Matilde Fieschi
No episódio de estreia, Rodrigo Guedes de Carvalho assume duas inquietações centrais: o mistério da morte e a pergunta sobre onde nasce a maldade. O pivot da SIC defende que o mal não é exceção nem acidente: atravessa culturas, épocas e pessoas, potenciando‑se num mundo cada vez mais “apipocado”, excessivamente protegido da frustração e do confronto com a realidade. Um neologismo que serve tanto para crianças como para adultos, numa sociedade embalada por conforto e hiperinformação.
“Estava aqui a pensar se são apenas as crianças que estão apipocadas ou se nós próprios estamos todos mais apipocados e até que ponto é que esse neologismo tem a ver com uma certa distância confortável face à verdade. Até que ponto é que vivemos na era da hiperinformação, mas temos medo das verdades”, afirma.
Com uma neta recém-nascida, o jornalista assume-se preocupado com a falta da preparação dos mais novos para lidar com a frustração: “As novas crianças crescem num mundo absolutamente idealizado por pais que julgam estar a fazer o melhor para eles e depois têm enormes desilusões assim que chegam a outros sítios”.
Matilde Fieschi
“Olhei para a minha neta recém‑nascida e pensei: isto é uma pessoa que terá a nossa educação, os nossos princípios, mas ali dentro já habita um ser humano que nós não sabemos quem é nem como vai ser”
Matilde Fieschi
A conversa torna‑se mais inquieta quando entra em cena o jornalismo e a Inteligência Artificial. Guedes de Carvalho alerta para o risco real de acontecimentos totalmente fabricados por IA provocarem efeitos concretos no mundo, banalizando a mentira e corroendo a esfera pública.
Num tempo em que a verdade disputa atenção com o impacto, o jornalista defende que informar é um ato de responsabilidade.
O risco hoje já não é apenas mentir, é omitir e banalizar o mal. “O que vai poder acontecer muito rapidamente é termos acontecimentos totalmente gerados por Inteligência Artificial que terão uma resposta no mundo real. Por exemplo, alguém elaborar doze horas de um noticiário que não existe, com pivôs que não existem, com imagens que não existem, e dizer que um templo católico foi incendiado no Paquistão, fazendo duzentos mil mortos, e desencadear um conflito a partir daí. Não estamos perto, estamos sentados em cima desta frigideira. E eu não sei como é que ainda não aconteceu.”
No final, entre desejos filosóficos improváveis, vence um esfregão de lavar a loiça: limpar, organizar e preparar o mundo para o que vem a seguir.
Tiago Pereira Santos e Matilde Fieschi
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O Princípio da Inquietação é um podcast onde pensar é um verbo que se exercita a sós e em conversa. Filósofos nacionais e internacionais refletem em voz alta sobre o medo, enquanto Catarina G. Barosa, fundadora do Festival Internacional de Filosofia, Espanto, e David Erlich, professor e escritor, recebem convidados de várias áreas para diálogos sem rede. Aqui, as certezas são questionadas e a dúvida ganha estatuto de virtude. O objetivo é praticar a nobre arte de pensar, mesmo que isso conduza não a respostas, mas a novas perguntas.
Todas as quintas-feiras um novo episódio, uma nova inquietação.
A edição áudio e vídeo deste podcast é assegurada pela Tale House, com identidade sonora a partir da interpretação do músico e produtor Pedro Luís, da obra Inquietação, da autoria de José Mário Branco, inspirada na versão interpretada pelo grupo A Naifa. A capa é de Tiago Pereira Santos, com fotografia de Matilde Fieschi e logo do Expresso e do Festival Espanto. A coordenação está a cargo de Joana Beleza e a direção é de João Vieira Pereira.