Será um pensamento minoritário no PS, mas existe: os socialistas devem entrar em diálogo com o Governo, “de boa-fé”, para avançar com a reforma laboral. É isso que defendem os socialistas Sérgio Sousa Pinto e Álvaro Beleza, com o primeiro a apontar que “a UGT não manda no PS” e o segundo a considerar que “uma parte do PS e até da UGT foram contaminados pelo vírus neomarxista da geringonça”.
Na CNN Portugal, o dirigente e ex-membro do secretariado do PS confessou ter ficado “muito decepcionado” com o resultado das negociações da concertação social, lamentando que o país seja “atavicamente e culturalmente inimigo da mudança”.
Sérgio Sousa Pinto deu o exemplo do banco de horas e do outsourcing como áreas onde considera que seria possível e desejável se ter chegado a acordo, esperando que o PS agora “assuma a sua responsabilidade”.
“O PS, da mesma forma que não manda na UGT, a UGT também não manda no PS. O PS terá que, julgo eu e espero que o faça, participar de boa-fé [nas negociações com o Governo]”, defendeu o ex-deputado no programa Contrapoder. Para Sousa Pinto, os socialistas devem participar nas reuniões com o Governo “sem imaginar” que são “uma espécie de braço político-parlamentar da UGT”.
“Não há nenhuma razão para que [o PS] não revisite a agenda para o trabalho digno. Porque as alternativas, as soluções e as diferenças e mudanças que os tempos podem reclamar não significam que o PS passe a adoptar a agenda para o trabalho indigno; é preciso ter essa abertura de espírito”, realçou, apelando a um esforço de “boa-fé” da parte dos socialistas e que não sejam o “megafone da UGT” em São Bento.
“Vírus neomarxista”
Já em entrevista à Renascença, Álvaro Beleza também lamentou a falta de acordo na concertação social. O também dirigente socialista considerou que este desfecho “é mau para o futuro do país” e que é “absolutamente necessária mais flexibilidade” nas leis do trabalho.
Do ponto de vista do médico que preside à Associação para o Desenvolvimento Económico e Social (SEDES), “a geringonça contaminou algum PS e alguma UGT” com o “vírus neomarxista”. E olha para fora para fazer valer o seu argumento: “Até o Deng Xiaoping percebeu que para ter economia pujante tem de ser com economia de mercado, propriedade privada e um sistema capitalista. Se não fosse assim, não tinham saído da miséria 500 milhões de chineses, 500 milhões de indianos. Parece que alguma esquerda, nomeadamente em Portugal, não percebeu.”
Olhando para o futuro, Beleza vê que o secretário-geral José Luís Carneiro “é um homem moderado e tem tido” abertura para a negociação da lei laboral, no entanto, na gestão das várias sensibilidades dentro do partido não é maioritária aquela que é favorável a reformar a legislação do trabalho.
“O PS ou se assume como um partido a pensar o futuro, que tem o melhor do liberalismo político e económico e o melhor do socialismo ou não auguro muito de bom, porque os jovens hoje, como se percebe, são mais liberais nos costumes e na economia, mas também são da sustentabilidade, do ambiente”, argumentou, sublinhando que os países nórdicos conciliaram “o melhor do capitalismo com o melhor do socialismo”, onde foram liberalizadas as leis laborais.