Usando colagem, pintura e técnica mista, artista transforma ‘rabiscos’ de crianças em quadros carregados de memória, afeto e identidade.

Artista paulista transforma desenhos infantis em obras de arte
Foto: Arquivo pessoal
A artista visual paulista Juliana Nascimento, conhecida como Juna, encontrou nos desenhos da filha Laura, de 4 anos, uma oportunidade para transformar memórias e aprendizados em obras de arte. Ela, que já vinha de uma jornada de autoconhecimento, maternidade e diálogo com a fotografia, percebeu que os rabiscos da pequena poderiam ser eternizados.
“Recebia os desenhos da minha filha e não sabia o que fazer com eles. Eu os adorava, mas, assim como todas as famílias, acabava guardando dentro do armário. Pensei: ‘Nossa, eu podia fazer alguma coisa com isso’. Peguei os desenhos dela e coloquei em um quadro vazio”, conta.
Aos poucos, aquele quadro foi se transformando. Primeiro, Juna começou com uma colagem, até dar origem a uma verdadeira obra de arte com os desenhos de Laura. Para ela, se aquela ideia tinha funcionado dentro de sua família, outros pais e mães também poderiam se interessar.
“Todos têm a mesma dor, de não querer jogar fora, de se sentir culpado. Não faz nenhum sentido jogar fora. Comecei a estudar sobre desenhos na infância e aí foi uma virada de chave. Passei a me aventurar com artes de desenhos infantis, dentro da técnica mista. Fui me especializando, experimentando e evoluindo a linguagem”, explica.
Formada em Administração, a artista atuou por quase 14 anos no mercado corporativo quando decidiu embarcar uma jornada de autoconhecimento. Na época, ela já era mãe e estava terminando um relacionamento de 13 anos.
“Fiquei um pouco sem chão e isso fez com que eu me reinventasse e escutasse quem realmente era a Juliana e o que fazia sentido para ela. Nessa jornada, junto com a maternidade, fui me aproximando mais da arte. Eu sempre gostei muito da fotografia e, a partir daí, acabei migrando para o desenho”, acrescenta.
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Juna é artista visual e mãe de Laura, de 4 anos
Foto: Arquivo pessoal
Infância eternizada nos rabiscos
Juna afirma que foi criando diferentes linguagens de acordo com o desenvolvimento da criança. A técnica mista citada por ela consiste em combinar colagem, pintura e intervenção pictórica. Estudando mais sobre a importância dos desenhos na infância, ela percebeu que eles são a base da linguagem que a criança tem.
“É a forma que a criança pensa e como ela se organiza. Ela transborda no desenho, que é a voz daquela criança no início, quando ela ainda não consegue falar. Os rabiscos são onde ela mostra como enxerga o mundo e as experiências que está desenvolvendo. A criança costuma dar desenhos de presente, com recadinhos ou objetos de sua vivência”, diz.
O amor pelo traço infantil virou obra de arte eternizada não somente nas paredes de Juna, mas de outras famílias. Ela passou a ser procurada por mães e pais com o desejo de eternizar a infância de seus filhos. Os pedidos começaram com a indicação de outros pais e, hoje, toda a comunicação do trabalho é feito via Instagram.
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Juna usa técnica mista para transformar desenhos em obras
Foto: Arquivo pessoal
O sucesso das obras de Juna foi tanto que ela foi convidada para participar do Salão Anual de Arte de Paraty, que ocorreu durante o mês de março e abril, na Galeria Platô. A artista apresentou 12 obras inéditas de paisagens no evento.
“O meu trabalho vem para honrar e para valorizar essa infância. Eu faço as obras físicas, mas também digitalizo quando as finalizo. Acho que é o mais bonito desse trabalho é o impacto que ele gera porque, se feito no início da infância, a criança sente orgulho, confiança e se apropria da própria obra”.
Para Juna, o seu trabalho artístico vai muito além da valorização dos desenhos, mas permeia como uma herança afetiva que poderá ser vista pela próprai criança depois de muitos anos.
Por isso, o trabalho vai ter diferentes significados na vida daquele indivíduo ao longo dos anos. Cada obra carrega uma carta no verso escrita pela artista pelo próprio punho. Ela explica que, de imediato, a criança não entenderá o recado, apenas quando for adulto.
“Quando eles forem adultos, a relação com a obra será totalmente diferente. É uma relação nostálgica, de um tempo que já passou. Imagina essa criança com 30, 40, 50 anos, podendo compartilhar com seus próprios filhos e netos o que fazia parte do seu universo lúdico. Esse patrimônio afetivo é muito especial, então, podemos chamar de herança afetiva”, finaliza.