Segundo informações do canal DW Español, cidades pré-coloniais no Níger têm edifícios de barro habitados há dez gerações, mas o mundo gastou o último século apostando em concreto e aço como sinônimos de progresso. Agora, uma geração de arquitetos africanos está provando o contrário: na Bienal de Veneza de 2023, metade dos 90 convidados eram africanos ou de origem africana, recorde histórico. Francis Kéré, de Burkina Faso, foi o primeiro arquiteto negro a receber o Pritzker (2022). E em Dakar, o novo Instituto Goethe, construído com terra vermelha do Senegal, foi concluído em abril de 2026 como símbolo de que o barro não é material de pobre: é solução técnica para o século XXI.
Em Níger, edifícios de barro estão de pé há dez gerações enquanto o mundo inteiro gasta bilhões em concreto e aço, e a pergunta que arquitetos africanos estão respondendo com projetos reais é tão simples quanto provocadora: por que abandonamos o material mais abundante, mais barato e mais eficiente do planeta para construir com os dois mais poluentes? A terra vermelha da África Ocidental, transformada em tijolos prensados com técnicas que dispensam cimento ou reduzem seu uso a 4%, está entrando em edifícios públicos, hospitais, escolas e centros culturais com desempenho térmico que o concreto não alcança.
A Bienal de Veneza de 2023 foi o ponto de virada. O curador Lesley Lokko convidou cerca de 90 arquitetos e artistas, metade deles africanos ou de origem africana, recorde absoluto na história da mostra. Francis Kéré, de Burkina Faso, apresentou instalação sobre o futuro da arquitetura da África Ocidental. Mariam Issoufou Kamara, do Níger, desenhou com giz sobre as paredes planos, ornamentos e fachadas que recuperam um saber tradicional de construção com terra. A mostra atraiu 300 mil visitantes e a imprensa internacional a celebrou como marco que mudou a visão do continente.
Francis Kéré e a escola de barro que mudou tudo

imagem: DW
Francis Kéré começou a construir com barro há 25 anos, quando projetou uma escola primária para sua cidade natal, Gando, em Burkina Faso. Os tijolos de barro foram fabricados pela própria comunidade, que participou da construção inteira, e o resultado é um complexo que inclui salas de aula ventiladas naturalmente, residências para professores e biblioteca. A geometria simples cria áreas sombreadas que dispensam climatização mecânica, e o material regula a temperatura interna mesmo sob o calor extremo do Sahel.
O reconhecimento veio em escala global. Em 2022, Kéré se tornou o primeiro arquiteto negro a receber o Pritzker, prêmio considerado o Nobel da arquitetura. Na cerimônia, declarou que o prêmio lhe deu “coragem para seguir em frente” e que quer inspirar outros como a África lhe ensinou. Para Kéré, o problema nunca foi o barro: foi o estigma. “As pessoas o rejeitam, considerando-o material de pobres”, explicou. “Modifiquei suas propriedades para fabricar tijolos uniformes e construir um prédio que os vizinhos consideram moderno, usando o material com o qual já estão familiarizados.”
A física do barro: por que funciona melhor que concreto em clima quente
A defesa do barro como material de construção não é nostálgica: é técnica. A massa térmica da terra compactada absorve calor durante o dia e o libera lentamente à noite, regulando a temperatura interna sem ar-condicionado em regiões onde o termômetro ultrapassa 45 graus. O concreto, por comparação, absorve calor e o irradia para dentro, transformando o interior dos edifícios em estufa.
Mariam Issoufou Kamara, arquiteta que opera entre Níger e Nova York, é direta sobre o ponto: “Não se trata de identidade, é uma questão de física da massa térmica que pode reduzir o consumo de energia“. Seus projetos em Niamey incluem complexo residencial de argila que mantém o interior fresco mesmo com 45 graus do lado de fora, e um edifício de escritórios com mistura de argila e concreto que demonstra viabilidade comercial. Para ela, “a terra nos permite ventilação mais saudável e é mais econômica” do que as alternativas industrializadas.
