A Organização Mundial da Saúde admitiu nesta quinta-feira que são esperados mais casos de infecção com o hantavírus, já que o período de incubação do vírus pode chegar às seis semanas, mas afastou a hipótese de uma “grande epidemia”, já que as medidas de saúde pública que foram postas em curso são capazes de quebrar as cadeias de transmissão.
Numa conferência de imprensa em que as autoridades de saúde tentaram tranquilizar a população e pôr fim às comparações com a pandemia de covid-19, foram confirmados oito casos de infecção — cinco casos de hantavírus confirmados por laboratório e três casos suspeitos — e três pessoas morreram, sendo que a ameaça à “saúde pública permanece baixa”, já que se trata de surto num navio, “num espaço confinado”.
“Isto não é a covid-19 nem a a influenza. Propaga-se de uma forma muito, muito diferente e requer um contacto próximo e prolongado”, disse Maria Van Kerkhove, directora interina do Departamento de Ameaças Epidémicas e Pandémicas da OMS. “Quero ser inequívoca: isto não é o SARS-CoV-2, isto não é o início de uma epidemia, não é o início de uma pandemia. Compreendemos perfeitamente que estas questões surjam, mas esta não é a mesma situação em que estávamos há seis anos”, sublinhou a responsável, acrescentando que esta é a “ocasião ideal” para recordar que os “investimentos na investigação sobre agentes patogénicos como este são essenciais, pois os tratamentos, os testes de rastreio e as vacinas salvam vidas”.
Tedros Adhanom Ghebreyesus, director da OMS avançou que o casal holandês, que se acredita serem os primeiros casos deste surto, “viajou pela Argentina, Chile e Uruguai numa viagem de observação de pássaros que incluiu visitas a locais onde a espécie de rato conhecida por ser portadora do vírus estava presente”.
O primeiro caso foi registado num homem holandês de 70 anos, que desenvolveu sintomas a 6 de Abril e morreu a 11 de Abril. À data, não havia suspeitas da circulação de qualquer vírus, logo nenhuma amostra foi recolhida. A mulher, de 69 anos, desembarcou quando o navio atracou na ilha de Santa Helena. Já apresentava sintomas e o seu estado de saúde piorou durante um voo para Joanesburgo, na África do Sul, vindo a falecer a 26 de Abril. As investigações sobre a evolução do surto ainda estão em andamento e a OMS está a trabalhar com as autoridades da Argentina para saber por onde passou o casal, que só embarcou no navio a 1 de Abril, quase dez dias depois da partida de Ushuaia, na Argentina, a 20 de Março.
O director avançou ainda que, em surtos anteriores deste vírus, a transmissão entre humanos foi associada ao contacto “próximo e prolongado”, entre membros da mesma família, parceiros íntimos e pessoas que prestam cuidados médicos. “Parece ser este o caso na situação actual”, referiu. “Embora este seja um incidente sério, a OMS reafirma o risco para a saúde pública como baixo”, reforçou.
Nos últimos dias, a OMS tem recebido relatos de casos suspeitos ou potencialmente suspeitos e está a dar seguimento aos mesmos junto das autoridades competentes de cada país. Em relação aos passageiros que continuam confinados no navio, o Ghebreyesus referiu que “os ânimos estão a melhorar”. Os quartos são desinfectados regularmente, os viajantes passam grande parte do tempo nas suas cabines e quando saem são orientados a utilizar máscara de protecção. Não há, para já, passageiros com sintomas.
Nesta altura, dois passageiros do navio estão internados nos Países Baixos e “estão estáveis” e um terceiro está nos cuidados intensivos na África do Sul e “está a melhorar”. Anaïs Legand, outra das especialistas da OMS presente na conferência, afirmou que, em surtos anteriores foi registada uma taxa de mortalidade “alta” associada ao hantavírus e sublinhou a importância de um tratamento precoce e intensivo para lidar com os sintomas. “É muito importante que qualquer doente possa ser admitido num espaço seguro e adequadamente equipado, com equipas treinadas, para garantir que recebe o nível de atendimento necessário caso apresente um quadro grave e o seu estado se deteriore”.
40 passageiros desembarcaram após morte do primeiro doente
Cerca de 40 passageiros do MV Hondius, o navio de cruzeiro afectado por um surto mortal de hantavírus, desembarcaram na ilha britânica de Santa Helena, no Atlântico, antes da chegada a Cabo Verde e após a morte do primeiro passageiro, disseram nesta quinta-feira, 7 de Maio, as autoridades dos Países Baixos. Entre os passageiros que desembarcaram encontrava-se a cidadã holandesa (mulher do holandês que morreu a bordo), que foi depois hospitalizada na África do Sul e o cidadão suíço que está a receber tratamento na Suíça.
A OMS revelou que os passageiros que desembarcaram na ilha de Santa Helena são oriundos de 12 países — Canadá, Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Nova Zelândia, São Cristóvão e Névis, Singapura, Suécia, Suíça, Turquia, Reino Unido e EUA — e que as autoridades de cada nação foram instruídas a estarem atentas e a rastrearem os contactos.
