Cardeal D. António Marto preside a Festa do Senhor Santo Cristo dos Milagres que decorre em Ponta Delgada, ilha de São Miguel
Foto EPA/Lusa, Senhor Santo Cristo dos Milagres
Ponta Delgada, São Miguel, Açores, 09 mai 2026 (Ecclesia) – O cardeal D. António Marto convidou hoje, no Sermão da Mudança, que decorreu no Santuário do Senhor Santo Cristo, nos Açores, a encontrar na pessoa de “Jesus flagelado, ferido, desfigurado”, “o ódio e a violência humana”.
“Aquele rosto desfigurado não está longe de nós: vemo-lo no rosto das crianças de Gaza, da Ucrânia, do Sudão… que procuram um pedaço de pão entre as ruínas ou entre o lixo; no rosto das mães ou esposas que olham à janela na esperança de um regresso; no rosto das famílias que perderam um filho e cuja fé sofre mas é indestrutível; no rosto dos jovens que resistem às seduções das drogas, do dinheiro fácil e do consumismo ajudando outros a libertarem-se; no rosto dos doentes que santificam a dor com a fortaleza e a paciência da fé; no rosto dos presos à espera de um perdão e de recuperação; no rosto dos migrantes que atravessam mares e perigos à busca de condições melhores de uma vida digna”, afirmou o bispo emérito de Leiria – Fátima, que preside às celebrações do Senhor Santo Cristo, em Ponta Delgada.
“Quando contemplamos Cristo flagelado e ferido, não estamos perante uma recordação sentimental do passado, mas vemo-Lo refletido hoje nos que sofrem, na pobreza, na doença, nos lugares de conflitos e guerras”, acentuou.
O Sermão da Mudança é um dos pontos altos das celebrações que acompanha a procissão da mudança da imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres, a Missa e procissão solenes.
D. António Marto reconheceu que ao olhar a imagem do ‘Ecce Homo’, cada pessoa é confrontada com o “sofrimento do mundo”, com o seu sofrimento e o sofrimento do seu irmão, mas também com “o que o homem é capaz”.
Foto EPA/Lusa, Senhor Santo Cristo dos Milagres
“Sem a misericórdia ficamos caídos no chão. Eis o vosso Deus! É um convite a voltar o olhar para Ele com confiança e esperança. Jesus flagelado olha para cada um de nós com compaixão e diz com infinita doçura e firmeza a cada um a palavra dirigida a uma comunidade dos primeiros cristãos, sujeita à violência e ao desprezo: “Eu te amei” eu te amo na tua pequenez e na tua pobreza; na tua pouca força e no teu pouco poder, nos teus passos incertos, nas tuas dúvidas, nas tuas quedas e feridas; mesmo quando não sabes mais pronunciar o meu nome. Mesmo se não contas nada para os poderosos, contas muito para mim. Porque para mim não és um número de estatística, um anónimo no meio da multidão. Para mim és sempre um rosto, um nome próprio, uma vida, uma história, um filho amado ou filha amada desde sempre e para sempre”, indica.
O responsável convidou os fieis a “contemplar com verdade, as violências escondidas, as durezas, os medos”, a que cada pessoa se deixe curar e a “ser misericordioso”.
“Quem foi tocado por este amor não pode viver mais de qualquer jeito. Não se pode sair da presença do Ecce Homo continuando a ferir, a desprezar, a humilhar”, reconheceu.
“Quando sairmos daqui, talvez tudo continue igual, exteriormente. Mas algo deverá mudar dentro de cada um de nós. Ele nos conceda um coração compassivo diante do sofrimento; um coração humilde diante do nosso pecado; um coração decidido à conversão, à transformação do coração; um coração firme na esperança, que não desilude e dá coragem para um futuro melhor do nosso mundo”, finalizou.
A Festa do Senhor Santo Cristo dos Milagres é a maior festa religiosa dos Açores, onde participam milhares de pessoas, incluindo locais, turistas e emigrantes, que se juntam no Campo de São Francisco; é organizada pela Irmandade do Senhor Santo Cristo, que celebrou 260 anos no dia 21 de abril de 2025, e pelo Santuário do Senhor Santo Cristo.
LS
Açores: Tríduo das festas do Senhor Santo Cristo dos Milagre começou com convite à mudança pessoal