Apesar de o crescimento dos Verdes ser muito mais tímido que o do Reform, Rob Ford, professor de ciência política na Universidade de Manchester, defende que a transferência de votos do Labour acontece de forma mais direta para os Verdes. “É muito claro nos resultados: o Labour perde *lugares* para o Reform, mas… O Labour perde *votos* para os Verdes. Os Verdes dividem os votos e o Ref[orm] sai a ganhar. Se o Labour reagir a este padrão dizendo ‘temos de ganhar votos de volta ao Reform’, arriscam-se a fazer um diagnóstico muito errado“, escreveu o especialista em duas publicações na plataforma Bluesky.

A análise académica não é surpreendente para a fação mais à esquerda do partido, que vê no discurso dos Verdes um caminho a replicar. As preocupações sobre o custo de vida e a política externa — que vários trabalhistas salientavam ao The Guardian como áreas de ação falhada por parte dos trabalhistas — tornaram-se centrais para os Verdes desde que Zack Polanski assumiu a liderança, mais ainda do que a tradicional agenda ambientalista.

Para quem está à esquerda do Labour, a solução para os maus resultados está, portanto, numa mudança de prioridades e não numa mera mudança de líder. “Não há como negar que os resultados destas eleições vão ser muito maus para o Labour. Sim, Keir Starmer é muito impopular. Mas são as suas políticas que motivam essa impopularidade. Simplesmente mudar o líder sem mudar as políticas não vai impedir um desastre em 2029”, escreveu nas redes sociais a deputada trabalhista Diane Abbot, que ocupou, sob a liderança de Jeremy Corbyn, o Ministério-sombra da Administração Interna.

Na mesma plataforma, John McDonnell, outro nome do Governo-sombra de Corbyn, com a pasta das Finanças, alertava para um perigo concreto de o Labour manter o mesmo rumo, em linha com a análise de Rob Ford. “Keir precisa de pôr o partido e o país em primeiro lugar e avaliar se está a arriscar abrir a porta a Farage”, escreveu. Pela primeira vez, o partido da direita radical ficou em primeiro lugar no voto popular, com mais de um terço dos votos — caso se repita o resultado em 2029, o sistema uninominal britânico pode permitir a sua chegada ao Governo. Ainda assim, McDonnell apela a que esta mudança de rumo seja feita através do diálogo e não de um “golpe”.