Na geração condicionada pela velocidade, estar cansado faz quase parte da rotina de muitas pessoas. Entre trabalhos e telas de celular, a mente e o corpo se confundem nessa tal fadiga que nunca cessa. No entanto, essa fraqueza e, em tantos casos, uma certa indisposição, acabam mascarando doenças e condições que exigem atenção. Um desses exemplos é a anemia, que apesar de ser um quadro conhecido, não pode jamais ser normalizado.
Frequentemente reduzida a uma simples deficiência nutricional, o diagnóstico para anemia sempre indica uma condição subjacente que exige investigação. Por trás do cansaço crônico podem estar escondidas doenças autoimunes, problemas genéticos e até patologias graves. Embora a fadiga seja o sintoma mais conhecido, o quadro clínico pode ser sutil e envolver sinais que a população raramente associa à falta de glóbulos vermelhos.
Segundo Erickson Blun, clínico geral e diretor médico científico da Anadem, a investigação deve ir além do cansaço clássico. “Sinais menos evidentes podem indicar o problema, como falta de ar em esforços leves, palpitações, tontura ao levantar e dor de cabeça constante. Também entram alterações de humor, dificuldade de concentração e até a vontade incomum de comer gelo”, explica Blun.
De acordo com ele, a anemia deixa de ser apenas nutricional quando não melhora com reposição de ferro, reaparece com frequência ou surge em homens adultos e mulheres após a menopausa. Nesses casos, cresce a suspeita de causas ocultas. “Entre elas, sangramentos digestivos silenciosos, doenças inflamatórias intestinais e má absorção, como na doença celíaca. A persistência do quadro exige investigação mais ampla.”
Prevalência global
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 30% da população global sofre com anemia. Esse percentual equivale a quase 2 bilhões de pessoas.
Números nacionais
No Brasil, cerca de 29,4% das mulheres apresentam o quadro de anemia, enquanto crianças menores de 5 anos têm índices menores, de 20,9%. Esses são os dois públicos com maior diagnóstico, conforme Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS), realizada em 2022 pelo Ministério da Saúde.
Causas
Andresa Melo, hematologista do Hospital Brasília Águas Claras, da Rede Américas, explica que a anemia pode ocorrer por causa de carência de vitaminas, alterações hormonais, processos inflamatórios, doenças autoimunes, hemólise (destruição mais rápida que o normal dos glóbulos vermelhos), doença renal e até câncer. “Diante de um quadro de anemia, a pessoa deve procurar avaliação de um especialista”, detalha.
Riscos e consequências
Na avaliação de Andresa, em casos extremos, quando o organismo apresenta descompensação clínica, como queda severa de pressão ou taquicardia, a transfusão de sangue torna-se a única via de urgência para garantir a sobrevivência do paciente.
Identificação
O diagnóstico de anemia baseia-se, sobretudo, no hemograma, exame que analisa a concentração de glóbulos vermelhos no sangue. O principal critério para a confirmação da condição é a queda nos níveis de hemoglobina e hematócrito
Alimentação e dieta
A nutricionista Maria Clara Nogueira afirma que o tratamento nutricional mais eficaz envolve um conjunto de ações, como aumentar a ingestão de alimentos ricos em ferro, melhorar as combinações alimentares para favorecer a absorção (principalmente associando com vitamina C) e ajustar hábitos que possam prejudicar esse processo.
Palavra do especialista
Se as pílulas de ferro falham, quais são os critérios médicos para indicar a reposição de ferro venoso e quais os benefícios dessa rapidez no tratamento?
O tratamento oral falha quando a perda de ferro (em geral por sangramentos) é maior do que a capacidade do indivíduo de absorvê-lo, quando há alguma condição disabsortiva (que compromete a absorção do ferro no trato digestivo), intolerância ao ferro oral devido a efeitos colaterais, especialmente gastrintestinais, ou necessidade de correção rápida da anemia — em programação de cirurgias, por exemplo. Nesses casos, está indicada a ferroterapia endovenosa, que corrige mais rapidamente a anemia e, com isso, melhora a qualidade de vida dos pacientes, pois resolve os sintomas do quadro. Além disso, pode ser útil para preparar o paciente mais rapidamente para uma cirurgia.
Até que ponto a anemia pode ser uma herança genética e como o acompanhamento especializado muda a qualidade de vida desses pacientes?
Existem condições hereditárias que acarretam anemia. As mais comuns são as hemoglobinopatias, sendo as mais conhecidas a doença falciforme e a talassemia. Tais condições em geral são descobertas na infância em situações de descompensação da criança (infecções, cansaço excessivo, etc,) e devem ser avaliadas e acompanhadas por um especialista por toda a vida. O acompanhamento adequado pode reduzir ou até mesmo evitar danos e complicações graves relacionadas a essas doenças.
Andresa Melo é hematologista do Hospital Brasília Águas Claras, da Rede Américas
Jornalista formado pela Universidade Paulista, estou no Correio Braziliense há dois anos. Antes, na Editoria de Cidades, agora, como Repórter da Revista do Correio.