O Instituto Goethe de Dakar: construção híbrida em terra vermelha
O projeto que transformou teoria em prova construída é o novo Instituto Goethe de Dakar, concluído em abril de 2026. O edifício foi projetado por Kéré e coordenado localmente pelo estúdio Worofila, com engenheiros alemães supervisionando a obra por encomenda do próprio instituto. A construção usa tijolos de laterita prensada combinados com elementos de concreto armado nas partes estruturais que suportam grandes cargas de cobertura.
Os tijolos foram fabricados pela empresa senegalesa Elementerre, que duplicou sua produção com novas prensas hidráulicas. Com prensa manual, a empresa produzia mil tijolos por dia com 8% de cimento; com as hidráulicas, passou a 2 mil blocos diários com apenas 4% de cimento, redução que torna o material mais barato e mais sustentável. O fundador da Elementerre planeja substituir completamente o cimento por totora, espécie invasora de junco que cresce nos manguezais do delta do rio Senegal, cujas fibras criam isolamento natural.
A totora: o junco que pode substituir o cimento
No norte do Senegal, a totora cresce em abundância nos manguezais e é considerada planta invasora. Mas ativistas ambientais e construtores descobriram que suas fibras longas e resistentes, com tecido esponjoso que forma isolante natural, podem substituir o cimento na fabricação de tijolos de argila e funcionar como cobertura de telhados. O material filtra água, armazena CO₂ e protege os manguezais ao ser colhido de forma controlada.
Mamadou Bâ, ativista ambiental senegalês, construiu casa ecológica inteira com painéis de argila isolados com totora nas paredes e juncos no telhado. A combinação terra-totora cria edifícios frescos, baratos e com pegada de carbono próxima de zero, sem necessidade de qualquer insumo importado. Para os construtores africanos, a totora representa exatamente o que buscam: material local, renovável e que dispensa a cadeia industrial do cimento e do aço.
A nova geração que quer construir bairros e cidades inteiras
O desafio que os arquitetos africanos enfrentam agora é de escala. Casas individuais e escolas de barro já foram provadas; o próximo passo é construir bairros, vilas e cidades inteiras com terra, salto que exige industrialização da produção de tijolos, padronização de técnicas e aceitação do mercado financeiro e regulatório. O fundador da Elementerre é explícito: “Temos que deixar de construir só casas que ficam bonitas em revistas. O reto é projetar em grande escala.”
David Adjaye, primeiro arquiteto de origem subsaariana a alcançar fama mundial, mudou-se de Londres para Acra (Gana) e começou a experimentar com terra batida em projetos comerciais. Seu estúdio construiu centro de arte de três andares com terra pisada e agora aplica a técnica em edifício de escritórios, escalando a tecnologia para demonstrar viabilidade fora do nicho. Adjaye trabalha também com tijolos modulares de laterita que se encaixam sem argamassa, técnica que acelera a construção e reduz custos.
O que a África pode ensinar ao mundo sobre construção sustentável
A indústria do cimento responde por cerca de 8% das emissões globais de CO₂, e a do aço por outros 7%. Juntas, produzem mais gases de efeito estufa que qualquer país individualmente, exceto China e Estados Unidos. A construção com terra, que dispensa ambos ou os reduz drasticamente, não é romantismo arquitetônico: é matemática climática.
Para o Brasil, onde a taipa de pilão tem tradição centenária em Minas Gerais, Goiás e São Paulo, a lição africana é especialmente relevante. O país enfrenta déficit habitacional de milhões de unidades e custo crescente de cimento e aço, e a possibilidade de construir com o solo do próprio terreno usando técnicas modernizadas que atendem normas de segurança não é ficção: é realidade que arquitetos como Kéré, Kamara e Adjaye já demonstraram com prédios habitados, premiados e em pé.
Você moraria em uma casa de barro projetada por um arquiteto premiado com Pritzker, ou acha que construção com terra é coisa do passado? Conte nos comentários se conhece construções de taipa no Brasil e o que pensa sobre a África liderar a revolução da arquitetura sustentável no século XXI.

