Portugal já é um dos países europeus com maior peso das energias renováveis na produção de eletricidade, cerca de 80% da eletricidade consumida vem de fontes renováveis, como hídrica, solar e eólica. No entanto, isso não significa que o país esteja pouco dependente de combustíveis fósseis. Petróleo e gás continuam a representar mais de 60% do consumo energético total, sobretudo porque continuam a ser essenciais nos transportes, em parte da indústria e nos sistemas de aquecimento.
Segundo Maria da Graça Carvalho, em entrevista ao Politico, o Governo já tinha em preparação metas para reduzir essa dependência, mas a instabilidade causada pela guerra com o Irão acelerou o processo. O conflito aumentou os receios sobre a segurança do abastecimento mundial de petróleo e gás e provocou uma subida dos preços da energia, o que reforçou a ideia de que a dependência de combustíveis fósseis é também um problema estratégico e económico, e não apenas ambiental. A ministra resumiu essa mudança dizendo que “o Irão deu urgência” ao plano.
O executivo deverá apresentar nas próximas semanas um pacote de medidas concretas para atingir essa meta. A estratégia portuguesa distingue-se parcialmente da abordagem da Comissão Europeia, que está a preparar objetivos europeus centrados sobretudo na eletrificação da economia. Lisboa concorda com essa aposta, mas considera que ela não chega para descarbonizar setores mais difíceis, como certos segmentos industriais, o transporte pesado ou a aviação.
Por isso, Portugal quer investir fortemente em “moléculas renováveis”, isto é, combustíveis produzidos a partir de fontes limpas, incluindo hidrogénio verde, biometano, biodiesel e combustíveis sustentáveis para a aviação. A ideia do Governo é combinar a eletrificação com estas alternativas para reduzir de forma mais abrangente o consumo de petróleo e gás.
Maria da Graça Carvalho argumenta ainda que a atual crise tornou esta meta politicamente mais fácil de explicar e aceitar pela população, porque a redução da dependência energética passou a ser vista não apenas como uma questão climática, mas também como uma forma de proteger o país das consequências de conflitos internacionais e da volatilidade dos preços da energia.
Além disso, o Governo português vai avançar com uma taxa extraordinária sobre os lucros excessivos das empresas energéticas que beneficiaram da subida dos preços provocada pela crise no Médio Oriente. Portugal tinha defendido, juntamente com outros países, que a União Europeia criasse uma taxa semelhante a nível europeu, mas Bruxelas deixou a decisão nas mãos de cada Estado-membro. Ainda assim, Lisboa continua a considerar que uma solução europeia seria preferível para evitar desigualdades entre os mercados nacionais e garantir condições equivalentes dentro do mercado interno europeu.
Na Europa, poucos países têm metas explícitas para reduzir diretamente o uso de petróleo e gás. A maioria concentra-se em aumentar a produção de energia renovável e eliminar o carvão. França foi um dos poucos países a anunciar recentemente um objetivo semelhante, propondo reduzir para metade o peso dos combustíveis fósseis no consumo energético até 2035.
___
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.