Na quarta-feira, Centro Europeu para a Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) já tinha admitido como hipótese que alguns passageiros tenham sido expostos à estirpe Andes — a mais perigosa do vírus e a única das 24 detectadas em humanos que pode ser transmitida de pessoa para pessoa — na Argentina, antes de embarcar, e podem ter transmitido o vírus para outros passageiros já a bordo do navio de cruzeiro.
A companhia holandesa que opera o navio já tinha dito que a mulher do primeiro paciente a morrer a bordo tinha abandonado o cruzeiro em Santa Helena para acompanhar o corpo do marido. A mulher viajou depois para a África do Sul num voo comercial e morreu após adoecer em Joanesburgo. No entanto, a empresa não tinha informado da saída de outros passageiros do navio de cruzeiro na mesma ilha.
A emissora neerlandesa RTL avança nesta quinta-feira que uma comissária de bordo da companhia aérea KLM que teve contacto com a mulher infectada que morreu na África do Sul foi internada num hospital de Amesterdão após apresentar sintomas. Outros tripulantes e passageiros que prestaram auxílio à holandesa estão a ser chamados para serem testados, sendo que pelo menos duas pessoas receberam um teste negativo e uma terceira um resultado inconclusivo.
As autoridades na África do Sul e na Europa estão a tentar localizar os contactos de quaisquer passageiros que tenham abandonado o cruzeiro depois de, nesta quarta-feira, ter sido divulgado que um homem que tinha desembarcado do cruzeiro em Santa Helena e viajado para casa estava internado com hantavírus na Suíça. As autoridades holandesas desconhecem o paradeiro dos restantes passageiros do navio que desembarcaram nessa altura.
Entretanto, as autoridades de vários países, como os EUA, o Reino Unido, a Suíça e a Dinamarca, informaram que cidadãos dos respectivos países regressaram a casa e estão a ser acompanhados pelas autoridades de saúde.
Um homem britânico foi retirado do navio para a África do Sul dias mais tarde e três pessoas, incluindo o médico do cruzeiro, foram retiradas quando a embarcação estava ao largo de Cabo Verde e levadas para a Europa na quarta-feira. A operadora do navio, a Oceanwide Expeditions refere, em comunicado, que um dos dois aviões ambulância que descolaram na quarta-feira de Cabo Verde transportando os três casos suspeitos, dois sintomáticos e um assintomático, só aterrou nos Países Baixos nesta quinta-feira, tendo o indivíduo em causa sido recebido por “equipas médicas e de rastreio especializadas”.
Outro passageiro, que apresentava sintomas de infecção por hantavírus e que estava num avião comercial na Gran Canária desde quarta-feira, foi transferido para Amesterdão numa aeronave adaptada para transporte médico, disse à Lusa fonte oficial espanhola.
Dois cidadãos britânicos que regressaram ao Reino Unido isolaram-se voluntariamente e contactaram as autoridades assim que souberam do surto no navio MV Hondius, mas não apresentam sintomas de infecção. De acordo com a Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido (UKHSA) os dois passageiros deixaram o navio de cruzeiro no final de Abril, “perto da ilha de Santa Helena”, e regressaram a território britânico a partir de Joanesburgo, África do Sul.
As autoridades sanitárias dos EUA também confirmaram que estão a monitorizar de perto a situação de vários viajantes norte-americanos que estiveram a bordo do cruzeiro, não sendo claro, para já, em que altura é que desembarcaram. As autoridades do estado da Geórgia estão a acompanhar a situação de dois viajantes e as da Califórnia a monitorizar um número não divulgado de residentes que também estiveram no navio. No Arizona há ainda outro passageiro do Hondius que, para já, não apresenta sintomas.
Cerca de 150 pessoas permanecem a bordo do navio de cruzeiro — que deve chegar no fim-de-semana ao porto de Granadilla de Abona, na ilha de Tenerife, no arquipélago das Canárias, Espanha — sob rigorosas medidas de precaução. A operadora Oceanwide Expeditions referiu no comunicado, que não há mais pessoas sintomáticas a bordo.
Os hantavírus são vírus zoonóticos, caracterizados por infectar roedores, e diferentes espécies circulam na Europa, na Ásia e na América. A variante dos Andes é a única para a qual foi descrita a transmissão entre pessoas. Na maioria das vezes, a transmissão acontece quando as pessoas inalam poeira ou partículas provenientes da urina, excrementos ou saliva de roedores infectados. O hantavírus pode causar a síndrome pulmonar por hantavírus, uma doença grave caracterizada por febre e outros sintomas, seguidos de dificuldade respiratória aguda e choque.
A Argentina já avançou que vai capturar e analisar roedores na cidade de Ushuaia, no sul do país, o ponto de partida do navio de cruzeiro, e que está a refazer os passos do paciente zero deste surto de hantavírus, um vírus raro para o qual não existe tratamento nem vacina.