Foi militante do PCP durante 48 anos. Passou dez na clandestinidade e oito na prisão. Serviu o partido como funcionário, membro do Comité Central, deputado, diretor do jornal “Avante!”, líder parlamentar (durante 15 anos) e candidato à Presidência da República. Durante muito tempo, foi o braço direito de Álvaro Cunhal. Acabaria por romper com ele e por se assumir como um dos protagonistas da chamada ala renovadora. Morreu esta semana aos 93 anos. Em comunicado, o PCP dedicou-lhe apenas 28 palavras e 199 caracteres.
“A pedido de vários Órgãos de Comunicação Social, sobre o falecimento de Carlos Brito.” Assim começa a nota divulgada no site do PCP. A seguir, pode ler-se: “Sem prejuízo das conhecidas diferenças e distanciamento político, registamos em Carlos Brito o seu percurso antifascista e a sua contribuição na Revolução de Abril, nomeadamente no plano parlamentar”. Sem mais.
Carlos Brito morreu na quarta-feira, em casa, no concelho de Alcoutim, depois de ter estado internado no Hospital de Faro devido a uma infeção respiratória. Foi líder parlamentar durante 15 anos, candidato apoiado pelos comunistas à Presidência da República, diretor do jornal “Avante!” e membro do Comité Central durante 45 anos. No final dos anos 90 e na viragem do século, foi-se afirmando com uma voz crítica do rumo que o partido estava a seguir, o que lhe valeu o fim da amizade com Álvaro Cunhal.
Anos mais tarde, em entrevista à RTP, acabaria por revelar que a “zanga” com Álvaro Cunhal lhe causou mais sofrimento do que os oito anos encarcerado. “Gostaria que não tivesse acontecido, que tivéssemos chegado a um acordo. Não que eu teria abdicado da minha opinião, não podia.” O momento da rutura com o líder histórico do PCP deu-se durante a preparação do XIV Congresso, em 2000. Numa conversa privada com Cunhal, Brito defendeu que o partido devia “deixar o marxismo-leninismo”, lembrando “as várias experiências de insucesso no Mundo” de regimes com esta ideologia.
Apesar de já não ser secretário-geral do PCP, Cunhal mantinha influência no partido e, em reunião do Comité Central, expôs a existência de membros que defendiam renovação do partido. Depois do encontro, Carlos Brito regressou a Alcoutim, onde tinha crescido, e enviou ao secretariado comunista aquela que ficou conhecida como “carta-bomba”. Nela apelava ao abandono do leninismo e defendia um “regresso a Marx”, exigindo uma “profunda democratização” do partido. A partir desse momento, passou a ser tratado como um inimigo da direção. Meses mais tarde, demitiu-se do Comité Central.
Em 2002, em conjunto com Carlos Luís Figueira e Edgar Correia, foi alvo de uma sanção disciplinar pelo PCP. Mas enquanto estes dois foram expulsos, Carlos Brito foi suspenso por 10 meses. Terminado esse período autosuspendeu-se como militante e assim ficou até ao fim da sua vida. Criou oficialmente um movimento dos renovadores comunistas, em que assumiu o cargo de presidente do Conselho Nacional. Também regressou ao Algarve, onde foi autarca e se dedicou à escrita, tendo publicado livros de ficção, poesia e memórias. Foi agraciado pelo amigo Jorge Sampaio com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, em 1997, e com a Ordem da Liberdade, grau de Grande-Oficial, em 2004.
António José Seguro, José Luís Carneiro e José Manuel Pureza lamentaram o desaparecimento de Carlos Brito. Os bloquistas vão, de resto, propor um voto de pesar no Parlamento. No Observador, Arménio Carlos, ex-dirigente do PCP e antigo líder da CGTP, recordou Brito como um “homem que lutou pela liberdade, pela democracia”, elogiando-o como alguém que “nunca deixou de afirmar publicamente as suas posições pela liberdade e democracia”.
Também no Observador, e mesmo assumindo que houve um afastamento entre os dois, José Jorge Letria referiu-se a Brito como “um guerreiro resistente à ditadura e à mediocridade que depois se foi apoderando de muitos aspetos e áreas fundamentais da nossa democracia”.
Carlos Brito (1933-2026): o histórico comunista que rompeu com Cunhal para se afastar de Lenine