A economista da inovação Francesca Bria defende que a Europa precisa de recuperar soberania digital para proteger a democracia, reduzir a dependência tecnológica dos Estados Unidos e travar o poder crescente dos gigantes tecnológicos. Em entrevista à Lusa, a conselheira da ONU e da União Europeia alerta também para os riscos das armas de inteligência artificial sem controlo internacional e para aquilo que considera ser um ataque ao jornalismo democrático.

Professora da UCL e uma das oradoras do congresso da APDC, em Lisboa, Francesca Bria sustenta que a tecnologia passou a ser uma questão central de poder político, económico e geopolítico. “Se não controla a infraestrutura digital hoje, não pode controlar o seu futuro, não é livre, não é independente e não pode decidir sobre o seu futuro nem proteger a sua democracia”, afirma.

Europa dependente e “oligarquia tecnológica”

A economista considera que a Europa enfrenta um problema estrutural de dependência tecnológica, numa altura em que, diz, cerca de 80% das tecnologias digitais utilizadas no continente são importadas. “Corremos o risco de sermos vulneráveis, de sermos chantageados na atual conjuntura geopolítica”, avisa.

Bria defende que a soberania digital deve ser entendida como parte da soberania política e económica da União Europeia. “A tecnologia é hoje poder”, resume, insistindo na necessidade de investimento europeu em ciência, inovação e indústria tecnológica.

Na entrevista à Lusa, critica também a concentração de poder nas grandes plataformas tecnológicas e acusa os chamados “oligarcas tecnológicos” de influenciarem diretamente a política e os media. “Isto não é uma democracia, isto é uma oligarquia tecnológica”, afirma.

Segundo a economista, empresários como Elon Musk ganharam um poder político sem precedentes e estão a interferir nas democracias europeias através das plataformas digitais.

“Há um ataque à ideia de jornalismo”

A economista considera que os media e o jornalismo estão entre os principais alvos deste novo ecossistema tecnológico e político. “Há uma elevada concentração de poder nos media, os oligarcas da tecnologia estão a controlar os media agora”, afirma.

Para Bria, existe “um ataque aos media democráticos” e à capacidade dos jornalistas de produzirem informação verificada e de investigação. “Há um ataque à ideia de jornalismo numa sociedade democrática”, sustenta.

A professora alerta também para o impacto da inteligência artificial no setor da comunicação social, apontando a proliferação de notícias falsas, conteúdos gerados automaticamente e ‘deepfakes’. “Quem vai pagar aos jornalistas? Esta é uma profissão que está em risco”, afirma.

Outro dos temas centrais das entrevistas foi a utilização militar da inteligência artificial. Bria considera “assustador” o desenvolvimento de sistemas automatizados de guerra sem mecanismos claros de supervisão internacional e defende um debate global sobre o tema.

“Devemos, absolutamente, ter uma conversa de alto nível sobre como isso é controlado e como é implementado”, afirma, defendendo o envolvimento de cientistas, Nações Unidas e instituições internacionais.

“A Europa é o único continente que pode salvar a ordem democrática”, conclui.