Claudio Beck on Foter.com / CC BY-NC

O nosso gosto por pão e massa não seria o mesmo se não fosse a nossa capacidade de decompor o amido – um talento que, há milhares de anos, as populações andinas do Peru levaram ao extremo.
Um novo estudo – conduzido por investigadores da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), e publicado nesta terça-feira na Nature Communications – revelou que os andinos indígenas têm, em média, até quatro vezes o número de genes para uma enzima digestiva que decompõe o amido na sua saliva do que qualquer outra população.
Uma análise mais detalhada das sequências do gene sugere que esta contagem extraordinária é o resultado de um evento de seleção há cerca de 10.000 anos – precisamente. na altura em que as batatas estavam a entrar em voga culinária.
À Science Alert, o líder da investigação, Omer Gokcumen, diz não acreditar que esta coincidência temporal seja mero acaso.
O amido é um açúcar complexo utilizado pelas plantas para armazenamento de energia. Tal como muitos animais, os humanos dependem de um conjunto de enzimas para decompor este material numa forma que pode ser rapidamente metabolizada.
Uma destas enzimas, chamada amílase salivar, é codificada pelo gene AMY1.
A maioria de nós tem pelo menos duas cópias deste gene, graças à sua duplicação há cerca de 800.000 anos, aumentando a nossa capacidade de começar a decompor o amido no momento em que colocamos um pedaço de alimento na boca.
Algumas populações têm muito mais do que duas cópias de AMY1, embora seja difícil determinar se estes múltiplos são uma consequência direta de alterações na dieta.
Para encontrar evidência sólida, os investigadores da UCLA realizaram uma análise genómica em mais de 3.700 indivíduos de 83 populações e compararam o número típico de genes AMY1 em cada uma.
Verificou-se que os andinos indígenas têm, em média, 10 cópias do gene, em comparação com uma média de sete cópias noutras populações em todo o mundo.
O novo estudo identificou uma assinatura clara de seleção a favorecer indivíduos que, por acaso, tinham numerosas cópias de AMY1, numa altura em que as batatas estavam a ser adicionadas ao menu andino.
Ter mais cópias do gene da amílase salivar proporciona uma concentração ligeiramente mais elevada de enzimas que digerem o amido, o que, segundo os cálculos dos investigadores, deu aos antigos peruanos uma probabilidade 1,24% maior de sobreviver o suficiente para ter mais filhos.
Isto pode não parecer muito, mas ao longo de milhares de anos fez dos andinos indígenas líderes mundiais na digestão de amido.