Já tinha ouvido várias colegas e amigas, como Soraia Chaves ou Inês Castel-Branco, falar da experiência de narrar os Podcasts Plus do Observador — a primeira deu voz a Um Rei na Boca do Inferno, a segunda a A Caça ao Estripador de Lisboa. “Exigente”, “diferente” e “empolgante” foram alguns dos adjetivos usados com frequência. Joana Santos estava curiosa, no mínimo, e por isso nem vacilou quando recebeu o convite para ser a narradora de mais um projeto. Quando lhe apresentaram o tema, abrandou, mas não travou. “Pensei: ‘Ui, é delicado’. Fiz rewind até àquela altura, tinha mais ou menos a idade do Renato, portanto, o que é que leva alguém a fazer algo assim?”
O tal rewind faz-se até 7 de janeiro de 2011, dia em que o cronista social português Carlos Castro foi assassinado por um jovem aspirante a modelo, Renato Seabra, num quarto de hotel em Nova Iorque, EUA. Os Ficheiros do Caso Carlos Castro, o mais recente Podcast Plus do Observador — com banda sonora de Júlio Resende —, desvenda os bastidores da investigação que ajudou a polícia norte-americana a resolver o homicídio.
Joana Santos não é fã de true crime, é até “um poouco medricas”, confessa, porque os detalhes de crimes deste género ficam a atormentá-la demasiado tempo. Com a responsabilidade de contar uma história com contornos tão violentos — por vezes até sinistros —, começou por colocar a voz num tom mais grave para acompanhar os desenvolvimentos. Porém, não estava a funcionar, e foi preciso dar leveza à narradora. A história já é tão pesada que percebemos que um tom mais leve resultaria melhor, para contrabalançar com os contornos da narrativa”, explica ao Observador.
Não só funcionou como Joana tem conseguido desligar-se da própria voz. “Tenho estado a ouvir no carro e esqueço-me de que sou eu. A sonoplastia também é muito importante porque transporta e, neste caso, arrepia.”
[o trailer de “Os Ficheiros do Caso Carlos Castro”:]
Joana Filipa Rodrigues dos Santos nasceu em Lisboa a 16 de novembro de 1985. Cresceu em Loures na “quase aldeia” Apelação. Teve uma infância livre e feliz, na rua, claro, como qualquer filho dos anos 80. “Deixava a mochila em casa, agarrava um pão de leite e ia para a rua ter com os meus amigos.”
Quando o irmão nasceu, Joana tinha dez anos e, apesar de ele não ter sido companheiro de brincadeiras, passou a ser um boneco nas mãos dela. “Tentava fazer-lhe penteados de que ele não gostava nada.” Estudou na Portela e lembra que, entre os 11 e os 15 anos, andou à procura de um estilo que não conseguia encontrar por nada. “Houve uma altura em que andava sempre toda de preto e depois comecei a usar roupas largas. E depois, de repente, fui beta.”
Certo dia, enquanto estava no metro com uma amiga, foi abordada por dois jovens que lhe sugeriram ser modelo porque era muito alta. Tinha 12 anos e a mãe disse “nem pensar”. Um ano mais tarde, voltou a ser abordada na rua e acabou por fazer um book e, aos 14, convenceu a mãe a deixá-la participar no Elite Model Look. Não ganhou, mas não se importou minimamente com isso. “A moda, para mim, foi sinónimo de ter o meu dinheiro. Quando recebi o primeiro salário, fui comprar gelados com as minhas amigas. O facto de poder pagar gelados às minhas amigas todas deixou-me mesmo feliz.”
Fez editoriais de roupa para revistas juvenis, como a Super Pop ou a Ragazza, mas nessa fase Joana ainda estava longe de perceber qual a sua vocação. No 10.º ano, foi parar ao agrupamento de Economia. “Eu queria ir para Artes e lembro-me de a minha diretora de turma dizer que Artes não tinha saída nenhuma. Portanto, por exclusão de partes, vi-me no terceiro agrupamento com Matemática e Economia. Espalhei-me ao comprido.”