
A lei dos grandes números é dura, mas é a lei.
Em abril, o FBI abriu uma investigação formal ao que alguns descrevem como um “padrão perturbador”: uma lista crescente de cientistas, que pode chegar a 12, que morreram ou desapareceram em circunstâncias ditas misteriosas — entre os quais o físico português Nuno Loureiro.
As manchetes dos jornais, entre os quais o ZAP, alimentaram uma onda de especulação sobre um alegado plano coordenado destinado a atingir investigadores com ligações a programas sensíveis dos EUA.
Mas especialistas em estatística e probabilidade afirmam que a explicação mais provável não exige qualquer teoria da conspiração para explicar o desaparecimento de um grupo de cientistas e funcionários de laboratório — apenas uma compreensão básica do modo como os números funcionam, explica a Scientific American.
De acordo com estes especialistas, a aparente ligação entre os diferentes casos de cientistas desaparecidos poderá não ser mais do que uma ilusão, causada pelo chamado “princípio da improbabilidade“, abordado em 2014 pelo estatístico britânico David Hand num livro que explica porque motivo “as coincidências, os milagres e os eventos raros acontecem todos os dias”.
É a lei dos grandes números em ação. O princípio sustenta que, num mundo com mais de oito mil milhões de pessoas, coincidências aparentemente extraordinárias não são apenas possíveis — são praticamente inevitáveis.
Este princípio explica, por exemplo, como foi possível que, em 2009, na Bulgária, tivessem saído os mesmos 6 números na Lotaria em apenas 4 dias. Haveria de acontecer em algum ano, em algum sítio. E explica que, num grupo de apenas 23 pessoas, há 50% de probabilidade de duas fazerem anos no mesmo dia — o chamado “paradoxo do aniversário“.
Assim, não é necessário um enredo nefasto para explicar o desaparecimento de 12 cientistas em poucos dias. “Este é um caso para o princípio da improbabilidade“, diz Hand, sem rodeios.
A agitação à volta do caso começou com a morte de Nuno Loureiro. O físico português do MIT, antigo investigador no Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear do IST, foi baleado a 16 de dezembro pelo mesmo atirador que dias antes tinha aberto fogo sobre na Universidade de Brown, causando a morte a dois estudantes.
Os investigadores identificaram rapidamente o motivo do crime, que não tinha qualquer relação com questões de segurança nacional: o atirador era um antigo colega no IST, e ter-se-á deixado consumir por ciúmes pelo sucesso de Nuno Loureiro, que dirigia o Centro de Ciência do Plasma e Fusão do MIT desde 2024.
Ainda assim, comentadores nas redes sociais não tardarem em especular que Loureiro teria sido visado por causa do seu trabalho em fusão nuclear, uma área que promete energia limpa e abundante, com algumas ligações à investigação em armamento.
A partir daí, o alegado padrão expandiu-se rapidamente, e de forma arbitrária. Por exemplo, num artigo publicado a 20 de fevereiro, a escritora Jessica Reed Kraus estabelecia no seu blog uma ligação entre Loureiro e o astrofísico Carl Grillmair, que tinha sido baleado uns dias antes, em casa, na Califórnia — assinalando que ambos eram “versados em catástrofes planetárias“.
Mas a ligação entre a fusão nuclear e a investigação sobre exoplanetas, a verdadeira especialidade de Grillmair, é, na melhor das hipóteses, ténue, nota a Scientific American.
Hand identifica duas armadilhas cognitivas que ajudam a explicar como a lista continuou a crescer. A primeira é o efeito “suficientemente próximo”: a tendência para alargar definições até que casos sem relação entre si pareçam encaixar num padrão.
A segunda é o efeito “procurar noutro lado”, um termo importado da física de partículas, que descreve a tentação de vasculhar grandes conjuntos de dados até surgir um agrupamento sugestivo, mesmo quando esse agrupamento não é mais do que ruído estatístico.
Ambos os efeitos são claramente visíveis na investigação do FBI. Um grupo de quatro pessoas desaparecidas no Novo México foi acrescentado à lista, apesar de apenas duas terem qualquer ligação ao Laboratório Nacional de Los Alamos e de nenhuma ser cientista no ativo.
Um outro grupo, associado ao Jet Propulsion Laboratory, na Califórnia, incluía um homem desaparecido durante uma caminhada e dois cientistas que morreram de causas não reveladas, com 59 e 61 anos. O enredo complicava-se, mas dificilmente escapa à dura lei dos grandes números — que contam uma história diferente.
Cerca de 200.000 adultos são dados como desaparecidos nos EUA todos os anos, e cerca de 70.000 pessoas trabalham em áreas relacionadas com a energia nuclear. Os modelos estatísticos preveem que, sem que seja necessária uma conspiração, cerca de 50 destes trabalhadores desapareçam anualmente.
“Não creio que haja realmente um mistério ou, na verdade, algo suspeito que precise de ser explicado”, afirma Hand.
Numa entrevista à Fox News, o mediático físico Michio Kaku mostrou-se alarmado com o inédito número de cientistas desaparecidos. “Isto é inédito. Nunca aconteceu antes. O próximo passo é determinar se existe um fio condutor comum nas suas pesquisas que as ligue a um aspeto específico da segurança nacional”.
Não é certo que seja inédito, como diz Kaku. Provavelmente, aconteceu antes, ou acontece até todos os anos, e simplesmente passa despercebido. O chamado fenómeno Baader-Meinhof explica porque as 11:11 nos ficam na cabeça, ou as livrarias começaram a provocar uma enorme vontade de ir à casa de banho.
Mas mesmo que seja inédito tanto cientista desaparecido em tão pouco tempo, o princípio de Hand deixa bem claro: coisas inéditas acontecem todos os dias. Mesmo com cientistas.