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“Apagou” é uma palavra que você provavelmente ouvirá depois de perder a consciência para uma anestesia geral – mas o cérebro sempre deixa alguma luz acesa. De acordo com um novo estudo, a mente de pessoas anestesiadas não só capta os sons e as conversas ao seu redor, como também é capaz de processar cada estímulo sonoro, prevendo, inclusive, qual será a próxima palavra a ser dita numa frase. A pegadinha é que, ao despertar, o cérebro já esqueceu de tudo.
Nessa quarta-feira (6), pesquisadores da Baylor College Of Medicine (EUA) publicaram no periódico Nature um novo estudo que analisa o processamento de linguagem no cérebro de pessoas sob o efeito de anestesia geral. Os achados revelam que, mesmo em um estado inconsciente, o cérebro continua processando os estímulos do mundo exterior de maneira sofisticada.
O estudo acompanhou sete pacientes diagnosticados com quadros graves de epilepsia durante suas cirurgias de lobectomia temporal anterior. O procedimento, feito para controlar as crises epilépticas, é realizado sob anestesia geral, e envolve a remoção de certas porções do tecido do cérebro, incluindo a amígdala e o hipocampo.
Para os pesquisadores, isso era conveniente. É justamente o hipocampo – a estrutura responsável, entre outras coisas, pela memória e a navegação espacial – o ponto de maior foco do estudo. Inserindo eletrodos temporários (chamados Neuropixels) nessa região, os cientistas poderiam monitorar, neurônio por neurônio, a atividade elétrica de centenas de células cerebrais em resposta a diferentes estímulos sonoros.
Os experimentos envolviam tocar uma variedade de barulhos aos pacientes desacordados, e analisar a maneira como o cérebro lidava com cada estímulo novo. Primeiro, os cientistas testaram a capacidade de discriminação – isto é, como a mente dos pacientes desacordados reagiria a um estímulo diferente entre outros vários idênticos. Para isso, tocaram uma sucessão de tons repetidos, interrompidos vez ou outra por uma frequência um pouco maior ou menor.
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O hipocampo anestesiado reconheceu essa diferença. Não só isso: ele também ficou melhor em reconhecer quais bipes eram repetidos e quais eram discrepantes, reagindo de maneiras cada vez mais distintas aos dois estímulos. Isso sugeria alguma forma de plasticidade, ou que o cérebro estava aprendendo.
O estudo seguiu, então, para um experimento mais complexo. Dessa vez, a ideia era analisar a resposta dos neurônios a palavras e conversas. Na sala de cirurgia, os participantes escutaram uma série de contos narrados no podcast Moth Radio Hour. Com exceção de um dos participantes, que escutou o vídeo Por que NÃO deveríamos procurar aliens do canal educativo Kurzgesagt.
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No decorrer dos áudios, o cérebro dos anestesiados processou ativamente as frases que estavam sendo ditas – codificando, inclusive, aspectos semânticos e gramaticais das palavras, com padrões mentais distintos para verbos, substantivos e adjetivos. No mapeamento dos sinais cerebrais, a palavra “cachorro”, por exemplo, disparava neurônios próximos à palavra “gato”, mas ficava distante da palavra “caneta”.
O mais surpreendente foi o fato do cérebro inconsciente conseguir antecipar qual palavra viria depois de outra. “Esse tipo de codificação preditiva é algo que associamos com estar acordado e atento, mas, mesmo assim, ela está acontecendo aqui em um estado inconsciente”, disse, em nota, o pesquisador Benjamin Hayden.
Não tão surpreendente foi o pós-operatório: perguntados, nenhum dos pacientes disse lembrar de qualquer coisa durante o período em que estavam sob anestesia. Nada de palavras, contos ou barulhos.
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Saber o quanto o processamento de informações complexas depende da consciência é, escrevem os autores, uma questão central na neurociência. Os novos achados sugerem que processos como o processamento da linguagem podem acontecer mesmo quando a consciência está ausente.
“Nossos achados mostram que o cérebro é bem mais ativo e capaz durante a inconsciência do que antes se pensava”, afirma Sameer Sheth, que coordenou o estudo. “Mesmo quando pacientes estão completamente anestesiados, seus cérebros continuam analisando o mundo a sua volta”.
O estudo pontua, por outro lado, certas limitações. É incerto, por exemplo, se uma análise feita com base no cérebro de uma pessoa anestesiada (nesse caso, especificamente com propofol) pode ser aplicada a outros estados inconscientes, como o sono ou um coma, ou mesmo sob efeito de outros anestésicos.
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