Os dias que precederam o mais importante feriado russo foram marcados por cálculos políticos de parte a parte – e jogadas “revestidas de importância estratégica, independentemente da forma como o Kremlin as apresenta publicamente”. O facto, dizem especialistas, “é que a Rússia começou a sentir as consequências da guerra de forma mais aguda” e está a ser cada vez mais difícil escondê-lo
Faltava pouco mais de uma semana para as celebrações do Dia da Vitória quando duas notícias distintas fizeram manchetes nos media internacionais. A primeira dava conta de que a Rússia ia “reduzir a dimensão da parada” que, todos os anos, tem lugar na Praça Vermelha, em Moscovo, por causa da “ameaça terrorista” representada pela Ucrânia. Dias depois, no arranque desta semana, a CNN reportou, com base num relatório de uma secreta europeia, que “o Kremlin aumentou drasticamente a segurança pessoal do presidente Vladimir Putin” perante receios de um “golpe de Estado”.
Em conjunto, as duas notícias apontam para uma imagem de fragilidade que não é comumente associada à Rússia, projetando uma enorme sombra sobre aquele que é, há décadas, tido como o dia mais importante da nação russa, a lembrar o 9 de maio de 1945 em que o Exército Vermelho deferiu o seu golpe final contra a Alemanha Nazi.
“O Dia da Vitória tem servido há muito como um dos pilares simbólicos centrais do Kremlin – uma demonstração de força militar, continuidade histórica e legitimidade do regime”, explica Elena Davlikanova, especialista em assuntos de segurança e defesa, previsões de estratégia e processos internos da Ucrânia e da Rússia. “Qualquer redução visível na escala, aumento da postura defensiva ou perturbação do espetáculo normal envia uma mensagem indesejada de que a Rússia é fraca o suficiente para temer a Ucrânia”, adianta a investigadora do Center for European Policy Analysis (CEPA) – e “simbolicamente isto é importante”.
Com o arrastar da guerra na Ucrânia, ainda sem fim à vista ao final de mais de quatro anos da invasão russa em larga escala, abre-se espaço para o simbolismo ganhar peso. E nada é mais simbólico do que ver expostas as “fragilidades” do agressor. Para Davlikanova, “a referência de Moscovo a uma ‘ameaça terrorista’ visa preservar uma imagem de controlo, mas, na prática, reflete um reconhecimento crescente de que as capacidades de ataque de longo alcance da Ucrânia, em expansão, introduziram novas camadas de vulnerabilidade – mesmo no coração da Rússia”.
Ao quinto ano de guerra, o custo económico do conflito é mais palpável do que nunca e as interrupções de dados nos telemóveis, que afetam regularmente as principais cidades do país, irritando até a burguesia pró-Putin, está a aumentar a sensação de que a guerra começa a atingir também a elite urbana – até agora praticamente imune aos impactos da invasão.
Isto tem ajudado a conter um eventual descontentamento com a campanha militar, mas os sinais de fissuras entre a elite no poder são claros. “Vladimir Putin conduziu a Rússia para um beco sem saída e ninguém tem um mapa para o que virá a seguir”, referia esta semana um ex-membro do governo russo sob anonimato num artigo de opinião na Economist. “Não se trata apenas da queda nos índices de aprovação. O futuro deixou de ser discutido em termos do que é que senhor Putin vai decidir, mas como algo que vai desenrolar-se independentemente dele – e possivelmente já sem ele.”
Oleg Ignatov, analista sénior do International Crisis Group para a Rússia, sublinha que há “uma real preocupação de Moscovo com o risco de ataques ucranianos, quer durante eventos festivos, quer contra edifícios governamentais no centro da cidade e contra responsáveis políticos” – e o facto é que “os dirigentes russos subestimaram a rapidez com que a Ucrânia, com a ajuda europeia, conseguiu aumentar a produção de drones de longo alcance” que têm garantido a sua resiliência.
Como se confirma nas imagens abaixo, que mostram unidades anti-drone espalhadas pela capital russa, esse é um receio real para o Kremlin.
“As capacidades de longo alcance da Rússia ainda superam as da Ucrânia e infligem maiores danos à Ucrânia, mas o facto é que a Rússia começou a sentir as consequências da guerra de forma mais aguda” nos últimos tempos, aponta Ignatov – “e ataques simbólicos poderiam afetar negativamente o moral da população, especialmente dada a falta de compreensão dos cidadãos em relação à estratégia do Kremlin para com a Ucrânia”.
Drones na Praça Vermelha?
A hipótese de ataques a Moscovo, em particular no Dia da Vitória, não pode ser excluída a priori. Depois de o porta-voz do Kremlin ter invocado a “ameaça terrorista” de Kiev para reduzir a dimensão das celebrações do próximo sábado, o presidente ucraniano deixou a possibilidade no ar durante uma cimeira em Erevan no início da semana.
“A Rússia anunciou um desfile a 9 de maio em Moscovo sem equipamento militar”, declarou Volodymyr Zelensky aos líderes presentes na Cimeira da Comunidade Política Europeia na capital da Arménia. “Não têm meios para adquirir equipamento militar – e receiam que os drones possam sobrevoar a Praça Vermelha. Isto é revelador. Mostra que, neste momento, não são fortes”, adiantou o líder ucraniano.
