É o regresso a um lugar onde já se tinham encontrado, em 2001, mas desta feita com uma inversão de papéis. Primeiro, foi o pai, Gérard Castello-Lopes (1925-2011), a mostrar dezenas de fotografias que tirou ao filho, David, quando este celebrava 20 anos, numa exposição no Arquivo Fotográfico, em Lisboa (o tal lugar); agora é o filho a olhar para o legado do pai através de uma retrospectiva em modo “best of pessoal”, na qual também escreve comoventes, íntimos e reveladores apontamentos não apenas sobre as imagens de Gérard, como também sobre muitas das alegrias e algumas das encruzilhadas que marcaram a sua vida. Escolhemos 13 desses dípticos multiplicadores de sentido, que nos dão novas perspectivas de leitura da obra de um dos mais relevantes fotógrafos portugueses de sempre. S.B.G.

Paris, 1999





Sou eu em segundo plano, com a minha T-shirt Nike Air. Esta fotografia foi uma ideia minha: um retrato duplicado por um auto-retrato no espelho do armário de casa de banho do nosso apartamento. Tirei uma fotografia segundo esse princípio e o meu pai disse: “Sim, boa ideia, vou fazer o mesmo.” E fez. Melhor. E isso irritou-me.

Lisboa, 1957





O meu pai dizia sempre que as pessoas realmente pobres e as pessoas realmente ricas aceitam facilmente ser fotografadas de passagem. Quem realmente não gosta são os pequenos burgueses. E isso vê-se. Há armas de fogo nos olhos desta senhora.

Chambord, 1984





É sempre uma alegria ver, no mundo que nos rodeia, formas elementares. A curva de uma torre, o triângulo de um pedaço de relvado, o rectângulo de um tanque. Deve haver algo que nos reconduz à simplicidade dos jogos educativos da primeira infância, em que é preciso encaixar os círculos nos círculos e os quadrados nos quadrados. E como não gostar destas duas personagens minúsculas, que dão a escala monumental da paisagem que as rodeia.

Cascais, 1987





O meu pai disse muitas vezes que, na sua segunda fase fotográfica (a partir de 1982), se tinha dedicado a “revelar o paradoxo das aparências”, paradoxo que considerava particularmente evidente nesta fotografia. Nunca compreendi verdadeiramente o que queria dizer com isso. Em contrapartida, muitas imagens da sua segunda fase — em particular esta — revelam, a meu ver, o paradoxo da fotografia: tirando partido do carácter mecânico do registo da luz, que confere às imagens um selo de verdade, a fotografia tem, na realidade, o poder de trair subtilmente a confiança que inspira. O objecto desta fotografia é uma realidade objectiva: um rochedo que emerge do mar. A impressão que transmite é uma mentira: três mil toneladas de pedra que parecem voar sobre a água.

Óbidos, 1957





O sol abrasador português de meio da tarde. Está demasiado calor para sair. Por isso, ficamos em casa, atrás das paredes espessas de casas com 200 anos. Parece uma cena de western. Alguém está prestes a morrer sob o sol. Voltei lá em 2021.

Roma, 1958





Nos anos 1950 e 60, a Itália era um dos principais produtores de cinema do mundo. O meu pai, que era distribuidor de filmes, deslocava-se frequentemente para lá em trabalho. Dos quatro padres, um está prestes a repreender o meu pai, outro esconde o rosto. Os dois únicos que parecem serenos ainda não viram que o meu pai os está a fotografar.

Figueira do Guincho, 1988





Era na nossa casa de campo, a 40 quilómetros a noroeste de Lisboa. Havia um pequeno pátio, coberto por uma espécie de tapete feito de canas de bambu, que servia de tecto. Essas canas não eram regulares e deixavam, por isso, passar a luz do sol. O meu pai disse-me: “Não te mexas” e foi buscar a máquina fotográfica para imortalizar esse bumerangue de sol na minha nuca. Eu tinha seis anos e meio.

Paris, anos 1950





O meu pai só expôs esta fotografia muito mais tarde, porque via nela um artifício fácil de composição. Isso não é totalmente falso. Mas, ainda assim, que equilíbrio! E que prazer ver estas pessoas reduzidas a pequenos berlindes pousados na relva.

Bruxelas, 1958





Demorei a perceber o que me agradava nesta fotografia. Mas acabei por encontrar a resposta: é que este casal de meia-idade típico da pequena burguesia parece ser o oposto do Atomium, ultramoderno e futurista, sendo ao mesmo tempo quase tão geométrico quanto ele — a senhora é um rectângulo, o homem um triângulo, ambos com uma esfera no topo.

Lisboa, 1998





Era o ano da Exposição Universal de Lisboa. Barcos turísticos navegavam na bruma. Tudo é belo nesta fotografia. Esta vaga estranha parece colada à superfície da água. O efeito poeticamente cómico deste barco cortado a meio. Como se a fotografia tivesse sido tirada um pouco tarde demais.

Algarve, 1957





Para onde olham? Não sabemos. E, se o soubéssemos, talvez fosse um pouco menos interessante.

Verdun, 2000





A partir dos 17 anos, quis ser fotógrafo, como o meu pai. Houve, portanto, um breve período em que tirámos fotografias juntos. Nesse dia, visitávamos o cemitério de Douaumont, onde estão enterrados muitos dos soldados mortos durante a Batalha de Verdun. Toda a força desta fotografia reside no facto de que — completamente absorvidos pela massa tranquila do tronco cortado e pela pureza dessa silhueta surpreendente, cuja natureza vegetal é apenas evocada por um ramo que se projecta à esquerda — demoramos algum tempo a reparar nas cruzes. A sua multiplicidade surge então discretamente e confere, ao mesmo tempo, ao tronco cortado e à silhueta do arbusto um carácter absurdo e ligeiramente engraçado. A fotografia que eu tirei é muito inferior.