Quando menina, Efigênia Ramos Rolim gostava de desenhar, fazer dobraduras e transformar retalhos em bonecas. Aos familiares, tudo isso parecia uma bobagem em meio às dificuldades de uma família na roça, em Abre Campo, interior de Minas Gerais. E assim foi por décadas.

A criatividade em parte desaparecida despertou apenas muito tempo depois, aos 60 anos, quando residia em Curitiba. Ela andava pela rua XV de Novembro, uma das mais tradicionais do centro histórico, quando avistou um objeto verde no chão.

Inicialmente, Efigênia pensou ter encontrado uma pedra preciosa. Logo percebeu tratar-se de um papel de bala. Mesmo assim, o encantamento não passou: ela dobrou a embalagem, transformando-a em um bonequinho. Encontrou, então, a matéria-prima de sua arte.

Aos poucos, ela se tornou a Rainha do Papel de Bala, a multiartista que transformou o que era descartado em obras exibidas em algumas das principais instituições artísticas do Brasil, como o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, o Santander Cultural (atual Farol Santander), em Porto Alegre, e o Parque Lage, no Rio de Janeiro.

Com embalagens coloridas (que chamava de “míseros caídos”) e outros materiais, Efigênia criou objetos sonoros, roupas e esculturas de diferentes dimensões. Também desenhava, escrevia e compunha canções, com uma habilidade autodidata, de quem foi alfabetizada apenas aos 58 anos.

Baixa e franzina nos atributos físicos, ela chamava a atenção pela alegria e pelas roupas fruto de sua arte, como uma saia de sombrinha. Sua barraca na tradicional Feira do Largo da Ordem, no centro velho curitibano, foi uma atração à parte por quase 20 anos: por suas esculturas e, também, histórias e versinhos.

“Muitas e muitas vezes, reunia, na frente da barraca, um monte de gente para escutar a Efigênia falar”, contou à Folha Dinah Ribas Pinheiro, amiga e biógrafa da artista. Em um de seus versos mais conhecidos, dizia: “Fiz minha roupa com tanto capricho/ Me chamam de louca/ Porque visto lixo”.

A artista foi também celebrada em livros, peças teatrais e curtas-metragens. E virou até mesmo questão do Enem, em 2021. Recebeu a medalha da Ordem do Mérito Cultural em 2008, concedida pelo Ministério da Cultura em cerimônia no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em cujo palco deu uma grande cambalhota.

Mesmo com o sotaque mineiro mantido por tantas décadas, Efigênia era celebrada especialmente no Paraná. Chegou a receber o título de cidadã honorária de Curitiba em 2015. “Ela conhecia todo mundo, do prefeito até o professor. Conhecia toda a cidade, se dava com todas as pessoas”, relata a amiga.

Poeta, estilista, escultora, contadora de histórias e desenhista, Efigênia Ramos Rolim morreu em 28 de março, após o agravamento de um enfisema pulmonar. Aos 94 anos, deixou 9 filhos, 16 netos e 10 bisnetos.

Diversos nomes e organizações das artes emitiram notas de pesar, como o Museu Oscar Niemeyer, a Bienal de Curitiba e a artista Letícia Sabatella. “Deixou para nós a inspiração para seguirmos adiante, com coragem, poesia e muito amor pela vida”, escreveu a atriz.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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