“A retórica de Zelensky relativamente à Praça Vermelha deve ser entendida principalmente como um sinal estratégico e de pressão psicológica, em vez de uma previsão operacional garantida – ainda que muitos ucranianos apreciassem a operação após o inverno genocida mais duro de sempre orquestrado pelo Kremlin”, considera Davlikanova.
“É claro que alguns drones ucranianos poderiam chegar ao centro de Moscovo, penetrando no sistema de defesa aérea em camadas que rodeiam a capital – já ocorreram incidentes desse tipo”, acrescenta Ignatov. “Mas, por outro lado, parece-me que os dirigentes russos temem mais uma repetição dos ataques em que a Ucrânia introduziu drones na Rússia e lançou ataques a partir de dentro do território russo.”
É no contexto desses receios que se enquadram as medidas noticiadas pela CNN com base no relatório de uma agência europeia de informações a que o canal norte-americano teve acesso. “Penso que a preocupação por trás das restrições à internet na capital é que tal operação possa repetir-se”, refere Ignatov, ainda que “o impacto mediático e os danos decorrentes de tal operação seriam maiores do que os causados por drones individuais que penetrassem no sistema de defesa aérea”.
A antecipar o 9 de maio deste ano, o Kremlin anunciou uma trégua de dois dias nos ataques à Ucrânia (prolongado por mais um dia na quinta-feira), ao que Kiev respondeu com a sua própria trégua unilateral na quarta-feira (que foi violada pelos russos). Foi “um cálculo político”, nas palavras de Davlikanova, que “permite à Ucrânia contrastar a sua própria posição com as propostas de cessar-fogo altamente orquestradas da Rússia, apresentando a trégua de Moscovo [de 8 a 10 de maio] como um instrumento político e moldando as perceções internacionais antes de um período carregado de simbolismo”.
No dia da trégua unilateral declarada por Kiev, Zelensky revelou que Putin mobilizou vários sistemas de defesa aérea para a capital russa, em mais um indicador das fragilidades – e das prioridades – do Kremlin neste momento. “Verificámos que, nas últimas semanas, foram criados anéis adicionais de defesa aérea em torno de Moscovo, à custa de uma redistribuição em grande escala de sistemas provenientes das regiões russas”, referiu o líder ucraniano na X. “Isto indica que a liderança russa não está a preparar-se para o cessar-fogo que tem sido objeto de tantas declarações, e está mais preocupada com o seu desfile em Moscovo do que com o resto da Rússia”, algo que “cria oportunidades adicionais para as sanções de longo alcance” de Kiev que irão servir para “definir as nossas prioridades de acordo com isso”.
Volodymyr Zelensky acompanhado de Ursula von der Leyen e Mark Rutte durante o encontro em Erevan, na Arménia (AP)
Momento marcante
Todo o simbolismo deste 9 de maio coincide com um momento marcante da guerra há meio mês, quando a Ucrânia conseguiu conquistar uma posição militar russa com recurso exclusivo a uma frota combinada de drones aéreos e terrestres sem enviar infantaria para o terreno. Foi o que especialistas destacaram à CNN Portugal em meados de abril como um “sucesso tático inédito” que “marca um ponto de viragem na frente de combate” – e que está, incontornavelmente, a alimentar a especulação sobre as decisões recentes do Kremlin.
“A redução das comemorações do Dia da Vitória e o reforço das medidas de segurança em torno dele revestem-se de importância estratégica, independentemente da forma como o Kremlin as apresenta publicamente”, destaca a analista do CEPA – algo que “é especialmente importante dado que as narrativas de que ‘não há cartas na manga’ [da Ucrânia] e de que ‘Moscovo está a ganhar militarmente’ continuam vivas e de boa saúde”. “Em geral, as melhores contra-narrativas são a coragem da Ucrânia e as suas capacidades de longo alcance”, acrescenta a especialista.
Confrontada com o exclusivo da CNN sobre o reforço da segurança em torno de Putin perante alegados receios de um golpe de Estado, Elena Davlikanova diz que, a confirmar-se, trata-se de “um bom sinal de que as elites russas estão a recuperar a lucidez”, sobretudo “tendo em conta a forma como Putin levou a economia e a imagem internacional da Rússia à ruína”.
Ignatov, pelo contrário, tem dúvidas quanto à precisão das informações apuradas pela agência de informações, que a CNN não nomeia. “Tenho dificuldade em comentar esta informação porque desconheço a sua base”, refere o investigador do Crisis Group. “Alguns dos factos apresentados parecem estar longe da realidade da situação na Rússia; parece mais um episódio da guerra de informação.”
Nesta guerra em duas frentes, adianta Davlikanova, “as melhores contra-narrativas são a coragem da Ucrânia e as suas capacidades de longo alcance” e o grande ponto a destacar no imediato é o peso que este 9 de maio vai ter – ou não – na retórica bélica da Rússia. “Essencialmente, o Dia da Vitória de 2026 irá destacar não o triunfalismo russo, mas a fraqueza determinada pelas mudanças bélicas da nova era, enraizada em assimetrias de alta precisão e baixo custo”, ressalta a especialista.
E neste contexto, adianta, também “é interessante ver a maior potência nuclear a implorar a Washington – o seu alegado rival – que garanta a sua segurança face à ameaça proveniente daquilo que os russos têm vindo a enquadrar como um ‘Estado falhado’ há décadas”.