No dia 13 de abril o MV Hondius chegava à costa de Tristão da Cunha, depois de partir do Ushuaia a 1 de abril e passar pela Antártica e pelas Ilhas Georgia do Sul. O grupo de ilhas vulcânicas no Oceano Atlântico Sul é conhecido como o território habitado mais remoto do mundo: com uma população de 221 habitantes, fica a mais de 2,4 mil quilómetros de distância da comunidade habitada mais próxima, e o acesso só se dá por barco. Foi aqui que desembarcou um britânico residente e que outros quatro moradores da ilha embarcaram, numa boleia para uma viagem ao exterior. Os 110 passageiros também chegaram a sair para explorar a ilha, revela num blog a responsável pelo turismo em Tristão da Cunha, Kelly Green, que descreve ao pormenor a visita do último navio de cruzeiros da temporada. Nesta altura a primeira vítima do surto de hantavírus a bordo já tinha morrido há dois dias — mas ainda não se adivinhava que a doença do neerlandês de 70 anos causaria uma crise sanitária mundial.
UK specialist paratroopers and military clinicians have carried out a daring parachute operation to deliver critical medical support to Tristan da Cunha – Britain’s most remote inhabited Overseas Territory – after a suspected case of Hantavirus was identified on the island. pic.twitter.com/w0xPU8fvcw
— Ministry of Defence ???????? (@DefenceHQ) May 10, 2026
“Trouxe consigo um ilhéu que regressava, e gentilmente levou consigo uma família de ilhéus que está a viajar para o exterior. Mas não foi só isso que levou. Levou também vários sacos de batatas de Tristão que haviam sido encomendados por pessoas em Santa Helena, além de um carregamento de marisco fresco para a cozinha do navio, incluindo a nossa famosa lagosta”, escreve Green, sobre a passagem do MV Hondius por Tristão da Cunha. Depois de no dia 16 de abril o navio dar a volta ao redor da Ilha Gough, a embarcação seguiu viagem para a Ilha de Santa Helena, onde chegaria a 22 de abril. Foi lá que pelo menos 29 passageiros desembarcaram — incluindo a segunda vítima mortal, a mulher do neerlandês que havia morrido duas semanas antes a bordo.
No passado domingo, quando já se conhecia a causa das mortes, médicos britânicos foram enviados de paraquedas a Tristão da Cunha para tratar do britânico residente na ilha que poderá ter sido infetado pelo hantavírus a bordo do MV Hondius, informou o Ministério da Defesa britânico. O homem, considerado um caso suspeito, desembarcou na ilha na escala entre 13 e 15 de abril, mas de acordo com a OMS, e só apresentou sintomas compatíveis com o hantavírus a 28 de abril. Neste momento, o cidadão britânico apresenta estado de saúde estável e está em isolamento. Contudo, a disponibilidade de oxigénio na ilha estava em níveis críticos, informou o Ministério da Defesa, e, por isso, foi decidido que um lançamento aéreo de profissionais e oxigénio era a única forma para levar tratar paciente a tempo: “A operação também garantirá a resiliência do sistema de saúde em geral na ilha, apoiando a equipa médica de dois militares de Tristão da Cunha.”
Essential aid delivered from the sky.
Members of the Parachute Regiment parachute on to the remote island of Tristan da Cunha. They mark a drop zone then call in an air drop of essential medical supplies from the RAF. 1000s of miles away in the middle of the Atlantic…only they… pic.twitter.com/lAGYZ85c9w— Al Carns (@AlistairCarns) May 10, 2026
A equipa, composta por seis paraquedistas e dois médicos militares pertencentes à 16.ª Brigada Aerotransportada, voou quase sete mil quilómetros a partir da base aérea da Royal Air Force (RAF) na cidade britânica de Brize Norton até a Ilha de Ascensão. A seguir, a equipa seguiu na mesma aeronave, um Airbus A400M Atlas, por mais de três mil quilómetros até Tristão da Cunha, onde os profissionais saltaram de paraquedas. No caminho, o grupo recebeu o apoio de uma aeronave Voyager para reabastecer o A400M em pleno ar. Outro pormenor que dificultou a operação tem a ver com as condições climáticas na região, com ventos que frequentemente ultrapassam os 40 quilómetros por hora.
“Esta foi uma operação extraordinária em circunstâncias extremamente desafiadoras para levar ajuda vital aos nossos cidadãos em Tristão da Cunha. Quero prestar uma enorme homenagem aos nossos bravos militares por desempenharem a sua missão com o máximo profissionalismo e serenidade sob pressão. Este é um verdadeiro esforço intergovernamental que demonstra a nossa determinação em apoiar os nossos territórios ultramarinos e os cidadãos britânicos afetados pelo surto de hantavírus”, disse o ministro britânico das Forças Armadas, Al Carns, no comunicado.
Esta foi a primeira operação de apoio médico e humanitário por meio de um salto de paraquedas realizada pelas forças armadas do Reino Unido.