A acne é uma doença inflamatória multifatorial. Ela é causada por fatores como estresse, alimentação e, principalmente, questões hormonais, já que os hormônios andrógenos (masculinos) ativam as glândulas sebáceas, o que favorece o aparecimento de cravos e espinhas.

Quando surgem apenas algumas espinhas com frequência baixa ou não há uma quantidade expressiva de cravos, é possível melhorar a aparência da pele com produtos de skincare, afirma a dermatologista Edileia Bagatin, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ela recomenda um sabonete facial para pele oleosa ou acneica (mas não muito adstringente), hidratante de textura leve e protetor solar. Como complemento, é possível incluir cosméticos com ácido salicílico, niacinamida, zinco ou ácido glicólico.

Mas, quando a acne aparece em grande quantidade e frequência, deve-se procurar um médico dermatologista para iniciar um tratamento farmacológico, pois trata-se de uma doença que, se não tratada precocemente, pode deixar cicatrizes no rosto.

Acne é causada por fatores como estresse, alimentação e, principalmente, questões hormonais. Foto: Pixel-Shot/Adobe Stock

O tratamento varia de acordo com o perfil do paciente e a gravidade da doença, conforme orienta a EuroGuiDerm 2026, diretriz europeia publicada em março que reúne as indicações de tratamentos baseados em evidências científicas. Veja os detalhes para cada caso a seguir.

Cravos

Muitas pessoas não sabem, mas os cravos, aqueles “pontinhos pretos” na pele, são um tipo de acne. Trata-se da acne comedoniana, que não desenvolve a etapa inflamatória, ou seja, não há pus, nódulos ou cistos (como nas espinhas).

Os comedões são formados por uma mistura de gordura produzida pela glândula sebácea, restos celulares e queratina. Aparecem na pele, especialmente na testa, nariz e queixo, em forma de pequenas protuberâncias abertas (os tais “cravos pretos”) ou fechadas (“cravos brancos”).

Popularmente conhecidos como cravos, os comedões são uma forma de acne e podem ser fechados ou abertos. O processo fisiológico de ambos é igual; a diferença é que, quando o sebo acumulado “estoura” os poros da pele e fica visível, oxida em contato com o ar, ganhando a coloração preta. Foto: Svitlana/Adobe Stock

Para esse tipo de acne, o tratamento mais recomendado na diretriz europeia é o uso de retinoides tópicos, isto é, pomadas com derivados da vitamina A. O documento coloca como preferência o adapaleno. Para Edileia, porém, o ácido retinóico é uma opção mais eficaz, mas tem maior potencial irritativo.

Não é recomendado o uso de antibióticos para tratar cravos, reforça a diretriz.

A dermatologista também diferencia os cravos dos chamados filamentos sebáceos, presentes no nariz da maioria das pessoas. Enquanto o primeiro é um tipo de acne e representa um estágio mais grave, o segundo tem uma aparência semelhante, mas em menor escala, sendo natural da pele. “Não adianta espremer porque vai voltar. É fisiológico, é normal da nossa pele”, explica.

Os filamentos sebáceos são resultado de um processo fisiológico natural da pele. Foto: Emine/Adobe Stock

Espinhas

Para as espinhas — lesões inflamatórias como pápulas e pústulas —, a forma mais conhecida da acne, a diretriz divide as recomendações conforme a gravidade do quadro.

Em casos leves a moderados de acne pápulo-pustulosa, a preferência é pelo uso de medicamentos tópicos (pomadas), em especial duas opções com combinação de ativos: adapaleno + peróxido de benzoíla ou então peróxido de benzoíla + clindamicina. Ambos possuem o maior grau de evidências para casos menos graves.

“É difícil controlar acne com tratamento único, precisa de combinações. É uma combinação fixa, que já vem com os dois componentes”, diz a dermatologista, que diz preferir a combinação de adapaleno com peróxido de benzoíla, já que a clindamicina é um antibiótico.

Acne pápulo-pustulosa de grau leve a moderado pode ser tratada com medicamentos em pomadas. Foto: Cultura Creative/Adobe Stock

Outros tratamentos com um grau intermediário de evidência pelo consenso incluem pomadas de ácido azelaico, peróxido de benzoíla, retinoides ou a combinação de clindamicina + tretinoína.

A diretriz observa ainda que, em casos de doença mais disseminada ou de gravidade moderada, pode-se recomendar um tratamento sistêmico (via oral) com antibiótico. Porém, para evitar resistência bacteriana, o uso de antibiótico é contraindicado em casos leves ou como monoterapia e deve ser limitado a um período máximo de 3 meses.

“Três meses nem sempre é suficiente para curar a doença. A acne começa a melhorar em um ou dois meses, então acabaria precisando suspender o antibiótico ainda com lesões inflamatórias, correndo o risco delas voltarem. Isso atrasa a cura e ainda pode deixar cicatriz’, pondera Edileia, que prefere indicar a isotretinoína em vez de associar as pomadas a um antibiótico.

Já em casos graves de acne, é consenso que o uso de isotretinoína oral (princípio ativo do Roacutan) deve ser a primeira escolha.

Na prática clínica, é observado um agravamento temporário (conhecido como “flare-up” ou “purging”) da acne logo após o início do tratamento com a isotretinoína, antes do quadro melhorar. Para controlar essa reação inicial, assim como em quadros de inflamação extrema da acne, pode-se associar o uso de corticosteroides por 4 a 5 semanas.

Quando há alguma contraindicação para o uso da isotretinoína, a alternativa para tratar a acne grave é a combinação de antibiótico (preferencialmente doxiciclina ou limeciclina) junto a pomadas tópicas como adapaleno, trifaroteno, ácido azelaico ou adapaleno + peróxido de benzoíla.

