Texto de Luís Sousa (Médico)

O cancro do cólon é o 3º cancro mais frequente a nível global e a 2ª causa de morte por cancro, com maiores níveis de incidência na Europa, América do Norte e Austrália. Em Portugal, segundo dados do Registo Oncológico Nacional, o cancro do cólon é o terceiro cancro mais frequente no homem e o segundo mais frequente na mulher. No nosso país, ocorrem mais de cinco mil novos casos de cancro do cólon por ano, sendo os distritos de Braga, Porto, Vila Real e Bragança os de maior incidência desta neoplasia.

O cancro do cólon aumenta com a idade e é mais frequente no sexo masculino, com os homens a terem um risco de cancro 1,4 vezes superior às mulheres. Tem havido, no entanto, um aumento da incidência em indivíduos abaixo dos 50 anos o que pode levar a uma eventual revisão das estratégias de rastreio nos próximos anos.

A prevenção do cancro é uma peça chave quando falamos em fazer face a esta doença. Sabe-se que 40-50% dos cancros, no geral, são evitáveis e 44% das mortes por cancro também podem ser prevenidas. Alias, o European Code Against Cancer, da OMS, propõe um conjunto de catorze recomendações para os cidadãos mas também elenca várias propostas políticas de âmbito populacional que deveriam ser tidas em conta por todos os governos no sentido de se promoverem medidas que podem, no médio e longo prazo, reduzir a incidência e mortalidade por cancro.

Investir na prevenção é premente, porém, a OCDE coloca Portugal aquém do necessário nesta matéria, constatando-se que, em 2021, investimos metade da média da União Europeia em políticas de prevenção. Prevenir o cancro passa, entre outras coisas, por boas políticas de redução do tabagismo, do consumo de álcool, do controlo da obesidade e do excesso de peso, fatores de risco que, reconhecidamente, estão associados à doença oncológica.

No que toca à obesidade, 53% dos adultos portugueses têm excesso de peso ou obesidade (51% na UE); quanto ao álcool, Portugal foi o país com o nível mais elevado de consumo registado na UE no ano 2022, apresentando estatísticas que surpreendem! Em média, cada português adulto consome 11,9 litros de álcool puro por ano (o equivalente a cerca de 700 cervejas/ano ou 18 garrafões de vinho/ano). No incentivo à atividade física temos, igualmente, muito a melhorar. Curiosamente, ao contrário do que poderíamos imaginar, estamos pior na população de adolescentes do que nos adultos.

No que toca ao tabagismo, temos tido uma evolução favorável, com uma redução da prevalência de tabagismo de 17% para 14% entre 2014 e 2019, valor que nos coloca abaixo a média da UE (18%). Mas, se no campo da prevenção primária temos margem para atuar e melhorar, no capítulo da prevenção secundária (rastreios oncológicos) também temos margem de progressão.

Quando falamos de rastreios, podemos fazê-lo de forma oportunista e individual ou podemos atuar com base populacional, ou seja, através da oferta sistemática de testes de rastreio a toda uma população-alvo definida. Em Portugal, os rastreios oncológicos de base populacional abrangem o cancro da mama, do colo do útero e o cancro colorretal, embora, cada um deles se encontre em diferentes níveis de desenvolvimento e maturidade.

Se no cancro da mama, em 2023, 98% da população abrangida foi convidada a participar (conseguindo-se uma adesão de 51% e uma taxa efetiva de rastreio de 50%), no que toca ao cancro colorretal apenas 33% da população elegível foi convidada a participar (através da realização da pesquisa de sangue oculto nas fezes – PSOF). Destes, 41% aderiram ao rastreio o que se traduziu numa taxa efetiva de rastreio de apenas 14%. São números manifestamente insuficientes para atingirmos o nível de prevenção pretendido.

De facto, o rastreio do cancro do cólon precisa de evoluir no sentido de serem convocadas mais pessoas, eliminarem-se as assimetrias regionais na sua implementação, uniformizando-se em todo o país o modo de o operacionalizar e aumentando a capacidade de resposta dos serviços de gastrenterologia, públicos, privados ou do setor social que permitam a realização de colonoscopias em tempo útil a todos os cidadãos com resultado positivo na PSOF.

Apesar do pára-arranca do rastreio do cancro colorretal em Portugal, na ULS de Braga, segundo dados de dezembro de 2025, temos uma taxa de rastreio de 73,7%, fruto, em grande medida, do trabalho desenvolvido nos cuidados de saúde primários onde a prevenção e o rastreio oncológico ocupam uma boa parte do tempo dos médicos e enfermeiros de família. Porém, se, por um lado, é preciso incentivar os portugueses a realizarem o rastreio, também é importante que as políticas de saúde coloquem em prática formas mais eficientes de rastrear a população.