A empresa familiar Passport Photo Service era conhecida pelo seu serviço rápido e pelas paredes repletas de fotografias dos seus clientes famosos, até fechar em 2019. Agora, alguns desses retratos estão reunidos num livro
Durante mais de seis décadas, foi um ponto de encontro secreto de celebridades – uma pequena loja na Oxford Street, em Londres, que não oferecia artigos de luxo, apenas um conjunto de retratos do tamanho de uma caixa de fósforos, impressos em dez minutos ou menos.
A empresa familiar Passport Photo Service era conhecida pelo seu serviço rápido e pelas paredes repletas de fotografias dos seus clientes famosos, até fechar em 2019. Fundada por um pugilista profissional que se tornou fotógrafo, Dave Sharkey, e transmitida ao seu filho, Philip, a família Sharkey e o seu pessoal tiravam fotografias para passaportes, vistos e cartas verdes.
Mas graças à boa localização do seu estúdio, perto de um conjunto de embaixadas, ao serviço rápido e à disponibilidade para fazer visitas ao domicílio, cerca de 800 celebridades sentaram-se em frente às suas câmaras, incluindo Muhammad Ali, Madonna, Chaka Khan, Bill Murray, Stella McCartney, Katy Perry, Arnold Schwarzenegger e Tilda Swinton.
Até agora, o seu arquivo nunca tinha sido visto, exceto por aqueles que entravam na loja. Mas depois de ter fechado, em parte devido à mudança da embaixada dos EUA, entre outros fatores, Philip Sharkey voltou a uma ideia que os seus amigos e familiares lhe tinham sugerido muitas vezes: devia fazer um livro.

Um dos quadros com celebridades que os Sharkey montaram e exibiram ao longo dos anos (Foto: Philip Sharkey via CNN)
“Passport Photo Service“, publicado pela Phaidon, apresenta mais de 300 retratos de celebridades desde os anos 50 até aos anos 2010. Sharkey explicou por telefone à CNN que, apesar de saber que a sua famosa clientela é o principal atrativo da obra, este é também um livro que recorda uma parte de Londres que mudou rapidamente, uma vez que o desenvolvimento da Oxford Street, a artéria mais movimentada da cidade para compras de luxo, deixou pouco espaço para as pequenas empresas.
“É uma Londres que está a desaparecer”, conta Sharkey numa chamada telefónica. “Quando se podia abrir um pequeno negócio ao cimo das escadas e ter um pequeno escritório de 500 metros quadrados. Já não é assim em Oxford Street, nem em lado nenhum”.

Bianca Jagger (à esquerda) e Mick Jagger (à direita) fotografados em 1976 pela Passport Photo Service em Londres. Um novo livro partilha o arquivo inédito de retratos de celebridades da empresa (Fotografia da Passport Photo Service, publicado pela Phaidon Press)
Durante muito tempo, os seus vizinhos foram uma agência de viagens, uma agência de modelos e escola de formação para raparigas, e um vidente, recorda. O seu próprio estúdio tinha sido a antiga oficina do designer têxtil William Morris. Nos últimos cinco anos do negócio, mudaram-se para as traseiras do edifício, virado para North Row, quando este foi comprado por um promotor; esse espaço é atualmente uma barbearia.
Mas nos primeiros tempos, o Passport Photo Service era identificável na rua pelo slogan “Pronto em 10 minutos” nas montras, assim como pelos funcionários que carregavam cartazes publicitários pelas ruas.
Sharkey começou a trabalhar na empresa aos 16 anos de idade. A sua mãe trabalhava como rececionista e administradora e o tio juntou-se ao seu pai como fotógrafo. Inicialmente, utilizavam negativos em rolo revelados na câmara escura, passando depois para um processador automático Kodak Veribrom que revelava impressões a preto e branco em apenas cinco minutos. Na década de 1990, incorporaram o digital no processo para que os clientes pudessem ver as suas fotografias. Também tinham iluminação de estúdio, que permitia fazer uma fotografia lisonjeira, explica Sharkey.
Na sua opinião a fotografia tipo passaporte era “o grande equalizador”, uma vez que quase toda a gente precisa de ter um passaporte para poder viajar. E apesar de os atores e artistas fotogénicos que chegavam terem menos probabilidades de tirar uma má fotografia, não deixa de ser uma imagem mais simples e despojada.
“A maior parte deles não trazia maquilhador ou relações públicas, porque tinha acabado de ir à embaixada”, conta Sharkey, recordando uma vez em que o ator Donald Sutherland apareceu ali apressado. “Tinha ido à Embaixada do Canadá, não tinha passaporte e precisava de renová-lo. Nem sequer teve tempo de despir o casaco. Apenas levantou o colarinho”.
Uma das excepções foi Kate Winslet, que no final dos anos 90 foi ali acompanhada por uma pequena equipa durante as filmagens de “Hideous Kinky”, cujo argumento exigia que a sua personagem mostrasse o passaporte no filme. O retrato foi tirado apenas alguns meses antes do lançamento de “Titanic”, que a tornou uma estrela mundial.

Kate Winslet fotografada em 1997 para o passaporte da sua personagem no filme “Hideous Kinky”, apenas dois meses antes do lançamento de “Titanic”, que mudou o rumo da sua carreira (Fotografia de Passport Photo Service, publicada pela Phaidon Press)
As celebridades também gostavam de ver a parede da fama da loja, conta Sharkey, lembrando a vez em que Angelina Jolie entrou durante uma tarde tranquila e apontou para todas as pessoas com quem tinha trabalhado. Um outro ator, que ele não quis identificar, regressou à loja pouco depois Sharkey ter mudado o seu retrato de lugar, o que resultou numa situação embaraçosa. Algumas estrelas utilizaram os seus serviços várias vezes ao longo dos anos: os actores Joan Collins em 1971, 1979 e 1988; Sean Connery em 1977 e 1989; Ava Gardner em 1976 e 1987; e o artista David Hockney em 1965 e 1970.

Sean Connery tirou ali a fotografia para o passaporte duas vezes, uma em 1977 e outra em 1989 (Da obra “Passport Photo Service”, publicada pela Phaidon Press)

Joan Collins era cliente assídua, e Sharkey recorda a publicidade que gerou ao aparecer pela terceira vez no auge da sua fama durante a série “Dinastia” (Do livro “Passport Photo Service”, publicado pela Phaidon Press)
As suas visitas ao domicílio também são memoráveis – por exemplo, foi à antiga casa de Madonna e Guy Ritchie para tirar os seus retratos “depois de terem posto os miúdos na cama”, e foi a estúdios de gravação para fotografar Sting, George Michael ou Eric Clapton.

Tilda Swinton apareceu para tirar a fotografia para o passaporte em 2013. Sharkey recorda que teve de lhes confiar os seus aparelhos eletrónicos, incluindo o telemóvel, pois não era permitido entrar com eles na embaixada onde tinha agendado uma marcação (Foto do Serviço de Fotografia para Passaportes, publicado pela Phaidon Press)
Nem todas as celebridades fotografadas foram selecionadas para o livro “Passport Photo Service”, e alguns desses retratos permanecem no cofre. Sharkey diz que teve de assinar acordos de confidencialidade algumas vezes ao longo do negócio e por isso as suas identidades serão mantidas em segredo. “Um deles é tão chato que eu não o teria posto de qualquer maneira”, diz, entre gargalhadas.