa cimeira reuniram-se em Hamburgo vários grupos de extrema-esquerda alemães, não só alemães, como também de toda a Europa.Houve uma situação caótica na cidade, tumultos, protestos muito violentos. Ninguém morreu, mas várias pessoas ficaram feridas. Isso foi o ponto de partida para manifestações e para este tipo de ações de sabotagem. Ou seja, aquilo que aconteceu em Hamburgo acabou por ser uma forma de testar os limites, de perceber que tipos de ação é que os grupos anarquistas, anticapitalistas, o que sejam, podiam usar contra as autoridades e para criar disrupções na vida dos alemães. Este evento, e acho que também por inspiração de outros movimentos, por exemplo, os franceses que também estiveram em Hamburgo em 2017, acabou por ser preponderante para que depois os grupos se juntassem, se organizassem e levassem a cabo ações mais radicais.
E já agora, para terminarmos, em termos de números, há números concretos que mostram que este fenómeno não é uma coisa circunstancial de um ou dois eventos separados. Há aqui mesmo uma consistência que leva as autoridades a pensar que há aqui qualquer coisa que regressou.
Sim, os números dizem que efetivamente houve um aumento. Por exemplo, há dados do estado da Renânia do Norte-Westfália, que é um dos estados mais importantes na Alemanha, é o estado mais rico, que dizem que os crimes com motivação política atingiram o recorde em 2025 e desses crimes de motivação política, o crescimento sentiu-se particularmente nos crimes de extremismo de esquerda. Ou seja, os crimes desta natureza duplicaram no espaço de um ano. Passaram de cerca de 1200 para mais de 2400. Ou seja, houve aqui realmente uma forte subida no ano passado, que as autoridades também ainda estão a tentar entender os motivos concretos. O que levou a que grupos de esquerda se tenham radicalizado tanto na Alemanha? Mas há aqui a clara noção de que este fenómeno está a expandir-se e também as autoridades estão, e houve um reforço, o Ministério da Administração Interna alemão anunciou um reforço bastante significativo nas secretas e na polícia para combater este fenómeno. Claro está, é muito difícil de definir, é muito difícil de categorizar, é muito difícil de procurar.
Circunscrever.
Exato.
Mas estão a começar a combatê-lo, porque é uma realidade e aparentemente veio para ficar.
Exato.
José Carlos, muito obrigado.
Obrigado.
Eu conversei com o jornalista do Observador, José Carlos Duarte, sobre a ascensão dos grupos anarquistas que têm sabotado infraestruturas, cortado estradas, atacado fábricas, sempre em nome de causas como o antifascismo, a ecologia ou o anticapitalismo. Nalguns casos, são atos de violência que o ministro alemão do Interior não tem dúvidas em chamar de terrorismo. Um tema que começa a ser levado a sério em vários países da Europa, incluindo Portugal, como se viu no caso do coquetel molotov lançado sobre os manifestantes da Marcha pela Vida. Esta foi a história do dia, a sonoplastia do Ricardo Pelario, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.