São já várias as celebridades que Ejatu Shaw teve a oportunidade de fotografar. Pode encontrar algumas dessas imagens aqui

Vestindo um vestido cor de champanhe, com uma generosa racha até à coxa, a atriz Angela Bassett surge num terraço de Londres, encostada ao pequeno muro da varanda, com a pacata cidade como pano de fundo. A imagem marcante é a capa da edição de maio de 2025 da revista Ebony. A foto foi tirada pela fotógrafa britânica-serra-leonesa Ejatu Shaw, que ainda não consegue acreditar que foi convidada para fotografar uma das estrelas da franquia de cinema, detentora de vários recordes, “Black Panther”.

“É a Angela Bassett, uma das maiores da sua área… e eu fui escolhida, entre todos os fotógrafos em Londres, para captá-la. O simples facto de… ser uma fotógrafa negra a fotografar esta mulher negra icónica, desta forma… Havia uma equipa de criadores negros icónicos também. Foi muito empoderador”, descreve a Larry Madowo, da CNN, durante uma entrevista no seu estúdio em Londres.

Além de Bassett, Shaw teve o privilégio de fotografar Cynthia Erivo, Usain Bolt e o cantor Craig David, para quem também criou capas de CD e de vinis.

Uma viagem a casa

Fotografar figuras de destaque é mais do que um marco na carreira para Shaw: é a confirmação da decisão que tomou, acabando por seguir um caminho diferente daquele que os pais tinham imaginado. “Eu estava… preparada para estudar medicina. Era uma criança destinada a tornar-se médica”, conta.

Contudo, Shaw, que é uma amante de arte que sempre “pintou e criou esculturas”, queria uma carreira nesta área. Para equilibrar o seu amor pela arte com as expectativas dos pais, para que tivesse um rendimento estável, escolheu arquitetura. Para ela, “era uma espécie de meio-termo”. Até que uma viagem em 2013 à terra natal dos seus pais, a Serra Leoa, mudou tudo.

“Tinha fotografias, editava-as no meu telemóvel, ficava tão feliz com o resultado final. Parecia uma obra de arte. Essa foi realmente a minha inspiração para a fotografia”, recorda.

Depois de regressar a casa, Shaw decidiu abandonar a arquitetura e estudar fotografia. Mas, primeiro, teve de contar esta opção pai: “Disse-lhe que estava interessada em tirar um bacharelato em fotografia. Ele saiu a chorar. Foi a primeira vez que o fez, pelo menos que me tenha apercebido”.

A fotógrafa Ejatu Shaw e o pai num momento de espontaneidade. A artista está a trabalhar num projeto sobre a morte do pai, chamado “A Ele Retornaremos”, que permite às pessoas testemunhar o seu processo de luto (Ejatu Shaw)

 

O pai queria garantir a segurança e o bem-estar de Shaw, proporcionando-lhe um diploma de ensino superior. Contudo, depois das lágrimas, ela e o pai engendraram um plano que acabaria por agradar a ambos. Matriculou-se na Universidade de Westminster, em Londres, e tirou um mestrado em artes fotográficas.

Uma forma de terapia

Em 2025, o British Fashion Council (BFC) nomeou Shaw como uma das suas New Wave Creatives, uma honra que destaca os profissionais dos bastidores que moldam o mundo da moda.

“É incrível estar numa lista como esta, entre tantos outros criativos incríveis do setor. É bom ser reconhecida e é bom ter visibilidade junto de tantas pessoas que são líderes do setor”, diz.

À medida que Shaw vai ganhando maior reconhecimento pelo seu trabalho, tem usado também a sua arte como um mecanismo para responder às ansiedades da vida. “Lidei com muitos problemas de saúde mental ao longo dos anos. Descobri que usar a câmara é uma forma de lidar com esses sentimentos, de ter esse diálogo, essa conversa, comigo mesma. É uma ferramenta incrível”, descreve.

“Perdi o meu pai em 2020. Fomos à Serra Leoa visitar o túmulo dele, porque eu não estava presente quando ele faleceu. Quando, finalmente pude visitá-lo, tentei perceber como lidar com o luto. Descobri que fotografar-me nesses momentos era muito útil”, recorda. “É muito terapêutico usar o processo fotográfico como se fosse quase uma terapeuta”.

 

Nesta fotografia, Shaw usa um disparador de ar remoto portátil para tirar uma selfie com uma das suas câmaras analógicas (Ejatu Shaw)

O que o futuro reserva

Shaw não guarda esta forma de terapia só para si. Costuma partilhar conteúdo nas redes sociais, de modo a ajudar outras pessoas a fazer uma aprendizagem através da arte. “Descobri que as pessoas achavam muito útil o facto de eu não estar necessariamente a gritar-lhes instruções. Estava a aprender e a mostrar o que aprendia à medida que avançava. Este tipo de abordagem, de aprendizagem, pareceu-me agradar bastante às pessoas”, argumenta.

Quanto ao futuro, Shaw diz esperar poder um dia fotografar uma capa para a revista Vogue – bem como continuar a ensinar outras pessoas.

“Sinto-me atraída pela área do ensino. Quero continuar a tornar a fotografia acessível e a fazer com que as artes criativas tenham sucesso. Uma das coisas que quero mesmo fazer é desenvolver um curso de fotografia, ou um módulo ou algo do género, lá na Serra Leoa, que é o meu país de origem. Quero continuar a mostrar a importância destes trabalhos criativos, conseguir mostrar aos pais africanos que os filhos podem seguir estas carreiras e ter sucesso”, explica.

 

Shaw afirma que o autorretrato é uma oportunidade para se reinventar e explorar uma nova faceta sua. É um espaço lúdico, para a criatividade, para se ver de uma nova perspetiva (Ejatu Shaw)

Shaw afirma que há pais africanos que hesitam na hora de apoiar uma carreira dos filhos no ramo das artes, porque “não se consegue dar-lhes um exemplo de alguém da sua comunidade que tenha seguido esse caminho”. Contudo, à medida que o seu percurso continua a ganhar escala no mundo da arte, Shaw está a tornar-se ela própria o exemplo que nunca teve. E, ao contrário da experiência que teve de entrar na área “às cegas”, os aspirantes a fotógrafos podem agora recorrer aos tutoriais que Shaw publica nas redes sociais, onde explica a sua técnica quadro a quadro.