Presidente da celebração fala em «orfandade» espiritual, social e afetiva
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Ponta Delgada, Açores, 10 mai 2026 (Ecclesia) – O cardeal D. António Marto propôs hoje a redescoberta de Deus como “remédio” para as guerras, falando na Missa da festa do Senhor Santo Cristo dos Milagres.
“As guerras, tanto as pequenas como as grandes, têm sempre a dimensão da orfandade. Falta o Pai para fazer a paz. E o maior remédio para curar esta orfandade, social a toda, é a redescoberta de Deus como Pai e a nossa redescoberta de nós mesmos como filhos e, por isso, todos irmãos”, disse o bispo emérito de Leiria-Fátima, na igreja de São José.
As condições meteorológicas impossibilitaram a tradicional celebração ao ar livre, no Campo de São Francisco.
A homilia alertou para a crise de solidão e desorientação da sociedade contemporânea.
“Hoje, no nosso mundo, está presente um grande sentimento de orfandade. Orfandade afetiva, orfandade espiritual, orfandade social. Muitos hoje são órfãos, ou sentem-se órfãos, mesmo tendo os pais vivos”, assinalou D. António Marto.
As Festas do Senhor Santo Cristo mobilizam milhares de pessoas até à capital da ilha de São Miguel, entre micaelenses, emigrantes e devotos do resto da região autónoma e do país.
“Meus irmãos, estamos a viver hoje uma certa indiferença religiosa, uma espécie de eclipse de Deus, o esquecimento de Deus e da sua presença na nossa vida”, disse o cardeal português.
“Neste mundo plural e pluralista, hoje já não podemos ser cristãos por mera tradição. Seja tradição familiar, seja tradição cultural ou social. Tem de ser por uma adesão livre e responsável do coração e da mente ao Senhor”, acrescentou.
O bispo emérito de Leiria-Fátima rejeitou uma visão de Jesus como “uma figura de museu” ou “herói” do passado.
“No centro da nossa fé está uma pessoa viva, Jesus Cristo ressuscitado, Deus connosco, com todo o mistério do seu amor infinito, com que se entregou na cruz por nós e nos oferece a nós hoje, concretamente, na celebração da Eucaristia”, indicou.
O presidente da celebração desafiou os fiéis a cultivar atitudes de proximidade e respeito mútuo, transformando o modo de debater ideias num ambiente dominado pela exacerbação.
“As consequências desta orfandade afetiva, espiritual e social são depois aquilo que experimentamos no dia-a-dia: a indiferença, em relação a Deus e em relação aos outros, o vazio interior, o egoísmo, a falta de respeito pela dignidade do outro, a agressividade, que às vezes vai até ao insulto e à violência”, sustentou, numa Eucaristia concelebrada pelo bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, e pelo núncio apostólico em Portugal, D. Andrés Carrascosa Coso, além de dezenas de sacerdotes.
Que a esta civilização que sofre com um grande sentido da orfandade, conceda a graça de voltar a encontrar o Pai, aquele Pai, Deus, que dá sentido a toda a vida e faz com que os homens sejam uma família, todos irmãos e irmãs, próximos, ternos, compassivos, solidários, semeadores de futuro, para construir um mundo melhor, mais fraterno e mais belo.”
No início da celebração, o cónego Manuel Carlos Alves, reitor do Santuário, saudou os participantes, incluindo todos os que acompanharam através dos media, apelando à “construção de um mundo sem guerras”.
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A Missa desta manhã, VI Domingo de Páscoa no calendário litúrgico, é um dos pontos altos da festa do Senhor Santo Cristo, cuja imagem percorreu esta tarde as ruas da cidade de Ponta Delgada, ao longo de várias horas, numa tradição secular na região.
O percurso passou pelos antigos conventos da cidade e algumas igrejas paroquiais, percorrendo ruas cobertas de tapetes de flores, enfrentando alguns momentos de chuva, sob a presidência do núncio apostólico e do bispo de Angra.
A imagem foi oferecida por Paulo III (Papa entre 1534 e 1549) ao primeiro grupo de religiosas Clarissas que quis fundar um convento em São Miguel, tendo-se deslocado a Roma para pedir a respetiva autorização; este ano, estreia a capa número 44, que chegou ao Convento da Esperança no dia 17 de março de 2026, oferecida por Emanuel e Kathy Correia, um casal de emigrantes nos Estados Unidos.
Na tarde de sábado, os peregrinos celebraram a mudança da imagem do Convento da Esperança para o Santuário, no Campo de São Francisco; a procissão começou com o toque do provedor da Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres na ‘porta regral’ do Convento da Esperança, na qual recebeu a Imagem das mãos das irmãs zeladoras, comunidade contemplativa das Irmãs do Bom Pastor.
OC
notícia atualizada às 19h55