Muito se tem escrito sobre o que se passa na Nova SBE nos últimos tempos. Esses temas são importantes. Mas entre especulações, interpretações e ruído, talvez valha a pena abrir um pouco a porta e mostrar algumas das coisas que realmente se passam dentro da escola. Não são provavelmente aquelas que o leitor espera encontrar nas manchetes. São mais silenciosas e aparentemente menos interessantes. Porque aquilo que ocupa diariamente muitos dos corredores, gabinetes e salas da Nova SBE não são temas institucionais, mas perguntas difíceis sobre o mundo — e tentativas sérias de lhes responder.
As universidades existem para ensinar. Mas ensinar bem implica mais do que transmitir matéria já conhecida. Exige contacto permanente com a fronteira do conhecimento, com problemas ainda mal compreendidos, com ideias que estão a ser testadas pela primeira vez. Uma escola deixa de ser verdadeiramente universitária quando deixa de investigar e treinar, de forma repetida, o método científico. E aquilo que se investiga acaba inevitavelmente por moldar o que, e como, se ensina.
Nos últimos anos, os professores e investigadores da Nova SBE têm participado em trabalhos publicados em algumas das revistas científicas mais exigentes e prestigiadas do mundo. Trata-se de uma performance na área sem paralelo em Portugal, estudando temas que vão da criminalidade urbana à migração qualificada, das decisões de mães em zonas rurais do Paquistão ao funcionamento do mercado obrigacionista americano. Apesar da sua diversidade, todos procuram compreender melhor como as pessoas decidem, como as instituições funcionam, e porque é que algumas sociedades conseguem criar prosperidade enquanto outras permanecem bloqueadas.
Foco-me apenas em 8 dos 40 artigos científicos publicados em revistas de topo por investigadores da Nova SBE em 2025. Estão todos acessíveis na Internet, ou através de contacto direto com os autores.
Num estudo publicado na Econometrica, o professor Nikita Melnikov e coautores estudam o impacto territorial dos gangues em El Salvador. O artigo explora um fenómeno quase cinematográfico: após alterações na política migratória americana nos anos 1990, membros de gangues foram deportados dos EUA para El Salvador, onde recriaram sistemas de controlo territorial semelhantes aos de Los Angeles. O resultado? Pessoas que vivem literalmente 50 metros dentro de uma zona controlada por gangues apresentam piores rendimentos, menor mobilidade laboral e piores condições de vida do que pessoas do outro lado da fronteira invisível. O mecanismo central não é apenas violência: é a restrição da mobilidade quotidiana. A capacidade — ou incapacidade — de atravessar a cidade para trabalhar.
Noutro extremo do mundo, os professores Cátia Batista e Pedro Vicente estudaram o impacto do “mobile money” em zonas rurais de Moçambique. O trabalho mostra que permitir transferências monetárias por telemóvel melhora a capacidade das famílias lidarem com choques económicos e climáticos. Curiosamente, porém, o efeito não é apenas “mais tecnologia, mais desenvolvimento”. O estudo sugere também que o acesso a dinheiro móvel facilita a migração rural, ao tornar mais simples o envio de remessas. Ou seja: uma tecnologia financeira aparentemente simples altera estruturas familiares, padrões migratórios e decisões de investimento.
A migração surge aliás repetidamente como tema central. Num artigo recente na Science, a professora Cátia Batista e coautores discutem uma das grandes questões do debate contemporâneo: quando profissionais qualificados emigram, os países de origem perdem talento — ou acabam por ganhar? A resposta é mais subtil do que o slogan “brain drain”. Em muitos casos, a possibilidade de emigrar aumenta o incentivo para adquirir educação, gera remessas, cria redes internacionais e pode até estimular novos sectores económicos nos países de origem.
Mas a investigação feita na Nova SBE não se centra apenas em países em desenvolvimento ou grandes fenómenos geopolíticos. Há também trabalhos sobre questões muito concretas do quotidiano das economias modernas.
Um exemplo é o debate sobre a semana de quatro dias. Num artigo recente no British Medical Journal, o professor Pedro Pita Barros e coautores perguntam se o NHS britânico estaria preparado para esse modelo. A questão não é apresentada como uma utopia ideológica, mas como um problema económico e organizacional complexo: menos burnout poderá significar menos absentismo, menos erros e maior retenção de profissionais — mas em saúde os ganhos de produtividade têm limites muito diferentes dos de outros sectores…
Outro trabalho, do professor Nicholas Hirschey e coautores, analisa o gigantesco mercado de dívida municipal dos Estados Unidos — o sistema que financia escolas, estradas ou sistemas de água. O artigo mostra como mercados aparentemente sofisticados podem continuar surpreendentemente ineficientes e caros, penalizando contribuintes e investidores através de custos escondidos e falta de transparência. O estudo tem lições claras, relevantes para a nossa governação local.
Há também investigação sobre empreendedorismo. O professor Miguel Ferreira e coautores utilizaram a lotaria de Natal espanhola para estudar o impacto de choques inesperados de riqueza na criação de empresas. O resultado é claro: acesso inicial a capital aumenta significativamente a criação de novos negócios e emprego. Muitas vezes, a diferença entre uma ideia permanecer apenas uma ideia ou transformar-se numa empresa depende simplesmente da possibilidade de suportar o risco inicial.
Nem toda a investigação se centra em mercados ou desenvolvimento económico. A professora Melissa Prado e coautores estudaram a relação entre diversidade ideológica e desempenho de equipas de gestão financeira nos Estados Unidos. O trabalho sugere algo simultaneamente intuitivo e provocador: equipas com perspectivas políticas diferentes tendem a tomar melhores decisões — até ao ponto em que a polarização transforma diversidade em conflito improdutivo.
E há ainda investigação sobre a própria ciência. O professor Paolo Leone e coautores estudaram um tema cada vez mais importante: como criar sistemas de ciência aberta, em que dados, código e conhecimento possam ser partilhados de forma transparente sem destruir os incentivos individuais à investigação. Parece um tema interno à academia, mas afecta directamente a credibilidade da ciência moderna e a velocidade a que novos conhecimentos conseguem ser produzidos.
Talvez o aspecto mais interessante desta diversidade de temas seja precisamente aquilo que ela revela sobre uma escola moderna. Uma universidade não é apenas um lugar onde se repetem conhecimentos estabilizados. É um lugar onde se tenta perceber coisas que ainda não compreendemos completamente. Onde pessoas passam anos a investigar uma pergunta que ninguém conseguiu “atacar” antes. Onde se analisam dados de bairros controlados por gangues, aldeias moçambicanas, mercados financeiros americanos ou decisões familiares no Paquistão, não porque esses temas estejam “na moda”, mas porque ajudam a compreender melhor a condição humana, as instituições e os limites das sociedades em que vivemos.
O espírito científico é talvez uma das coisas mais difíceis de explicar — mas uma das mais importantes de preservar. A ideia de que o conhecimento não surge de slogans, de certezas instantâneas ou de posições pré-definidas, mas de dúvida disciplinada, curiosidade genuína e disponibilidade para descobrir que a realidade é mais complexa do que gostaríamos. Investigar é aceitar viver na incerteza. É fazer perguntas sem garantia de encontrar respostas simples.
E é também esse ambiente que se vive diariamente na Nova SBE. Um ambiente de debate, descoberta, experimentação e confronto de ideias. Um ambiente onde professores, investigadores, e alunos tentam compreender melhor o mundo. Porque, no fim, talvez seja isso que define melhor uma universidade: um lugar onde o conhecimento ainda está vivo, ainda incompleto, e ainda em construção.