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A China manteve a economia iraniana viva nos primeiros dois meses de guerra, e muitos analistas atribuem a Pequim o papel de principal força motriz por detrás do cessar-fogo de Abril. Caso o conflito em plena escala venha a reacender-se, poderá mesm tomar medidas para ajudar militarmente o Irão.
O presidente dos EUA, Donald Trump, suspendeu o “Projeto Liberdade“, a operação norte-americana destinada a restabelecer a navegação comercial através do Estreito de Ormuz.
Numa publicação nas redes sociais, poucos dias após o anúncio da operação, Trump afirmou ter tomado a decisão de dar tempo aos negociadores norte-americanos para chegarem a um acordo com o Irão e pôr fim à guerra.
Os meios de comunicação estatais iranianos apresentaram a suspensão como um fracasso norte-americano. O Irão tinha avisado que atacaria os navios que tentassem entrar na via marítima e, posteriormente, lançou mísseis e drones contra embarcações civis e os Emirados Árabes Unidos.
O rumo que o conflito tomará a partir daqui permanece incerto, diz Tom Harper, professor de na University of East London, num artigo no The Conversation. Mas, independentemente do que aconteça a seguir, o papel da China será determinante.
A China manteve a economia iraniana viva nos primeiros dois meses de guerra. Antes do conflito, a China era responsável por até 90% das exportações de petróleo do Irão, importando mais de um milhão de barris por dia.
O Irão continuou a enviar grandes quantidades de petróleo bruto para a China durante as primeiras fases da guerra, tendo a CNBC noticiado que pelo menos 11,7 milhões de barris foram expedidos entre 28 de Fevereiro e 10 de Março.
Os pagamentos pelo petróleo iraniano foram processados por instituições como o Banco Kunlun da China e o Sistema de Pagamento Interbancário Transfronteiriço. Estas são alternativas ao sistema de pagamento global Swift, dominado pelos Estados Unidos, e permitem a liquidação de transações petrolíferas em yuan.
Tal tem ajudado o Irão a contornar as sanções ocidentais, colocando as receitas petrolíferas fora do alcance do Tesouro norte-americano.
O fluxo de petróleo do Irão para a China diminuiu desde meados de Abril, quando os Estados Unidos impuseram um bloqueio naval aos portos iranianos. Ainda assim, a China mantém a capacidade de proporcionar ao Irão uma tábua de salvação em termos de receitas, ainda que mais limitada, no futuro próximo.
No dia 2 de Maio, o Ministério do Comércio da China ordenou às empresas que não cumprissem as sanções norte-americanas impostas a cinco refinadoras chinesas ligadas ao comércio de petróleo iraniano.
Isto permite que as refinadoras continuem a processar o petróleo bruto iraniano que chega por comboio ou que já se encontra fora da zona de bloqueio. A 21 de Abril, cerca de 160 milhões de barris de petróleo bruto iraniano encontravam-se em trânsito ou em armazenamento flutuante no mar.
O apoio económico da China ao Irão está a tornar-se uma fonte de atrito entre Washington e Pequim, à medida que se aproxima a cimeira de Trump com o líder chinês Xi Jinping.
Numa entrevista à Fox News, a 4 de Maio, o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, afirmou que as compras contínuas de petróleo iraniano por parte da China equivaliam ao financiamento do terrorismo global.
A influência da China sobre a economia iraniana confere-lhe poder negocial sobre Teerão. E tudo indica que é do interesse de Pequim que a guerra chegue ao fim. A subida dos preços começa a afetar a economia chinesa, e contribuir para o fim do conflito ajudaria também o Governo chinês na sua ambição de se afirmar como a potência global responsável.
A China já teve um papel diplomático relevante no conflito. Embora o Paquistão tenha sido um dos principais mediadores entre os Estados Unidos e o Irão, muitos analistas atribuem à China o papel de principal força motriz por detrás do cessar-fogo de Abril.
Na altura, responsáveis iranianos afirmaram que Pequim lhes tinha pedido que demonstrassem flexibilidade e que contribuíssem para o desanuviamento das tensões. Desde então, a China parece ter continuado a pressionar o Irão para que negoceie com os Estados Unidos.
Poucas horas depois de Trump anunciar a suspensão do esforço norte-americano para guiar embarcações para fora do Estreito de Ormuz, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, reuniu-se com o seu homólogo chinês, Wang Yi, em Pequim. É a primeira vez que Araghchi viaja à China desde o início da guerra.
Num comunicado divulgado após a reunião, o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês afirmou: «A China considera que deve ser alcançada, sem demora, uma cessação completa das hostilidades… e que continuar a negociar continua a ser essencial.»
Também na sequência do encontro, Araghchi declarou que o Irão defenderá os seus «direitos e interesses legítimos nas negociações», mas que «aceitará um acordo justo e abrangente».
Apoio militar chinês
Ao mesmo tempo, há indícios de que a China está a jogar em várias frentes. Uma guerra prolongada com a participação dos Estados Unidos no Médio Oriente também apresenta vantagens para Pequim, sobretudo porque desvia a atenção norte-americana da região da Ásia-Pacífico.
Segundo vários relatos, a China estará mesmo a ponderar tomar medidas para vir a ajudar militarmente o Irão caso o conflito em plena escala venha a reacender-se.
De acordo com os serviços de informações norte-americanos, Pequim terá ponderado a transferência de sistemas de defesa aérea para o Irão, fazendo eventualmente transitar os carregamentos por outros países para dissimular o seu envolvimento.
A CNN noticiou em Abril que os sistemas de defesa em causa seriam mísseis antiaéreos de ombro, conhecidos pelo acrónimo inglês Manpads. A China respondeu afirmando que «nunca forneceu armas a qualquer parte no conflito».
A assistência técnica chinesa também aumentou a eficácia das forças armadas iranianas nas fases iniciais da guerra. Desde 2021, o Irão tem vindo a implementar o BeiDou, um sistema de navegação por satélite de origem chinesa.
Como alternativa ao Sistema de Posicionamento Global (GPS), gerido pelos Estados Unidos, o BeiDou tem ajudado a guiar os ataques de mísseis iranianos no conflito e permitido uma monitorização mais eficaz dos destacamentos militares norte-americanos.
Assim, a China desempenhou um papel fundamental na forma como o conflito se tem desenrolado até ao momento. E, dada a sua posição de influência sobre o Irão, será um fator decisivo para determinar se a guerra chegará a um fim negociado — ou se voltará a escalar para um conflito aberto, conclui Harper.