Um uruguaio a vencer numa “grande volta” e a liderar pela primeira vez uma das três principais corridas de ciclismo. Esta é uma das notícias que saiu neste sábado da etapa 2 da Volta a Itália, com Guillermo Silva, da Astana, a vencer de forma surpreendente. Mas há uma notícia tão ou mais relevante do que essa.
António Morgado foi ao chão, Adam Yates ficou com a pele destruída e a cara em sangue e, pior do que todos eles, Marc Soler e Jay Vine saíram de maca para o hospital. É este o saldo da Emirates neste sábado de Volta a Itália, com uma queda na cabeça do pelotão a deitar abaixo boa parte da equipa de João Almeida, ausente deste Giro 2026.
A equipa fica, agora, dependente do que possa fazer Jan Christen, um dos “sobreviventes” dentro da UAE. O jovem suíço, de 21 anos, já mostrou alguma capacidade, mas está longe de ser uma aposta segura por parte de uma equipa que fica sem opções evidentes para lutar por um top 3.
Caso esteja bem fisicamente, o português António Morgado poderá ficar, nesta medida, com liberdade para lutar por etapas – já deveria ter alguma e neste estado de coisas poderá ter ainda mais.
Este era um dia em que se pensava que Morgado até fosse lutar pela camisola rosa. Na sexta-feira, na etapa inicial da Volta a Itália, o português António Morgado foi sprintar por segundos de bonificação a meio da etapa – isso sugeriu que o ciclista da Emirates estava a preparar terreno para este sábado.
Na etapa 2, o perfil enquadrava-se na perfeição nos predicados de Morgado, pelo que estava em excelente posição para acabar o dia com a camisola rosa da Volta a Itália. Em Portugal já se esfregavam as mãos com Morgado, mas, de manhã, primeiro citado pelo site oficial do Giro e mais tarde em entrevista ao Eurosport, Morgado disse logo ao que ia – ou ao que não ia.
“Ontem fui aos bónus só para subirmos na classificação e hoje termos o carro da equipa mais a frente no “comboio”. Assim temos vantagem caso algo aconteça. Era só isso”, começou por enquadrar antes da etapa.
E explicou que a equipa tinha outras ideias para este sábado: “Se eu estiver bem é o meu tipo de etapa, mas temos o Narvaez, que é mais forte do que eu. As hipóteses são o Narvaez e Christen: são os nossos líderes para hoje. Hoje não é para mim. Devo perder dez minutos”. E prometeu: “Tentarei ganhar uma etapa mais à frente na corrida”.
Poderia ser bluff? Sim – e não seria inédito. Mas Morgado acabou mesmo por não ir à luta – quer tenha sido por desinteresse, quer pelo efeito da queda em que esteve envolvido.
Queda grande
A tirada 2 da Volta a Itália acabou por ser ganha por Guillermo Silva, confirmando que o perfil da etapa era demasiado duro para sprinters puros. Não havia alta-montanha, longe disso, mas os quilómetros finais tinham elevações suficientes para afastar da luta os velocistas mais pesados.
A etapa foi calma durante quase todo o dia, com uma fuga de dois ciclistas que sabiam que dificilmente daria para eles – estavam focados, essencialmente, em recolher pontos intermédios para a classificação da montanha.
A 30 quilómetros da meta os aventureiros foram neutralizados e pouco depois houve uma queda grande no pelotão que apanhou vários ciclistas importantes. Morgado, Gee, Buitrago e Vendrame foram alguns dos envolvidos, mas pior do que estes ficaram Adam Yates, com o corpo bem marcado, e Jay Vine, que saiu de maca para o hospital e abandonou a corrida – a Emirates teve cinco ciclistas envolvidos na queda. Afonso Eulálio também pode ganhar um papel diferente na Bahrain com o abandono já confirmado de Buitrago.
A etapa esteve neutralizada alguns minutos pelo incidente, mas foi reiniciada a tempo de os ciclistas poderem atacar a subida que definiria a etapa. Bernal foi um dos que inicialmente apareceu bem, Pellizzari também pareceu confortável e Vingegaard, apesar de mal colocado numa primeira fase, acabou por apanhar a cabeça de um grupo que rodava rápido o suficiente para afastar os sprinters.
O dinamarquês acabou por fazer uma aceleração na zona dura da subida e conseguiu isolar-se com Pellizzari e Eetveld. Vingegaard e o italiano tinham interesse em capitalizarem o corte para os demais, enquanto o belga, sagaz, sabia que essa não era a sua luta. Pôde, por isso, seguir na roda e preocupar-se apenas com o triunfo na etapa, já que era claramente o mais veloz dos três na ponta final.
A colaboração na frente não foi suficiente para impedir gente de chegar à cabeça da corrida, nomeadamente Jan Christen, um dos “sobreviventes” da Emirates – e que será, agora, a única esperança na classificação geral.
Fica a dúvida sobre se Vingegaard e Pellizarri poderiam ter feito algo mais naquele momento e capitalizarem melhor o corte que conseguiram fazer. Guillermo Silva acabou por ser bem lançado pelo colega Scaroni, num grande trabalho de equipa, e bateu outros ciclistas teoricamente mais fortes.
Para este domingo está desenhada uma etapa teoricamente para final em pelotão compacto. É certo que há uma subida com alguma dureza a meio do dia, mas ainda longe o suficiente da meta para permitir recuperações. Em tese, haverá final ao sprint em terreno plano na cidade de Sófia. Será a despedida do solo búlgaro, antes de a corrida entrar em Itália na etapa 4.