Investigadores analisaram dados de 4600 escolas e concluíram que banir os telemóveis tem efeitos reais, mas não os que muitos esperavam.
Proibir telemóveis nas escolas tornou-se uma tendência global. Pelo menos 37 estados norte-americanos e o Distrito de Columbia já obrigam as escolas a restringir ou proibir o uso de dispositivos móveis durante o dia letivo.
Em Portugal, o debate avançou para o terreno legislativo, em setembro de 2024, quando o Ministério da Educação, Ciência e Inovação emitiu orientações a recomendar a proibição de smartphones nos 1.º e 2.º ciclos do Ensino Básico e a adoção de medidas restritivas no 3.º ciclo e no Ensino Secundário.
O Presidente da República promulgou o diploma que proíbe o uso de telemóveis até ao 6.º ano, aprovado em Conselho de Ministros a 3 de julho de 2025, com entrada em vigor no ano letivo 2025/2026.
Perante as proibições, importa perceber se elas funcionam. Por isso, um novo estudo, o maior alguma vez realizado sobre o tema, tenta dar uma resposta baseada em dados concretos, e os resultados são mais complexos do que se esperava.
O estudo mais abrangente até hoje sobre proibições do telemóvel nas escolas
Publicado pelo National Bureau of Economic Research, o estudo foi conduzido por investigadores das universidades de Stanford, Duke, Michigan e Pennsylvania.
Para chegarem às suas conclusões, os académicos compilaram dados da Yondr, uma startup da Califórnia que fabrica bolsas com fecho que bloqueiam o acesso ao telemóvel durante o período escolar.
Ao contrário das políticas de “telemóvel na mochila”, em que a fiscalização é inconsistente, as bolsas da Yondr oferecem um registo objetivo e verificável do uso real dos dispositivos.
Alunos seguram bolsas Yondr que bloqueiam os seus smartphones e impedem a sua utilização na University High School Charter, em Los Angeles, em março de 2025. Crédito: Genaro Molina/Los Angeles Times/arquivo Getty Images, via NBC
No total, foram analisados dados de cerca de 4600 escolas, tornando este o primeiro estudo nacionalmente representativo sobre o impacto das proibições de telemóveis.
As proibições do telemóvel reduzem mesmo o uso, de forma drástica
Um dos resultados mais claros do estudo é que as proibições funcionam no objetivo imediato, que é reduzir o uso do telemóvel.
A percentagem de alunos que usavam o dispositivo em aula para fins pessoais caiu de 61% para apenas 13%. Os dados de GPS reforçam esta tendência, registando uma queda de cerca de 30% nos “pings” de dispositivos durante o horário escolar ao fim de três anos. É um efeito “grande e persistente”, nas palavras dos próprios investigadores.
Disciplina e bem-estar: piora antes de melhorar
Os primeiros resultados em termos de comportamento são, no entanto, menos animadores. No primeiro ano após a adoção das bolsas, as escolas registaram um aumento de cerca de 16% nas taxas de suspensão, tanto suspensões internas como externas.
Os investigadores acreditam que este aumento reflete o facto de as escolas terem levado a sério a fiscalização, o que motivou alguns alunos a canalizarem a sua inquietação para outros comportamentos disruptivos.
O bem-estar subjetivo dos alunos também sofreu uma queda no primeiro ano. Contudo, ambas as tendências se inverteram com o tempo: as suspensões regressaram aos níveis anteriores à proibição e o bem-estar tornou-se positivo a partir do segundo ano.
Dentro de três anos, o bem-estar dos alunos está acima do que estava no início.
Afirmou Thomas Dee, economista de Stanford e colíder do estudo.
O desempenho académico ficou aquém das expectativas
É aqui que os resultados são mais “sóbrios”, nas palavras de Dee. Os efeitos nos resultados dos testes-padrão foram “consistentemente próximos de zero” ao longo dos primeiros três anos, independentemente da disciplina avaliada.
A assiduidade também não melhorou de forma mensurável, tal como a atenção autorreportada em sala de aula e os níveis de bullying online.
Para muitos defensores das proibições, como o psicólogo Jonathan Haidt, autor de The Anxious Generation, estes são os indicadores que mais importavam, e os números ainda não os confirmam.
Entretanto, há uma exceção curiosa. As escolas das coortes mais recentes, que adotaram as proibições em 2023 e 2024, já mostram alguma melhoria nas notas num período de tempo mais curto.
O investigador Dee teoriza que a mudança no contexto social em torno das proibições pode estar a ter impacto. Ou seja, os alunos de hoje tendem a ver estas medidas como algo pensado para os ajudar, e não como uma restrição punitiva.
A mensagem dos investigadores é de paciência e persistência
A conclusão do estudo não é a de que as proibições não funcionam, mas que os seus efeitos precisam de tempo para se materializarem.
Acredito firmemente que reduzir o uso do telemóvel pelos alunos e recuperar a sua atenção nas salas de aula é um antecedente crítico para concretizar o seu potencial académico.
Afirmou Dee, apelando a que não se ceda ao “modismo habitual da reforma educativa”.
Os dados sugerem que é necessário dar pelo menos dois a três anos para que os efeitos mais profundos comecem a surgir.
Para pais, professores e decisores políticos, importa saber que banir o telemóvel na escola é apenas o primeiro passo. O verdadeiro desafio está em construir, a partir daí, uma cultura de aprendizagem que tire partido da atenção recuperada, e isso não acontece de um dia para o outro.




