Num contexto em que comprar casa se tornou um objetivo cada vez mais distante para muitos jovens, histórias como a de Irene Vila, psicóloga de formação, parecem quase impossíveis. No meio de preços recorde no mercado imobiliário, a jovem valenciana conseguiu comprar uma antiga casa por apenas 9 mil euros. Sim, leste bem.
No entanto, o preço baixo escondia uma realidade bem mais complexa. A habitação, localizada numa pequena aldeia da província de Cuenca, em Espanha, encontrava-se praticamente abandonada e precisava de uma recuperação profunda. Ainda assim, Irene não se deteve e meteu mãos à obra, partilhando tudo com os mais de 100 mil seguidores no Instagram.
Desde criança que guardava uma ligação emocional forte àquela terra. Era ali que a sua avó materna tinha raízes e onde a família passava longos verões cheios de memórias. Apesar de a avó, Tere, já ter falecido, o lugar continuava a ocupar um espaço especial na vida da jovem. Quando surgiu a possibilidade de comprar a casa, Irene sentiu que era o momento certo para concretizar o sonho de ter um refúgio no campo, longe da agitação de Valência.
A negociação, contudo, esteve longe de ser simples. Os antigos proprietários tentavam vender a casa há anos e tinham recusado outras propostas. Irene percebeu rapidamente que o estado degradado do imóvel poderia jogar a seu favor. A existência de outra casa à venda na mesma aldeia, por um preço semelhante, mas em melhores condições, ajudou-a a convencer os vendedores de que os 9 mil euros eram um valor justo.
Apesar do entusiasmo inicial, a jovem cedo percebeu a dimensão do desafio que tinha pela frente. Antes sequer de pensar em obras, passou dias inteiros a limpar o espaço. A casa esteve fechada durante tanto tempo que o interior acumulava pó, folhas e sinais evidentes de abandono. Para muitos, aquele esforço parecia inútil antes de uma remodelação total, mas Irene tinha outra visão. Queria devolver dignidade à casa desde o primeiro momento e sentir que aquele espaço voltava finalmente a ter vida.
Depois da limpeza veio a prioridade mais urgente: o telhado. Construído em caniço e telha tradicional, estava cheio de buracos e deixava entrar água sempre que chovia, pelo que era urgente começar por ai mesmo – até porque, como se costuma dizer, as casas começam-se pelo telhado.
Embora tenha assumido algumas tarefas pessoalmente – como pintar divisões, recuperar paredes ou tratar do jardim – as obras principais ficaram a cargo de profissionais. E foi precisamente aí que encontrou outro grande obstáculo. Nas zonas rurais, encontrar pedreiros e especialistas disponíveis revelou-se muito mais difícil do que esperava. Mas a paciência estava do seu lado.
Neste momento, a casa já tem um telhado novo, as escadas foram reconstruídas e várias divisões ganharam uma nova camada de tinta aplicada pela própria Irene. Os próximos passos passam pela instalação elétrica, substituição da porta principal e recuperação de algumas janelas particularmente degradadas.
Sem recorrer a empréstimos bancários, Irene prefere avançar ao seu ritmo, conforme as possibilidades financeiras o permitirem. Calcula que a recuperação total possa demorar entre 3 a 4 anos. Mas não vê isso como um problema. Pelo contrário: garante que está a aproveitar cada etapa do processo e que a vontade de ver a “pequena casa de sonho” concluída só aumenta a cada dia.