Os sistemas de localização de dezenas de navios no Golfo Pérsico começaram a apresentar dados considerados impossíveis ou incoerentes, numa altura em que aumentam as tensões militares no Estreito de Ormuz após novos ataques do Irão contra países vizinhos. A anomalia está a levantar preocupações sobre uma intensificação das operações de guerra eletrónica numa das rotas marítimas mais importantes do mundo para o transporte de petróleo e gás.
Os dados de rastreamento marítimo mostravam cerca de 120 embarcações aparentemente concentradas numa área situada em terra firme, a aproximadamente uma hora de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Ao mesmo tempo, esses navios indicavam velocidades próximas dos 50 nós, sem qualquer alteração real de posição. Outro grupo mais pequeno, com cerca de uma dúzia de embarcações, aparecia perto da fronteira terrestre entre Omã e os Emirados Árabes Unidos, alegadamente a navegar a mais de 100 nós, velocidades incompatíveis com o tráfego marítimo normal.
Especialistas apontam que estas leituras anómalas são um forte indício de interferência deliberada nos sinais de geolocalização dos navios, prática conhecida como “signal jamming”. O fenómeno surgiu poucos dias depois de os Emirados Árabes Unidos terem confirmado a ativação dos seus sistemas de defesa aérea para intercetar mísseis e drones lançados por Teerão, naquele que foi o primeiro ataque iraniano contra o país em quase um mês.
Mark Douglas, analista da Starboard Maritime Intelligence, explicou à Bloomberg que a intensificação da guerra eletrónica deverá estar diretamente relacionada com a deterioração da situação militar na região. Segundo afirmou, é provável que os Emirados Árabes Unidos e outros países do Golfo tenham ativado sistemas eletrónicos de defesa após os ataques recentes do Irão.
“O transporte marítimo, e particularmente os dados AIS, acabaram apanhados no fogo cruzado”, afirmou o especialista, numa referência ao Sistema de Identificação Automática, tecnologia usada pelos navios para transmitir em tempo real a sua posição através de sinais rádio.
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Estreito de Ormuz continua praticamente paralisado
Apesar de os atuais níveis de interferência não serem considerados tão severos como os registados no início do conflito, os novos agrupamentos de embarcações em locais improváveis sugerem uma nova subida da atividade de bloqueio eletrónico, depois de um período de relativa diminuição dessas perturbações.
A situação está a dificultar significativamente a monitorização do tráfego marítimo no Golfo e no Estreito de Ormuz, passagem considerada estratégica para os fluxos energéticos globais. Aproximadamente um quinto do petróleo mundial transportado por via marítima atravessa esta zona, o que faz com que qualquer perturbação tenha impacto direto nos mercados internacionais da energia.
Perante o agravamento do risco, vários comandantes de navios começaram também a recorrer a medidas preventivas, como desligar os transponders das embarcações para evitar serem identificados por forças hostis. Dados de rastreamento mostram linhas retas abruptas nos percursos de alguns navios, um sinal normalmente associado à desativação temporária dos sistemas de transmissão.
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A tensão aumentou ainda mais depois de um navio de carga ter sido alvo de um ataque na região durante o domingo. O incidente contribuiu para manter praticamente interrompido o tráfego através do Estreito de Ormuz esta segunda-feira.
A travessia de petroleiros continua extremamente reduzida, embora duas embarcações tenham conseguido efetuar a passagem rumo ao Golfo de Omã. Uma delas, o “Agios Fanourios I”, é um grande petroleiro carregado com crude iraquiano e tinha como destino indicado o Vietname.