Neonazi, viciado em drogas e um mero comediante. Desde 24 de fevereiro de 2022, a Rússia não tem poupado críticas nem insultos ao Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. O Kremlin nunca escondeu que queria um líder na Ucrânia mais amigável e pró-russo — este foi, aliás, um dos objetivos assumidos da “operação militar especial” que já dura há mais de quatro anos. Este sábado, porém, aconteceu algo inédito: o chefe de Estado russo, Vladimir Putin, não criticou o rival, cujo nome evitou pronunciar durante muito tempo. Em vez disso, tratou-o por “senhor Zelensky” — um termo novo e incomparavelmente mais respeitoso do que os usados no passado.
No sábado, a Rússia organizou o desfile do Dia da Vitória, que celebrou os 81 anos da vitória do Exército Vermelho sobre a Alemanha nazi. Ao contrário do que aconteceu em 2025, quando o Kremlin apostou num espetáculo grandioso para mostrar o poderio militar, o desfile de 2026 foi mais curto, discreto e com muito menos brilho. Aliás, a Ucrânia ameaçou atacar Moscovo com drones e ainda brincou com a situação ao dar uma alegada “autorização” para que o desfile acontecesse. Mais do que a parada em si, entre bloqueios à internet e uma operação de segurança sem precedentes, o 9 de maio de 2026 expôs uma fragilidade que há muito não se via na Rússia.
Neste contexto, no sábado, Vladimir Putin disse aos jornalistas que acredita que a guerra na Ucrânia “está perto do fim”. O Presidente russo abriu a possibilidade de se encontrar com o “senhor Zelensky”, mas impôs a condição de que isso seria apenas numa fase final de um eventual processo de paz, quando já estivesse praticamente fechado um acordo. E até concedeu que a Europa podia estar sentada à mesa das negociações, ainda que tenha escolhido para interlocutor alguém com um longo historial pró-russo: o antigo chanceler alemão, Gerhard Schröder.
Putin tone changed.
Putin in 2022: A gang of drug addicts and neo-Nazis.
Putin in 2026: Mr. Zelensky.@smotri_media pic.twitter.com/rlT71KWym1
— Open Source Intel (@Osint613) May 10, 2026
Mesmo com todas as limitações, o Presidente russo aparenta ter feito algo praticamente inédito desde o início da guerra: ceder. Nos últimos dois anos, Moscovo evitou admitir a hipótese de um encontro pessoal com Volodymyr Zelensky e preferiu a ideia de negociar apenas com o Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), que funcionaria como mediador da Ucrânia na mesa das negociações. O objetivo era claro: jogando com o impulso de Donald Trump em querer terminar o conflito o mais depressa possível — e conhecendo a desconfiança do republicano e de parte da administração em relação a Kiev —, o Kremlin esperava levar àvante uma posição maximalista.
Contudo, isso nunca aconteceu. Apesar de Donald Trump manter alguma hostilidade em relação à liderança ucraniana, os EUA continuam a prestar apoio militar e logístico à Ucrânia, mesmo que seja através da NATO. A Europa passou a ficar com grande parte do encargo financeiro do conflito, mas Washington tem dado luz verde à compra de equipamentos militares para as forças ucranianas e continua a partilhar informações confidenciais, essenciais para travar avanços russos na linha da frente. Nesta ordem de ideias, o esforço de guerra ucraniano não vai cessar pelo menos nos próximos dois anos — o empréstimo de 90 mil milhões de euros da União Europeia (UE) aprovado em abril de 2026 serve precisamente para isso.
A guerra de atrito — e o consequente impasse militar na maior parte da linha da frente — deverá, assim, manter‑se. Mas algo mudou em relação aos últimos anos: as condições políticas dentro da Rússia. A taxa de aprovação de Vladimir Putin tem vindo a cair há várias semanas e o desconforto com a guerra começa a tornar‑se visível. Tirando partido da superioridade tecnológica no uso de drones, a Ucrânia tem atacado cidades e infraestruturas em território russo, provocando disrupções no dia a dia. Os sucessivos bloqueios à internet deixaram muitos russos irritados, enquanto a situação económica continua a piorar. Perante este cenário, o chefe de Estado russo apresenta‑se agora como disponível para negociar. Mas será esse um esforço honesto — ou apenas uma manobra tática?
O Presidente russo já tinha tentado passar a imagem de que queria negociar. Na Páscoa ortodoxa, em meados do mês passado, deixou em aberto a hipótese de uma trégua limitada. Antes do Dia da Vitória também — com receio de que a Ucrânia atacasse Moscovo com drones durante o desfile. Aliás, Vladimir Putin falou ao telefone na quarta-feira, dia 29 de abril, para negociar com Donald Trump um cessar-fogo temporário a 9 de maio. Durante o telefonema, os dois líderes falaram sobre o conflito e que tipo de negociações poderia haver.
No último ano e meio, desde que Donald Trump regressou à Casa Branca, a Rússia levantou vários problemas em negociar diretamente com o lado ucraniano. As negociações estão num impasse; o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, admitiu na semana passada que estagnaram. Os Estados Unidos tentaram facilitar um processo de paz, mas os resultados não “deram frutos”: “Continuamos preparados para desempenhar esse papel se puder ser produtivo. Não queremos gastar o nosso tempo ou investir energia num esforço que não avança”.
Entre chamadas telefónicas, reuniões presenciais na Suíça e nos Emirados Árabes Unidos e viagens a Moscovo e Kiev dos enviados especiais norte-americanos, a administração Trump empenhou-se para que esta guerra terminasse. Mas as duas partes mantiveram-se sempre inflexíveis em relação a um ponto: o futuro e o controlo da região do Donbass. A Rússia quer controlar inteiramente a província de Donetsk e Lugansk, mas a Ucrânia não aceita uma cedência territorial nestes moldes, ainda para mais quando as tropas ucranianas ainda controlam partes de Donetsk.