“Os que estão no Governo, é tudo para o saco deles e os pobres cada vez mais pobres!”, exclamava uma idosa. O desabafo feito no Mercado de Benfica, em Lisboa, juntou-se a outros de outros populares que foram questionados por uma jornalista da RTP no âmbito de uma peça sobre o aumento do custo de vida. O excerto de vox-pop apareceu já no final de uma peça sobre inflação, que foi transmitida na quinta-feira no “Telejornal” na RTP. Mas causou controvérsia.

Resultado? Pouco depois, a mesma peça foi transmitida na RTP Notícias, mas já sem as palavras críticas dessa idosa ao Governo. O Conselho de Redação resolveu então pedir esclarecimentos à autora da peça, a jornalista Soraia Ramos, e ao diretor de informação da estação pública, Vítor Gonçalves, que apresentaram versões contraditórias. Os membros eleitos do órgão retomarão assim o tema na próxima reunião de Conselho de Redação da RTP.

“Quais foram os motivos da alteração da reportagem sobre a inflação que passou no telejornal dia 30 de abril? Sabemos que foi cortada na parte final quando uma idosa opinou sobre o aumento de custo de vida. Quem efetuou esse corte? Quem ordenou esse corte? Tiveste conhecimento prévio?”, questionou o órgão representativo dos jornalistas, segundo um comunicado a que o Expresso teve acesso.

A direção de informação da RTP argumentou que a afirmação em causa — “é tudo para o saco deles”, visando de forma geral os políticos — “não acrescentava informação relevante ao tema tratado, não tinha relação direta com as causas identificadas para o fenómeno em análise e, sobretudo, lançava um anátema indiscriminado sobre a classe política” e poderia “amplificar uma visão populista” e “desinformada”, sem “qualquer enquadramento factual” que a justificasse.

E garantiu que a decisão de retirar esse excerto foi tomada “após a jornalista responsável pela peça ter sido informada”, assim como a sua editora e a coordenadora do jornal onde a reportagem foi transmitida no “Telejornal”.

Informação que foi contrariada pela repórter, Soraia Ramos, que garantiu não saber quem cortou a peça, nem deu a indicação nesse sentido: “Só soube desse corte mais de 24h depois, quando vi o que foi para o ar cortado, porque me chamaram a atenção para isso”, afirmou a jornalista, acrescentando que logo a seguir à transmissão da peça recebeu um telefonema da subdiretora, Luísa Bastos, e uma mensagem do diretor de informação, Vítor Gonçalves, criticando a inclusão daquele depoimento da popular.

Este é mais um caso recente que levou à tomada de posição do Conselho de Redação da RTP. Ainda esta semana, os conselhos de redação da TV e Rádio da RTP alertaram na Assembleia da República para a mudança de imagem e aquilo que consideram corresponder à ‘perda de identidade’ das suas marcas.