António Salvado Morgado, Diocese da Guarda
Vamos para Marte fazendo escala na Lua. E, de Marte, vamos para mais além. E mais além ainda, aos saltos de planeta em planeta, a desafiar os deuses que deram nome aos astros, mas ancorados no mandado de Deus: crescei, multiplicai-vos e habitai a Terra com dignidade e o suor do vosso rosto. E, ao som da harmonia sideral, e com o engenho com que fomos criados, estendemos o nosso suor ao lugar onde a Terra habita, o Cosmos.
E o ser humano armou-se com a Ciência. Com as Ciências e a Tecnologia – a Astronomia, a Física, a Astrodinâmica, a Ciência dos Materiais, a Engenharia Aeroespacial, a Computação, a Medicina Espacial, a Biologia e a Psicologia – lançou-se na vertigem do espaço sideral. Primeiro à superfície da Terra em pássaros mecânicos e, mais recentemente, em naves com nomes de deuses da mitologia clássica. Ártemis II é a última versão. A nave que foi mais longe no espaço cósmico e explorou a parte invisível da Lua. Foi a 400.700 km e regressou à Terra entrando na atmosfera à velocidade de 40 mil quilómetros por hora. Anda por aí o admirável mundo do saber. Incipiente embora, se tivermos a humildade de nos lembrarmos, como nos ensina a Filosofia e a própria Ciência, que, quanto mais se enche o balão elástico do saber humano, mais se alarga também o espaço do não saber.
Dez dias de viagem de quatro destemidos astronautas que, deixando a Terra no primeiro dia de Abril, a ela regressaram no dia onze do mesmo mês. E não eram só americanos; eram três americanos e um canadiano. E não eram só astronautas brancos; eram três brancos e um de cor negra. E não eram só homens; entre os cosmonautas havia uma mulher. Assinalável esta multiplicidade a evocar a unidade do género humano. Da Humanidade. E não faltou sequer a presença simbólica da infância representada num boneco de peluche, o “Rise”, desenhado por uma criança de oito anos, uma mascote que serviu como indicador de gravidade zero ao sinalizar visualmente para a tripulação e para as câmaras que se encontravam física e oficialmente em ambiente espacial. É o “Rise” que, a significar a ascensão e a elevação, se constituiu como uma espécie de «quinto passageiro» a representar as próximas gerações e o futuro.
Pluralidade de ciências constituídas na unidade de uma função: unidade na pluridisciplinaridade que tornou possível a viagem. Diversidade de seres humanos constituídos numa unidade de missão.
Enviando quatro seres humanos para além da Lua, estamos a levar conhecimento materializado em artefactos técnicos, mas estamos também a levar o ser humano, com todas as fragilidades, para um lugar estranho à sua ontologia. Daí todas as precauções para a partida, manutenção espacial e amaragem e, já em terra, todos os cuidados com a saúde e o bem-estar dos quatro astronautas.
Mas as fragilidades encontram-se ainda noutro âmbito. Nós, humanos, que conseguimos congregar-nos para elevarmos a ciência e a técnica na unidade de uma histórica viagem interplanetária, não conseguimos vislumbrar na Terra a unidade da comunidade humana, como se uniram aqueles quatro astronautas para a unidade da missão. Enquanto os astronautas, lá nas lonjuras, cumpriam, ponto por ponto, os passos da sua missão, outros, em vários lugares da Terra, movimentavam-se nas trevas da guerra. Outros, virando as costas à cooperação, mais parecem anunciar outras guerras em lugares indefinidos de outros mundos, numa espécie de futura guerras estrelas, quando vivemos num século em que os seres humanos se encontram em condições científicas de redescobrirem a sua humanidade.
Por isso ganham significativa ressonância a frase, que mais parece um apelo, da astronauta Christina Koch «Planeta Terra: vocês são uma equipa» ou as palavras ditas pelo astronauta Jeremy Hansen que recomenda «… olhar para o que a Humanidade pode fazer junta.» E o Comandante Viseman sintetiza, exclamando: «É algo especial ser humano e é algo especial estar no planeta Terra».
Parece, assim, estarem à vista a miséria e a grandeza do Homem. Daí a pergunta já tantas vezes formulada, mas que não pode ser esquecida: qual é o lugar do Homem no Universo?
Ou então, a pergunta mais radical, sempre formulada e nunca cabalmente respondida: o que é o Homem? Qual a sua ontologia profunda?
Ou ainda, descendo mais à Terra e de onde partimos: para onde vamos, quando, fazendo escala na Lua, olhamos para Marte e para mais além? É isso um desafio do nosso desejo de Conhecer, uma imposição do nosso Agir, ou um imperativo do nosso Ser?
Guarda, 18 de Abril de 2026
António Salvado Morgado
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