Roacutan: por que é tão famoso?

A isotretinoína, princípio ativo do Roacutan, é um derivado da vitamina A que reduz o tamanho das glândulas sebáceas, diminuindo a oleosidade e inflamação. É considerada o padrão-ouro para o tratamento de formas graves de acne devido à sua alta eficácia em casos em que outros tratamentos falham ou não são suficientes.

A duração do tratamento é de pelo menos seis meses. O paciente deve estar livre de lesões inflamatórias por 1 a 2 meses antes de suspender o medicamento.

O remédio requer acompanhamento rigoroso para avaliar a dosagem e os efeitos na pele e colaterais. Ele é contraindicado para pessoas com problemas no fígado e para mulheres grávidas devido ao alto risco de causar anomalias estruturais ou funcionais no embrião ou feto.

O principal efeito adverso é o ressecamento da pele, lábios, nariz e olhos. Sobre outros efeitos adversos antigamente associados à isotretinoína — como depressão, ideação suicida e prejuízo no crescimento dos ossos —, “estudos mais recentes não confirmam essa associação“, diz a professora da Unifesp.

É preciso ter receio de usar isotretinoína?

A dermatologista da Unifesp diz que não há razão para temer o medicamento, exceto se houver desejo de engravidar durante o tratamento ou recusa ao uso de contraceptivos. A droga é eliminada do corpo em 15 dias e não há relatos de malformação associados ao uso anterior. Por precaução, recomenda-se não engravidar por um mês após o fim do tratamento.

Ela reforça ainda que são exigidos testes de gravidez frequentes para evitar o risco de malformação fetal, por isso a receita para o medicamento é de controle especial, com validade reduzida.

“Existem publicações falando sobre como a demora na indicação de isotretinoína atrasa a cura da acne e o impacto emocional para os pacientes, especialmente entre adolescentes”, argumenta.

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece a isotretinoína de forma gratuita para pacientes com indicação para o tratamento. Existem ainda opções genéricas ao Roacutan nas farmácias.

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Tratamento hormonal

O tratamento hormonal para acne pode ser feito de forma complementar ou alternativa aos tratamentos padrão, sejam eles tópicos (pomadas) ou sistêmicos (via oral), indica a diretriz europeia.

A espironolactona pode ser considerada para mulheres com acne pápulo-pustulosa, nodular ou conglobata. Trata-se de um medicamento oral com propriedades antiandrogênicas, isto é, que inibem ou bloqueiam os efeitos dos hormônios masculinos nas glândulas sebáceas e folículos capilares. Por isso, pode ser usada apenas por mulheres e é particularmente benéfica para aquelas cuja acne está ligada a desequilíbrios hormonais, como os associados à síndrome dos ovários policísticos (SOP).

Embora não seja licenciada para o tratamento da acne (em bula, é um diurético para hipertensão, insuficiência cardíaca e edemas), ela é utilizada de forma off-label (fora da indicação oficial do medicamento) para acne e alopecia androgenética.

A espironolactona é contraindicada na gravidez pelo risco de feminilização do feto masculino, portanto, assim como a isotretinoína, é obrigatório o uso de algum método contraceptivo durante todo o tratamento. É necessário ainda verificar com um médico possíveis interações medicamentosas.

Entre os principais efeitos colaterais estão menstruação irregular, dor nas mamas, pressão baixa, dor de cabeça, tontura, fadiga e cãibras nas pernas.

Acima dos 45 anos, o uso do medicamento exige monitoramento rigoroso dos níveis de potássio e da função renal.

Os contraceptivos orais são outra opção hormonal usada no controle da acne, considerados especialmente se houver desejo da paciente pela contracepção ou irregularidades menstruais.

A diretriz europeia cita ainda um novo medicamento que deve chegar no Brasil em breve, a clascoterona. Trata-se do primeiro inibidor tópico de receptor de andrógeno, sendo seguro para ser usado por homens porque a ação se restringe à pele, diferentemente dos remédios administrados por via oral.

Por ser um medicamento novo, ainda não existem estudos comparativos de eficácia em relação aos tratamentos disponíveis para homens atualmente (medicamentos tópicos como o adapaleno + peróxido de benzoíla ou isotretinoína).

Acne na gravidez

As opções consideradas seguras para o tratamento da acne em mulheres gestantes são mais limitadas e incluem o tratamento tópico com ácido azelaico ou peróxido de benzoíla.

“Em gestantes, o tratamento é feito com tópicos, procedimentos em consultório e, quando o quadro é muito inflamatório, corticoide oral por um curto período”, explica Edileia.

Ela ressalta ainda que durante a gestação deve-se evitar o uso de antibióticos. Já a isotretinoína (Roacutan) tem contraindicação absoluta devido ao alto risco de malformação fetal.

Quando buscar um dermatologista?

Adultos e adolescentes que sofrem com acne devem buscar atendimento médico, especialmente se há sofrimento psicológico ou abalo na autoestima associado ao quadro. Mesmo conhecendo as opções de tratamento, é necessário passar por um dermatologista para definir a melhor terapia individualmente, de acordo com histórico de saúde, contraindicações e dose adequada para cada caso.

“A automedicação pode agravar o quadro de acne, que não é fácil de tratar. Só o médico dermatologista é capaz de avaliar as característica da acne, da pele e as particularidades do paciente, considerar a saúde geral, os hábitos e uma série de aspectos de estilo de vida da pessoa que fazem parte da decisão para o melhor tratamento”, diz a médica.

“Acne é doença e, assim sendo, precisa de orientação e suporte médico”, conclui.